A perda de atratividade de mercados centrais e relevantes fez com que agentes financeiros passassem a olhar os emergentes com mais atenção. Nesse grupo, o Brasil vem se destacando, até porque pares como Rússia e China também perderam parte do interesse de investidores globais. É nesse contexto que o chefe de investimentos (CIO) de fundos macro da AZ Quest, Laurence Mello, diz que o mercado brasileiro virou “a nobreza do que resta”.
“Quando o investidor global olha o que sobra, os emergentes mais organizados passam a ganhar destaque, e nesse contexto o Brasil acaba virando uma das alternativas viáveis.” Ainda que veja espaço para o fluxo estrangeiro continuar vindo ao país, Mello aponta que esse dinheiro é especulativo e, do mesmo jeito que veio, pode ir embora rapidamente. Na sua leitura, o câmbio pode até se beneficiar desse ingresso de recursos, mas isso pode não ser duradouro.
Valor: Qual o cenário para as eleições?
Laurence Mello: O que vai ter de diferente é o acirramento da briga entre direita e esquerda e qual caminho vai ser perseguido após a eleição. Se você tiver uma direita que não foque só em [pautas de] costumes, mas também na economia, você poderá ver um cenário como o que vimos em 2016 com o [presidente Michel] Temer, quando a inflação foi diminuindo ao longo do tempo, com o mercado ganhando confiança. Agora, não adianta escolher um candidato que quer fazer reforma econômica, mas não sabe fazer reforma econômica.
Valor: E se houver vitória da situação?
Mello: Se você tiver a esquerda como vitória nas eleições, fico em dúvida [se haverá melhora]. A esquerda não é favorável a ajuste fiscal, entende que o Estado tem que ser suporte ao crescimento. Isso significa que o país vai continuar entregando déficit fiscal, o que se traduz em juros altos e até um pouco de fuga de capital. Se os juros estão elevados, segue-se o manual: não tem que ficar em bolsa, não tem que ficar forçando tese de criptoativos ou coisas exóticas. Como os juros devem continuar altos, mantém-se o espaço atrativo para renda fixa. Crédito é essencialmente renda fixa com spread, segue interessante para quem aceita um pouco mais de risco do que títulos públicos.
Valor: O câmbio brasileiro pode continuar se beneficiando do dólar global fraco?
Mello: Se, após as eleições, o Brasil mantiver o cenário atual, independentemente de direita ou esquerda, e o dólar continuar um pouco mais fraco, o real pode, sim, se beneficiar. Lá fora existe uma discussão relevante: falta opção de alocação para os grandes gestores globais. A China, que já foi grande destino de capital, perdeu atratividade; a Rússia está fora do radar; há incertezas geopolíticas em vários países. Mesmo mercados desenvolvidos, como o Canadá, entram em ruído político. Os EUA seguem fortes, impulsionados por inteligência artificial, mas já estão bastante esticados em termos de “valuation”. Quando o investidor global olha o que sobra, os emergentes mais organizados passam a ganhar destaque, e nesse contexto o Brasil acaba virando uma das alternativas viáveis. Quando você vai pegando o que resta, viramos a nobreza do que resta. Por incrível que pareça.
Valor: Isso pode se sustentar?
Mello: Se o cenário geopolítico continuar favorecendo a realocação global de capital e o dólar seguir mais fraco, o real tende a se beneficiar com a entrada de fluxo. Mas é importante diferenciar: não seria um fluxo estrutural como em 2008 e 2009, voltado para investimento produtivo. Seria principalmente fluxo financeiro, compra de bolsa barata, juros ainda altos, arbitragem tática. Esse dinheiro é mais especulativo e pode sair rapidamente. Portanto, o real pode se valorizar nesse ambiente, mas depende de muitas variáveis, como cenário geopolítico, movimentos de figuras como Trump, dinâmica entre EUA e Europa e a própria intenção americana de conviver com um dólar mais fraco.
Valor: Já se ouve apostas em níveis de dólar bem mais baixos…
Mello: A projeção de câmbio mais apreciado, com dólar em níveis próximos a R$ 4,40, como mencionados pelo [gestor da Verde] Luis Stuhlberger, reflete essa combinação de fatores globais e domésticos convergindo na mesma direção. O dólar pode cair para R$ 4,40 e ficar ali por 15 ou 30 dias, mas isso não significa mudança estrutural. Pode ser apenas um movimento conjuntural, de fluxo financeiro entrando, mas podendo sair da mesma forma que entrou. Para o câmbio permanecer em um nível mais apreciado, seriam necessárias reformas profundas e melhora estrutural do país. Só fluxo especulativo não sustenta o câmbio nesse patamar. Se houver apenas movimento tático, é dinheiro financeiro, com compra de bolsa, juros e arbitragem. E ele é volátil. Mas, se o cenário for realmente estrutural, aí muda o tipo de capital: voltam IPOs, investimento industrial, investimento direto, atividade real. Nesse caso, seria algo mais parecido com o ciclo de 2008 a 2011, quando houve entrada consistente de capital produtivo no Brasil.
Valor: Quais são as principais posições da AZ Quest no momento?
Mello: A principal posição atual vem sendo carregada desde julho, baseada na expectativa de cortes de juros no Brasil no primeiro semestre. A escolha foi focar em juros de prazo mais curto, especialmente DI com vencimento em julho de 2026, como uma forma de capturar valorização antecipada da curva de juros com menor tempo de maturação. Estamos ajustando essa posição conforme o andamento das expectativas de cortes, de quanto e de quando, mas esse “trade” principal tem sido mantido por mais tempo. Além disso, houve outras posições menores e táticas ao longo do caminho, como ouro. O mundo inteiro está indo para o ouro e diminuindo a posição em dólar, ainda mais sob a gestão Trump.
Valor: Há outras posições no portfólio local?
Mello: O foco principal hoje é juros e volatilidade dos juros no Brasil, com posições em juros nominais de curto prazo e trades relacionados à curva, com confiança maior nesse tema do que em algumas teses internacionais. Em câmbio, acreditamos ter espaço para valorização do real, mas tratamos isso de forma tática via opções, custos menores e assimétricos, não como uma grande posição direcional que consuma muito capital.
Valor: Há preocupação porque os spreads de crédito estão amassados lá fora. Veremos uma correção?
Mello: Apesar de os spreads estarem apertados em “investment grade” (papéis com grau de investimento) e “high yield” (com risco e retorno altos), o cenário macro nos EUA e Europa ainda é sólido. O que se vê é que há emprego na Europa. Se você voltar para Espanha, Portugal, Itália, Grécia dos anos de 2001 a 2013, estava todo mundo desempregado, aquilo estava terra arrasada. EUA, a mesma coisa. Agora é diferente, crescimento, emprego forte, empresas com balanços ajustados e sistema bancário funcional.
Valor: Como isso impacta o mercado de crédito?
Mello: Pelo modelo tradicional de crédito, os spreads remuneram a probabilidade de default, e no agregado não há deterioração relevante que justifique um estresse maior neste momento. Além disso, há fatores técnicos importantes: juros ainda elevados sustentam a demanda de fundos de pensão e seguradoras por crédito “high grade” (com boa classificação); nos EUA e na Europa, crédito high grade é tratado como renda fixa tradicional; há muito mais dinheiro no sistema financeiro global, legado de juros zero e “quantitative easing” (afrouxamento quantitativo), e esse dinheiro tem que estacionar em algum lugar, e estaciona em ativos reais, mas também estaciona em crédito, porque é um caminho de juros e renda fixa. Sobre as “hyperscalers”, não há preocupação estrutural relevante no momento, dado o ambiente econômico e a qualidade dos emissores.
Valor: Qual é a leitura para o mercado de crédito no Brasil?
Mello: O Brasil está crescendo, com inflação em queda gradual e empresas, no geral, resilientes. Sempre vai ter um caso corporativo ou outro mais complicado, mas no agregado as empresas estão bem geridas. São sobreviventes desse período de juros elevados, e vão continuar sobrevivendo e entregando [resultados]. Então vai continuar tendo demanda por crédito. Com a volatilidade eleitoral deste ano, não tem por que o investidor ficar fazendo aposta estrutural em ativos de risco. Por mais que a bolsa esteja melhor, ninguém de fato ganhou com isso porque ninguém estava lá. O juro real está em 8% há quatro anos, então o investidor ganha muito mais ficando na renda fixa, tendo muito menos dor de cabeça. Isso deve continuar.
Fonte: Valor Econômico
