15/09/2022 – Jornalista:
As vendas do comércio frustraram as expectativas e recuaram pelo terceiro mês seguido, caindo 0,8% em julho ? a maior queda para o mês em quatro anos. Dados da Pesquisa Mensal de Comércio (PMC), divulgada ontem pelo IBGE, mostram que o brasileiro esvaziou o carrinho de compras, mas, ao mesmo tempo, encheu o tanque do carro, já que o segmento de combustíveis foi o único a apresentar alta nas vendas.
O número veio abaixo da projeção dos analistas, que esperavam alta de 0,3% em julho, apostando que o bom desempenho das vendas de combustíveis pudesse compensar o recuo nas demais atividades, mas a inflação seguiu sem dar trégua ao consumidor e às empresas. De acordo com o índice de Preços ao Produtor do IBGE, os preços no atacado acumulam alta de 18% em doze meses, o que exige repasse de custos por parte dos varejistas. O crédito mais caro já cobra seu preço sobre as vendas dos setores de eletrodomésticos e veículos, por exemplo.
No comércio varejista ampliado, que inclui o desempenho de segmentos como veículos, motos e material de construção, a retração foi de 0,7% frente a junho.
ESCOLHAS PARA CONSUMIR
Nove das dez atividades analisadas pela pesquisa do IBGE apresentaram retração no volume de vendas. Apenas o setor de combustíveis e lubrificantes mostrou crescimento, com avanço de 12,2% em relação ao mês anterior.
?Isso é resultado da política de redução do preço dos combustíveis ?diz Cristiano Santos, gerente da pesquisa do IBGE, citando que houve queda de 14,15% nos preços, segundo dados do índice de Preços ao Consumidor de julho.
O maior recuo foi observado no segmento de tecidos, vestuário e calçados, que caiu 17,1%, seguido por móveis e eletrodomésticos (3%). Artigos farmacêuticos e médicos caíram 1,4%. No comércio varejista ampliado, veículos e motos caíram 2,7%, e materiais de construção, 2%.
Segundo Santos, diante da redução da capacidade de consumo atual, o brasileiro tem feito escolhas na hora de consumir.
?O fato de ter aumento de preços influencia na decisão de consumo. O consumidor pode tomar a decisão de gastar mais em serviços e economizar no supermercado, por exemplo ?afirma.
O resultado do varejo em julho aponta, de acordo com economistas, para um setor que sofre os efeitos da alta generalizada dos preços e do aumento dos juros, e cujo desempenho tem sido ditado pelos estímulos do governo, como a antecipação do 139 e o saque do FGTS, para ficar no campo positivo. Conforme apontaram especialistas do Credit Suisse em relatório, a contração das vendas em julho reflete uma dissipação dos efeitos das primeiras medidas fiscais implementadas pelo governo no início de 2022, contribuindo para a desaceleração do consumo das famílias.
EFEITO DO AUXÍLIO EM AGOSTO
No entanto, alertam economistas do banco J.P. Morgan, será importante avaliar o desempenho a partir de agosto, quando começou a ser pago o Auxílio Brasil no valor de R$ 600. Outros benefícios foram criados pouco antes da eleição, como o aumento do vale-gás e o voucher de R$ 1 mil para caminhoneiros autônomos, além de ajuda a taxistas.
?A reação do consumo das famílias só vai se fazer sentir por causa dos recursos da Proposta de emenda à Constituição (PEC Eleitoral, que instituiu o benefício maior até o fim do ano), e não pela deflação de agosto. Mas o recado que fica e acende uma luz amarela é que o problema da inflação não foi corrigido ainda. Apesar da chegada desses recursos, a tendência é que o varejo tenha um restante de 2022 com desempenho fraco das vendas ? avalia Fabio Bentes, economista sênior da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), que revisou de 1,7% para 1,3% a projeção de crescimento das vendas do varejo este ano.
A percepção de Rodolfo Margato, economista da XP, é a mesma. Ele avalia que as medidas fiscais fornecerão algum suporte aos bens mais sensíveis à renda, mas não serão suficientes para interrompera tendência de desaceleração das vendas. A estimativa para o PI B do terceiro trimestre permanece em 0,5%, puxada pelo setor de serviços: ?Enquanto há uma trajetória sólida dos serviços, o consumo de bens, especialmente duráveis e semiduráveis, deve seguir em rota de enfraquecimento, ainda que suavizado pelos estímulos fiscais de curto prazo. Os dados reforçam o nosso prognóstico de crescimento no terceiro trimestre, porém mais modesto do que o visto no segundo trimestre.
Fonte: O Globo