Eventuais efeitos inflacionários da guerra no Oriente Médio podem ser apenas um pequeno desvio de uma história muito mais poderosa na trajetória da inflação global. Na visão da WHG, os impactos da adoção da inteligência artificial (IA) no mercado de trabalho dos EUA podem ser semelhantes ao que ocorreu durante a globalização no fim do século 20, quando operários viram cair suas oportunidades de trabalho com a concorrência da China e de países ex-comunistas. Desta vez, a IA pode produzir algo semelhante, mas para os trabalhadores de “colarinho branco” – qualificados e de maior renda.
Esta mudança no mercado de trabalho se refletiria em uma inflação mais baixa no mundo, com resposta das políticas monetária e fiscal por parte de governos, além de um dólar mais fraco. O Brasil estaria bem posicionado por estar exposto a temas caros ao novo paradigma. O rali observado na bolsa é um sintoma, na visão de Andrew Reider, gestor da WHG, de que o mercado já privilegia os temas e, caso a tese se prove estrutural, os “valuations” das ações locais ainda estão baratos.
O executivo conversou com o Valor ao lado de Fernando Fenolio, economista-chefe da gestora de fortunas. A seguir, os principais trechos da entrevista.
Valor: Como monitorar a guerra no Oriente Médio e tentar prever quão próxima ela estará do fim?
Fernando Fenolio: Essa guerra começou com o mercado acreditando que seria algo breve e rápido, talvez usando como referência o que aconteceu na Venezuela. Ficou claro que não funciona bem dessa forma e por isso houve um choque no mercado, pelo entendimento que a guerra pode se arrastar mais.
Valor: Por quê?
Fenolio: O Irã ainda tem uma capacidade militar razoável, pelo menos até o momento. E parecem buscar dois objetivos: destruir a infraestrutura de energia e, assim, pressionar o Ocidente, apertando as condições econômicas e gerando inflação. O segundo é ter mais capacidade balística de ataque do que os países da região têm interceptores de defesa. Em algum momento, os interceptores podem se esgotar, enquanto os mísseis de ataque continuariam. Nesse cenário, países da região – que têm boa relação com os EUA – poderiam chamar os americanos para negociar uma saída para o conflito.
Valor: O que está nas expectativas do mercado?
Fenolio: Hoje o mercado parece assumir que a guerra termina rapidamente. Talvez essa probabilidade esteja alta demais. Existe o risco de o conflito se arrastar por mais tempo, com episódios intermitentes de volatilidade, alta do petróleo e danos mais permanentes à infraestrutura de energia. O Estreito de Ormuz continua oficialmente aberto, mas há uma questão prática: quem estará disposto a passar um navio petroleiro por ali em um ambiente de risco? Uma coisa é dizer que o seguro cobre ou que o governo americano dará garantias. Outra é alguém realmente navegar por uma rota potencialmente minada. Não é tão simples. Existe uma chance de que o conflito demore mais e esse me parece ser o principal risco neste momento.
Valor: Os mercados vinham em uma busca por diversificação para fora dos EUA antes da guerra. O movimento faz sentido?
Andrew Reider: Sim. Há dois movimentos que se relacionam. O primeiro é um questionamento amplo sobre tudo que envolve tecnologia, diante da possível disrupção causada pela IA. O mercado passou a discutir quem são os vencedores e os perdedores. Isso começa nas ‘mega caps’, que estão gastando volumes enormes de ‘Capex’, e se estende para software e para todo o ecossistema de IA. Ao mesmo tempo, vários subsetores começam a aparecer como potenciais perdedores da IA – praticamente um novo a cada semana.
Valor: Quais são as implicações?
Reider: Isso inverte um pouco a lógica com a qual fomos treinados como investidores. Tradicionalmente, empresas ‘asset light’, com alto retorno sobre o capital e barreiras de entrada como marca ou rede de distribuição, eram consideradas as melhores. Já empresas intensivas em capital, cíclicas ou ligadas a commodities costumavam ser vistas como menos atraentes. Á lógica começa a se inverter.
Valor: Como se proteger?
Reider: Uma resposta tem sido o chamado “AI físico”. A ideia é investir em ativos reais que se beneficiam desse ciclo de Capex: empresas de infraestrutura, energia, renováveis, solar, baterias, além de commodities. São setores ligados à expansão física necessária para sustentar a revolução da IA.
Valor: Como avaliam os impactos desta revolução de IA?
Reider: Toda essa transformação pode gerar uma força desinflacionária forte. O fenômeno pode ser comparado ao impacto da globalização sobre a classe operária quando economias ex-comunistas – como China, Sudeste Asiático e Leste Europeu – passaram a competir com custos de trabalho muito mais baixos do que os da Europa Ocidental e dos EUA. Aquilo pressionou salários e gerou desemprego em alguns setores. A analogia é que a IA pode produzir algo semelhante no mercado de trabalho de colarinho branco. E esse grupo é ainda mais relevante em termos de renda, consumo e poupança. Se isso acontecer, pode haver mudanças importantes na economia. Se a inflação cair, é provável que haja reação de política monetária e fiscal por parte de Tesouros e bancos centrais. O mercado já começa a olhar para esse segundo passo. Nesse contexto, faz sentido comprar ativos reais e ativos de países com juros mais altos, porque um ambiente de inflação global mais baixa tende a reduzir juros no mundo inteiro e a enfraquecer o dólar.
Valor: Como o Brasil se situa?
Reider: O Brasil acaba se beneficiando dessas duas dimensões: inflação global mais baixa e abundância de ativos reais. Esse é o novo paradigma que começa a se formar. O problema é que vários desses ‘trades’ ficaram consensuais. Quando veio o choque relacionado ao Irã, ativos que não tinham relação direta com o conflito acabaram caindo de forma desproporcional. A Coreia, por exemplo, caiu cerca de 10% em dois dias em algumas ações. O Brasil, que havia se tornado um dos queridinhos do mercado, também sofreu bastante.
Valor: Como se posicionar se o efeito da guerra for passageiro?
Reider: Assumindo que esse choque seja pontual e que o mundo volte ao cenário anterior, a ideia seria gradualmente reconstruir algumas posições consensuais nas quais ainda acreditamos dentro desse novo paradigma. Temos, por exemplo, vários nomes na Coreia de que gostamos. O Brasil também é uma geografia que pode se beneficiar desse ambiente. Além disso, há empresas ligadas a ativos reais – como commodities e infraestrutura – que parecem bem posicionadas nesse cenário. Também continuamos olhando para empresas de tecnologia que se beneficiam diretamente do ciclo de Capex em IA.
Valor: As ações brasileiras tiveram um rali importante nos últimos meses. Estão caras?
Reider: Temos uma visão do que é caro ou barato um pouco diferente da tradicional. No Brasil, por exemplo, o valuation do índice saiu do intervalo histórico recente. Alguém pode olhar para isso e concluir que já ficou caro. Para nós, a análise é parecida com a de qualquer empresa no mundo: se o valuation mudou, pode ser porque algo estrutural também mudou. Pode haver um novo paradigma. Há cerca de 15 anos, investidores locais repetem a pergunta: quando o investidor estrangeiro vai voltar para o Brasil? Quando Bolsonaro foi eleito, dizia-se que viria, porque havia um governo mais à direita. Não veio. Depois da pandemia, falava-se que viria com a reabertura e o ciclo de commodities. Também não veio. Agora, talvez exista finalmente um paradigma em que faz sentido olhar para o Brasil dentro de um contexto global. É um cenário em que o país pode se beneficiar por vários lados. Lembra um pouco o período de 2003 a 2011, no auge do boom de emergentes, com China e commodities. Dito isso, é claro que existem fundamentos por trás dessa narrativa, mas também é verdade que o mercado muitas vezes anda um pouco à frente deles. Correções podem acontecer.
Valor: Os níveis de preço não são uma preocupação imediata?
Reider: A pergunta central é: existe um novo paradigma que justifique a mudança de valuation? Se a resposta for sim, o nível atual de preços não é particularmente preocupante. O que o mercado parece estar dizendo hoje é que o Brasil pode estar entrando em um novo megaciclo. Se isso se confirmar, pode ser que, no futuro, as empresas olhem para trás e digam que os preços atuais eram muito baratos – mesmo depois da alta recente. É essa probabilidade que o mercado começa a precificar.
Valor: As questões domésticas, como eleições e fiscal, parecem importar menos neste momento?
Reider: Isso acaba sendo uma oportunidade de compra que o estrangeiro está observando. Como o local está muito focado na eleição, o posicionamento ainda não é tão elevado. Claro que um governo responsável ajuda e faz diferença. Mas, se tivermos uma desinflação muito forte no mundo por causa da IA, os juros no Brasil tenderiam a cair. Esse movimento provavelmente teria um peso muito maior do que outros temas. Muitos dos receios fiscais que hoje existem globalmente poderiam desaparecer rapidamente em um cenário de desinflação estrutural. Por isso, esse tema talvez seja mais relevante do que as preocupações atuais. A grande dúvida é se isso realmente vai acontecer nessa magnitude e nessa velocidade.
Valor: Esse mundo é de dólar forte ou fraco?
Reider: Se esse mundo mais baseado em agentes de IA e em um ambiente estruturalmente desinflacionário se confirmar, a tendência é que prevaleça a ideia de que o Fed acabará cortando juros, possivelmente em um contexto de maior desemprego nos EUA. O mercado começou a migrar para a ideia de IA física – ou seja, ativos ligados à infraestrutura física necessária para sustentar esse avanço tecnológico. Nesse cenário, emergentes e negócios mais intensivos em capital tendem a se beneficiar. Assim, o mais provável seria um dólar estruturalmente mais fraco.
Fonte: Valor Econômico

