4 Feb 2024
JÉSSICA PETROVNA
“Geograficamente, o Brasil não está na linha de frente. Essa Guerra Fria é um fenômeno transpacífico, do Hemisfério Norte, e, em grande medida, o Brasil pode ficar de fora”
Na nova Guerra Fria que vive o mundo, a disputa dos EUA com a China, evoca a relação conflituosa que os americanos tiveram com a antiga União Soviética e a lembrança de que a escalada da tensão entre potências pode resultar em catástrofe. Essa é a avaliação do historiador e professor da Universidade de Harvard Niall Ferguson. “O mundo é um lugar perigoso porque a Guerra Fria é inerentemente perigosa”, disse ele em entrevista ao Estadão, durante passagem pelo Brasil na semana passada.
Como o sr. avalia os atuais conflitos na perspectiva de uma nova Guerra Fria?
Comecei a dizer há cinco anos que estávamos em uma Guerra Fria e as pessoas eram céticas. Mas acho que está cada vez mais visível que EUA e China estão em uma relação muito parecida com a que os EUA tiveram com a União Soviética. A primeira Guerra Fria não era totalmente fria, houve uma guerra na Coreia. Para muitas pessoas, 1950 foi o momento em que elas perceberam a real natureza da divisão do mundo. Da mesma forma, a guerra na Ucrânia revelou a natureza real do mundo. Os EUA e seus aliados apoiam a Ucrânia. China, Irã e Coreia do Norte apoiam a Rússia. Essa não é apenas uma guerra regional, é um conflito global, de certa forma. Assim como na primeira Guerra Fria, há o risco de outros conflitos locais. Quando a guerra no Oriente Médio explodiu, não foi uma surpresa para mim. E pode acontecer em Taiwan, entre as Coreias. O mundo é um lugar perigoso porque a Guerra Fria é inerentemente perigosa.
Estamos nos aproximando de uma 3.ª Guerra?
É inerente da Guerra Fria o potencial de se transformar em guerra mundial. Isso era verdade na primeira e é verdade agora, o que seria um desastre. A grande questão é: o que podemos fazer para evitar que ela escale? Depende muito dos líderes em Washington e Pequim.
Como o sr. avalia a posição brasileira nesse cenário?
É curioso porque Jair Bolsonaro tomou lado, de forma muito decisiva, dos EUA. E Lula faz o contrário, aparece em Xangai, fala sobre uma moeda do Brics. Como um homem de esquerda da América do Sul, ele tem uma tendência instintiva antiamericana. Mas nenhum dos dois representa o Brasil como um todo. Acho que a maioria dos brasileiros tem bastante orgulho de viver em uma democracia próspera. O Brasil emergiu como uma economia dominante no Hemisfério Sul. Acho que os brasileiros não querem escolher (um lado). Gostam da democracia e gostam de vender para China e de vender para o mundo. Não sinto realmente que precisam escolher. No sentido de que a China precisa do Brasil por ser um enorme fornecedor de produtos agrícolas, cada vez mais sofisticado. E o Ocidente precisa do Brasil porque precisa, de alguma forma, de sua contribuição para enfrentar os desafios das mudanças climáticas. As pessoas querem investir e fazer negócio aqui. O Brasil, geograficamente, não está na linha de frente. Essa Guerra Fria é um fenômeno transpacífico, do Hemisfério Norte, e, em grande medida, o Brasil pode ficar de fora. •
Fonte: O Estado de S. Paulo