O presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, afirmou que “optar por juros artificialmente mais baixos sem ter a âncora fiscal é equivalente a produzir um ajuste via inflação no médio prazo”. Campos Neto destacou que é necessário buscar harmonia entre a política monetária e a política fiscal.
Em evento promovido pela Crescera Capital, o presidente do BC destacou que o país precisa “produzir um regime onde existem expectativas positivas que façam com que as taxas de juros futuras caiam”. Segundo Campos Neto, no médio prazo o país vai precisar ter “algum tipo de programa” que gere uma percepção de um “choque fiscal positivo” se a ideia é conviver com juros mais baixos.
O Comitê de Política Monetária (Copom) destacou, na ata da última reunião, que uma política fiscal crível somada à persecução de estratégias fiscais que reforcem o compromisso com o arcabouço “são importantes elementos para a ancoragem das expectativas de inflação e para a redução dos prêmios de riscos dos ativos financeiros, consequentemente impactando a política monetária”.
Campos Neto ainda comentou que há “muita notícia boa” no Brasil, citando o crescimento forte e a mão de obra “muito melhor do que qualquer um imaginava”. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o desemprego caiu a 6,6% no trimestre terminado em agosto, o menor patamar para o período na série histórica iniciada em 2012.
O presidente do BC ressaltou que a mão de obra está mais apertada, mas considerou que “para esse nível de mão de obra, se a gente olhasse o que a gente chama de Nairu, que é a curva que relaciona a mão de obra com variáveis macroeconômicas, a gente estaria fazendo previsão de inflação muito maior e não está. Acho que essa é uma notícia boa”.
Na palestra, Campos Neto ressaltou que a inflação no Brasil está “um pouco melhor”, mas destacou que ainda existem preocupações. “Se eu digo que crescimento está acima do potencial, crédito forte e mão de obra apertada, é um trabalho do Banco Central sempre tentar se antecipar um pouco”.
Um dos temas pontuados pelo presidente do BC foi o da desancoragem das expectativas de inflação que, segundo Campos Neto, aparecem tanto nos preços de mercado quanto nas expectativas de analistas. A mediana de expectativas para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), segundo o relatório Focus, ficou em 4,37% em 2024; 3,97% em 2025; e 3,6% em 2026. A meta de inflação para os três anos é de 3% ao ano.

Optar por juros artificialmente mais baixos sem âncora fiscal é ter ajuste via inflação
O presidente do BC disse também que a inflação estava começando a convergir globalmente, mas no curto prazo essa convergência parou “um pouco”. Campos Neto citou que na América Latina, a inflação cheia está subindo ligada a uma inflação de alimentos e bebidas e ressaltou, globalmente, o efeito da inflação de serviços.
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Fonte: Valor Econômico