Por Jason Douglas — Dow Jones Newswires, de Cingapura
16/08/2022 05h03 Atualizado há 4 horas
A economia da China tropeçou em julho, depois do esgotado o impulso de dois meses proporcionado pelo afrouxamento dos “lockdowns”, o que levou o banco central do país a cortar inesperadamente os juros, num esforço para dar suporte ao crescimento.
Uma série de dados divulgados ontem mostrou que a atividade econômica desacelerou de forma generalizada em julho, incluindo a produção industrial, os investimentos em imóveis, os gastos de consumo e a contratação de jovens, mostrando o tamanho do desafio econômico que as autoridades monetárias enfrentam em um ano politicamente sensível para o presidente Xi Jinping, que busca um extraordinário terceiro mandato no poder.
Economistas afirmam que o corte no juro e a injeção de liquidez pelo BC chinês pouco farão para estimular a contratação de crédito pelas famílias e empresas, diante da ameaça de novas restrições para conter qualquer surto de covid-19 e do desânimo diante da piora nas perspectivas para o crescimento e o emprego.
A nova evidência da desaceleração da China soma-se aos desafios diante da economia global, que já sofre com as consequências da invasão da Ucrânia pela Rússia e os esforços dos bancos centrais dos EUA, Europa e de outros países para controlar a inflação via aumento dos custos de financiamento.
Sendo a China de maior consumidora de matérias-primas do mundo, os fracos dados repercutiram nos mercados de commodities. Os preços do petróleo do tipo Brent chegaram a cair mais de 3% para US$ 95,10 por barril, bem abaixo da máxima de quase US$ 128 por barril alcançada logo após a invasão da Ucrânia pela Rússia. Os preços do cobre caíram 2,5% para cerca de US$ 7.900 a tonelada métrica e os contratos futuros de soja recuaram 2,9% para US$ 14,12 o bushel. A China consome cerca de 15% do petróleo mundial, importa mais petróleo do que qualquer outro país e consome mais da metade do cobre refinando.
As ações dos EUA e os rendimentos dos bônus do governo chinês também caíram, enquanto o dólar subiu cerca de 0,7% em relação ao yuan chinês offshore.
A segunda maior economia do mundo sofre os efeitos da política de tolerância zero de Pequim no combate à covid-19, e também do esvaziamento de uma bolha imobiliária que vem provocando protestos e um boicote aos pagamentos de financiamentos imobiliários em várias províncias e cidades. Os consumidores relutam em gastar e as empresas temem investir, uma consequência da “enorme incerteza com o futuro”, diz Alicia García-Herrero, do banco de investimentos Natixis em Hong Kong.
Um sinal claro do mal-estar econômico da China é o fato de que um em cada cinco jovens chineses, ou 19,9%, estava desempregado em julho, segundo mostram dados divulgados ontem. É o maior nível desde que a China começou a divulgar esses dados em 2018.
O Banco do Povo da China (o BC chinês) cortou em 0,1 ponto porcentual duas importantes taxas de juros e injetou o equivalente a US$ 59,3 bilhões no sistema financeiro para acelerar os empréstimos e estimular o crescimento. A medida inesperada representou um pequeno passo em direção a um maior apoio à economia chinesa.
“O crescimento da demanda doméstica continua frágil, reprimido pelas políticas e pela preocupação crescente com as perspectivas econômicas, de modo que o BC chinês está tentando fazer o que pode para pelo menos dar suporte aos consumidores e empresas, para sustentar a demanda”, diz Eswar Prasad, professor de economia da Universidade Cornell.
Mas autoridades de alto escalão do governo sinalizaram não estar convencidas da necessidade de partir para estímulos bombásticos, como fizeram após a crise financeira de 2008-09 e em outros períodos recentes de turbulência econômica. Elas citaram riscos como inflação e aumento do endividamento e compararam a disciplina fiscal e monetária de Pequim com que veem como uma postura perdulária do Ocidente.
Economista do Standard Chartered reduziram ontem sua previsão de crescimento para a economia da China em 2022 de 4,1% para 3,3%. “Acreditamos que o caminho para a recuperação econômica da China será árduo”, disseram os economistas Wei Li, Shuang Ding e Hunter Chan, em nota.
Dados divulgados ontem pela Agência Nacional de Estatísticas da China mostram que a produção industrial cresceu 3,8% ao ano em julho, de um crescimento anual de 3,9% registrado em junho.
A produção industrial e as exportações foram um ponto positivo do crescimento chinês nos últimos dois anos. Mas os economistas alertam que a demanda por produtos chineses irá diminuir à medida que os consumidores ocidentais sentem o aperto da alta dos preços e dos juros.
As vendas no varejo, uma medida importante dos gastos consumidor, cresceram 2,7% ao ano em julho, de um ganho de 3,1% em junho. A confiança do consumidor foi abalada pela ameaça de lockdowns repetidos e os problemas no setor imobiliário chinês.
Os preços das novas moradias registraram a maior queda anual em mais de seis anos em julho, enfatizando a tensão presente no mercado imobiliário depois de um aperto regulatório de um ano que afetou as vendas e levou à paralisação de projetos e à inadimplência de incorporadoras imobiliárias.
Os preços das novas moradias nas 70 maiores cidades chinesas caíram em média 1,67% ao ano em julho, sendo que em junho a queda anual foi de 1,29%, segundo cálculos do “Wall Street Journal” com base nos dados oficiais divulgados ontem. O investimento em ativos fixos desacelerou em julho, para uma alta de 5,7% ao ano no período janeiro-julho, em comparação à alta de 6,1% registrada nos primeiros seis meses do ano.
Fonte: Valor Econômico
