Por Jason Zweig — Dow Jones Newswires
26/02/2024 05h02 Atualizado há 52 minutosPresentear matéria
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Em 1917, Maisie Plant, a jovem esposa de um rico empresário, não parava de admirar um magnífico colar duplo de pérolas da Cartier. O joalheiro parisiense procurava uma sede nos EUA em Nova York. Pierre Cartier se ofereceu para trocar o colar, no valor de US$ 1 milhão, pela mansão dos Plants na Quinta Avenida, em Manhattan. O marido de Maisie, Morton, concordou prontamente com a troca.
O que aconteceu depois é um alerta para os defensores do bitcoin que acreditam que a criptomoeda é equivalente ao ouro digital. Em vez disso, pode acabar sendo como pérolas digitais.
Por que um barão industrial como Morton Plant – com vastas participações em ferrovias, navios e hotéis – trocaria sua elegante mansão por alguns pedaços brilhantes que saíram de uma ostra?
Durante milênios, as pérolas foram mais valiosas do que o ouro ou diamantes. Em 1917, o valor de US$ 1 milhão obtido pelas pérolas Cartier valia pelo menos US$ 24 milhões em dinheiro atual. O que nem Plant nem Cartier podiam saber era que, poucos meses antes, o japonês Kokichi Mikimoto havia industrializado a tecnologia para criar pérolas cultivadas. O preço das pérolas naturais começou a cair na década de 1920 e permaneceu baixo durante décadas. Em 1957, após a morte de Maisie, seu colar Cartier foi vendido em leilão por US$ 151 mil.
Por que estou conectando tudo isso com bitcoin? Grande parte do fascínio do “token” vem da sua escassez. O bitcoin não é só raro, como o ouro; sua oferta é finita. A quantidade máxima da moeda está fixada em 21 milhões. Já existem 19 milhões e novas emissões deverão cair até que a última moeda seja criada por volta de 2140.
Graças a essa escassez, os fãs do bitcoin acreditam com fervor religioso que o seu valor aumentará indefinidamente. O bitcoin subiu 21% neste ano e mais de 8.400% na última década. Se você estiver tentado a comprar bitcoin ou um dos fundos negociados em bolsa recém-criados que o mantêm, é extremamente importante que se trate de ouro digital. Ajustado às alterações no custo de vida, uma onça de ouro tem o mesmo poder de compra que tinha na Roma antiga, há 2.000 anos.
Apostar que o bitcoin é ouro digital implica que será uma reserva de valor igualmente durável, especialmente porque as moedas emitidas pelo governo perdem poder de compra ao longo do tempo.
A história mostra, contudo, que o que aconteceu com as pérolas naturais também acontece com as tecnologias: elas são vítimas daquilo que o economista Joseph Schumpeter chamou de “o vendaval perene da destruição criativa”. De 2009 a 2014, o BlackBerry cresceu de 25 milhões para 85 milhões de usuários ativos, fazendo com que os telefones flip parecessem fósseis. Então o iPhone surpreendeu o BlackBerry.
Quase todas as tecnologias anteriormente disruptivas acabaram sendo interrompidas. Lançada em 2009, a rede bitcoin até agora só se tornou mais robusta. É ininterrupto? O código que alimenta o bitcoin, como todo software, requer atualização periódica. Ele foi propenso a bugs, embora eles nunca o tenham prejudicado gravemente.
No entanto, se uma falha de programação passar despercebida por tempo suficiente para ser amplamente adotada, isso poderá comprometer a estabilidade e a segurança da rede bitcoin – o que, por sua vez, poderá causar um duro golpe no valor da moeda. “Qualquer atualização [de software] é um vetor potencialmente prejudicial”, diz Lyn Alden, autora de “Broken Money” e estrategista de investimentos que recomenda bitcoin.
Como alertam todos os prospectos dos novos ETFs de bitcoin, novas moedas digitais poderiam surgir e reduzir a demanda – e o valor do – bitcoin. Isso pode não acontecer por anos, ou nunca. Ou pode surgir de repente, do nada.
Fonte: Valor Econômico