O Bradesco Global Investment Solutions encerrou maio sem alterar nenhuma posição tática e manteve as mesmas apostas para junho — sinal de que a casa prefere esperar por maior clareza antes de se mover. A cautela é justificada: o fechamento do Estreito de Ormuz elevou a pressão inflacionária global, adiou cortes de juros nos Estados Unidos e abriu a curva doméstica em 23 pontos-base no mês.
Sem mudanças, mas com convicções claras
A ausência de alterações não significa neutralidade. A carteira segue com posição under em pós-fixado e over em juro real (IMA-B) — aposta que já vinha sendo construída e que o relatório reforça com dados: o carrego total “grossapado” das debêntures IPCA está no maior patamar dos últimos nove anos, em 10,61% ao ano, mesmo com o spread de crédito apenas levemente acima da média histórica.
Em renda variável, a recomendação permanece over em Brasil e under em EUA. A bolsa americana enfrenta uma equação difícil: lucros recordes pelo segundo trimestre consecutivo — crescimento agregado de 27,6% no S&P 500 — mas com a taxa da Treasury de 2 anos competindo diretamente com o earnings yield das ações, corroendo o prêmio de risco.
O Ibovespa, por sua vez, devolveu parte da alta gerada pelo fluxo estrangeiro durante o conflito e fechou maio com queda de 7,2%. Os balanços do primeiro trimestre de 2026 das empresas listadas foram descritos como resilientes, com margens LAJIDA em 20,5% e alavancagem (Dívida Líquida/LAJIDA) em 2,7x — abaixo da média histórica de 3,2x.
O nó de Ormuz e seus efeitos em cadeia
O conflito no Oriente Médio é o fio condutor de todo o relatório. O bloqueio do estreito gerou um choque de oferta em petróleo — o prompt spread do Brent chegou a superar US$ 5 por barril no pico de abril — e já alimenta o PPI americano, que avança a 6,0% ao ano. A inflação implícita de 2 anos nos EUA subiu para 2,7%, pressionando os juros longos mesmo num ciclo que, em condições normais, já teria visto cortes do Fed.
O banco projeta manutenção dos Fed Funds em 3,75% até 2027, com risco de alta caso o repasse inflacionário se materialize. No Brasil, o cenário-base prevê Selic encerrando 2026 em 12,75%, com o Banco Central — nas palavras do presidente Gabriel Galípolo em audiência no Senado — tentando “segregar o que é elevação de preços decorrente de choques de oferta e o que são efeitos de segunda ordem”.
Além do petróleo, o relatório levanta um segundo vetor de pressão inflacionária doméstica: a formação de um El Niño com temperatura 2,0 graus acima da média no Pacífico, padrão próximo ao de 2023. O impacto estimado para os próximos 12 meses é de 1,7 ponto percentual nos alimentos no domicílio e 0,3 pp no IPCA cheio — o que coloca a projeção de inflação de 2026 em 5,0%.
Juros longos: não é só o conflito
Um dos slides mais relevantes do material questiona se a abertura dos juros longos seria exclusivamente reflexo do conflito. A resposta é negativa. O banco aponta três fatores estruturais que sustentam prêmios elevados: risco fiscal crescente — a dívida bruta do setor público brasileiro deve atingir 82,7% do PIB em 2026 e 86,7% em 2027 —, economia americana resiliente com PMI manufatureiro subindo para 53 em abril, e inflação global estruturalmente mais alta, com média 2024-25 de 4,4% contra 3,5% no período 2015-19.
Para o prefixado doméstico, a aritmética apresentada pelo banco é direta: com a taxa de 3 anos em 14% ao ano e CDI a 14,40%, basta um fechamento de 20 pontos-base para superar o carrego do pós-fixado em 12 meses. O relatório classifica o papel como neutro, mas deixa a leitura implícita de que o ponto de entrada já é atrativo para quem aceita alguma volatilidade.
Ouro, dólar e alternativos como descorrelação
Com todos os alternativos em posição neutra, o banco destaca o papel do ouro e do dólar como instrumentos de descorrelação estrutural — não como apostas táticas. A correlação dos ativos alternativos com o Ibovespa é de -0,18 e com o IMA-B de -0,40; o dólar apresenta correlação de -0,72 com a bolsa local.
O ouro acumula alta de 38% em 12 meses (até 29/05) e -1,7% no mês, movimento explicado pela redução parcial de fluxo em ETFs após pico de demanda. O banco avalia que o ouro permanece estruturalmente sustentado por compras de bancos centrais e pelo ciclo de desglobalização financeira.
Cenário-base e o que monitorar
As projeções da Pesquisa Econômica Bradesco apontam PIB Brasil de 1,8% em 2026, desaceleração após o forte início de ano puxado pela agropecuária. A moeda deve se apreciar para R$ 5,00 por dólar até o fim do ano, refletindo o diferencial de juros favorável ao real — mesmo com a desvalorização de 1,6% em maio.
A variável-chave para o segundo semestre permanece uma só: a velocidade de reabertura do Estreito de Ormuz. Um acordo que desbloqueie o fluxo de petróleo aliviaria a inflação implícita americana, reabre espaço para cortes do Fed em 2027 e permitiria ao Bradesco retomar o movimento de redução do pós-fixado com maior segurança. Até lá, a posição é de observação armada.
Fonte: Bradesco Private