Por Eduardo Magossi — De São Paulo
09/02/2023 05h01 Atualizado há 4 horas
A reabertura da China e a queda dos preços de energia, que estão reduzindo as expectativas de desaceleração da economia global, juntamente com o crescente sentimento de que o Federal Reserve (Fed) vai começar a pisar no freio de seu aperto monetário, devem levar o dólar a encerrar seu ciclo de fortalecimento, avalia Kiran Kowshik, estrategista de câmbio da Lombard Odier.
O economista destaca que, ao contrário de 2022, quando as expectativas de recessão davam força ao dólar, agora a projeção de crescimento da China de 5% em 2023 esfria a divisa americana. Além disso, enquanto o Fed dá sinais de redução no ritmo do aperto, o Banco Central Europeu (BCE) e mesmo o Banco do Japão (BoJ) apontam para caminho oposto, o que deve levar a uma valorização maior que o esperado inicialmente para o euro e o iene em 2023.
A expectativa da Lombard Odier é que o euro termine 2023 cotado a US$ 1,12 – a previsão anterior era de US$ 1,08. Já para o iene, a expectativa é que o dólar encerre o ano a 120 ienes, ante 128 ienes previstos anteriormente. Segundo Kowshik, a projeção de valorização do iene se baseia em melhores condições de comércio e no aumento da expectativa de que o Banco do Japão irá abandonar sua política monetária ultraflexível e suas medidas de estímulo extraordinários, como o controle das curvas de rendimentos. “O iene está se tornando um atraente porto seguro alternativo ao dólar”, afirmou ele em entrevista ao Valor.
Para o economista, o dólar vai perder força mesmo que os juros americanos fiquem acima de 5% porque a moeda é guiada por tendências de liquidez global, incluindo a política do Fed, mas também por expectativas de crescimento internacional. “Neste início de 2023, o cenário é mais promissor para China e Europa”, disse, com a China sendo beneficiada pelo afrouxamento da política relacionada à covid e a Europa pelo inverno mais ameno e preços menores de energia, enquanto os EUA devem enfrentar leve recessão.
Enquanto o dólar enfraquece, o euro deve se valorizar impulsionado também por melhorias no comércio. “Com os altos preços de gás em 2022, o superávit comercial europeu se transformou em déficit. Graças a ganhos de eficiência no consumo de energia e a um inverno mais ameno, a balança comercial vai voltar para o superávit, dando suporte ao euro”, disse. Segundo ele, este é um fator mais importante que o aperto monetário do BCE porque, em 2022, enquanto estava elevando os juros, o euro seguia se desvalorizando.
Kowshik ressalta, contudo, que a libra não conseguirá se beneficiar muito da queda dos preços de energia como o restante da Europa porque o Reino Unido perdeu participação no comércio global em consequência do Brexit. “Além disso, o Reino Unido tem unidades limitadas de armazenamento de gás comparado com a zona do euro. E o Banco da Inglaterra terá dificuldades em elevar os juros significativamente em função do enfraquecimento de seu mercado imobiliário”, disse. A expectativa é que a libra seja negociada entre US$ 1,21 e US$ 1,25 em 2023.
Assim como o euro, Kowshik projeta que o iene vai ser muito beneficiado pela queda dos preços de energia. “O Japão, como a zona do euro, é um grande importador de energia. Então quando os preços de energia subiram em 2022, o Japão e a Europa enfrentaram um choque negativo em seu comércio. A balança comercial das duas regiões pioraram, e suas divisas se desvalorizaram. Com os preços de energia muito menores nos últimos meses, a balança comercial japonesa vai melhorar e dar sustentação ao iene”, afirmou.
Além disso, o economista acredita que existe um potencial real de que o Banco do Japão remova o controle sobre o rendimento do título do governo de dez anos, deixando-o flutuar livremente. Desde 2016, o banco central japonês definiu uma meta para o rendimento e implementou uma política de controle para a curva de juros.
Para o economista, um cenário de dólar mais fraco é benéfico para os emergentes, incluindo o Brasil. “Isso melhora o sentimento de risco dos ativos dos mercados emergentes. Entretanto, o cenário de crescimento global também importa, e uma China mais forte deve ser bom para o Brasil também.”
Fonte: Valor Econômico
