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Apesar de 24,6% menor que a marca recorde de 2023, a balança comercial brasileira fechou 2024 com o segundo melhor resultado da série histórica desde 1997. A perspectiva para 2025 é de manutenção de nível parecido ao de 2024, segundo especialistas ouvido pelo Valor. Mesmo quem espera saldo maior fica longe dos históricos US$ 98,9 bilhões de 2023.
Segundo a Secretaria de Comércio Exterior (Secex/Mdic), o superávit comercial em 2024 somou US$ 74,55 bilhões, com US$ 337 bilhões em exportações e US$ 262,48 bilhões em importações. Queda no preço das commodities e aumento das importações são fatores que levaram à redução do saldo.
Os cenários apontam que em 2025 a esperada desaceleração econômica deve pesar nas importações. As exportações devem ser favorecidas por safra agrícola melhor que a de 2024, mas há incerteza sobre preços. Por enquanto oscilações abruptas de cotações de commodities não estão no radar, mas há incerteza sobre o câmbio e também sobre o rumo do conflito comercial entre China e Estados Unidos, com a posse, dia 20, do presidente eleito, Donald Trump.
“Para 2025, acredito que a perspectiva de boa safra deve manter o saldo no mesmo patamar de 2024 ou até com um viés para valor mais perto de US$ 80 bilhões, caso o cenário de desaceleração da atividade doméstica se consolide”, diz Lucas Barbosa, economista da AZ Quest. Isso, diz, permitirá observar ao longo de 2025 a acomodação das importações no nível atual ao redor dos US$ 262 bilhões de 2024. Já as exportações, diz, têm potencial para acelerar a algo como US$ 350 bilhões contra os US$ 337 bilhões no fechamento de 2024.
Gabriela Faria, economista da Tendências Consultoria, projeta US$ 77,6 bilhões em superávit comercial para 2025. A estimativa considera queda de 1,6% nas exportações ante 2024, como reflexo de preços. Para as quantidades, ainda é esperado aumento da produção de minerais e de petróleo, além da recuperação da produção de grãos. A produção doméstica de grãos deve crescer 8,2% ante o ciclo 2023/24, com destaque para previsão de recorde de soja, diz a economista, citando estimativa da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).
Para 2025, perspectiva de boa safra deve manter o saldo no mesmo patamar de 2024”
Pelo lado das importações, a projeção é de recuo de 3,1% ante 2024, em razão da esperada desaceleração da atividade. Aperto das condições financeiras, aumento das incertezas internas, menor crescimento mundial e redução do impulso fiscal dão base à estimativa da Tendências de crescimento do PIB de 1,9% neste ano, bem abaixo da projeção de 3,4% em 2024, aponta Faria.
“Vale lembrar também que o cenário de câmbio segue bastante desafiador”, diz Barbosa. “O patamar acima de dólar a R$ 6 favorece as exportações, especialmente de itens que eventualmente poderiam ser usados para absorção doméstica. A proteína animal, por exemplo, passa a ficar cada vez mais atrativa para a exportação.”
Para o diretor de Estatísticas e Estudos de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), Herlon Brandão, as importações em 2025 devem “ficar no mesmo nível ou em nível mais alto” do que em 2024. Brandão destacou que a expansão da economia brasileira prevista para 2025 deve impulsionar as importações. Além disso, segundo ele, “não temos sinalizações de grandes variações de preços de commodities” em 2025.
Do lado das exportações, o diretor afirmou que “a economia mundial deve crescer e absorver mais bens brasileiros, sobretudo alimentos”, como carne e soja. A tendência, diz, é que “à medida que haja recuperação da safra agrícola” a soja ocupe novamente o posto de principal produto exportado. Em 2024, o posto ficou com o petróleo. Pela estimativa da Secex, o superávit em 2025 deve ficar entre US$ 60 bilhões e US$ 80 bilhões.
O grande intervalo da projeção da Secex revela o quadro de incerteza que envolve as estimativas para 2025, diz José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB). As projeções preliminares de Castro indicam superávit de US$ 93 bilhões em 2025, num cenário com leve aumento de preços e incremento de volumes. As cotações de commodities, porém, diz ele, são sensíveis e podem responder a qualquer ocorrência. O cenário da AEB, diz ele, foi traçado com muitas ressalvas. Além da taxa de câmbio, há muita incerteza em relação às relações comerciais entre China e Estados Unidos e seu impacto na economia global.
A secretária de Comércio Exterior do Mdic, Tatiana Prazeres, destacou que o resultado da balança em 2024 foi positivo, pela “manutenção do patamar elevado das exportações”. A queda no valor exportado, afirma, foi resultado de recuo do preço dos produtos embarcados, já que houve aumento do volume exportado. Segundo dados da Secex, o valor das exportações brasileiras caiu 0,8% em 2024, com alta de 3% do volume e queda de 3,6% dos preços.
Do lado das exportações, aponta Barbosa, da AZ Quest, alguns produtos merecem destaque em 2024. Ele exemplifica com proteína animal bovina e suína, açúcar e melaços e café. Boa parte desses produtos, observa, sofreu em preços, mas as quantidades mais do que compensaram.
A queda de preço das exportações em 2024, destaca Welber Barral, sócio da consultoria BMJ, foi influenciado principalmente por commodities. “Houve aumento de importação, principalmente de bens de capital, o que é uma boa notícia. O saldo caiu quase 25%, mas ainda é muito bom considerando o histórico do Brasil. Para 2025, deve se repetir a mesma coisa. O saldo deve cair, porque provavelmente a importação continuará aumentando, apesar do dólar.” Isso porque, mesmo com desaceleração, a expectativa é de que o PIB cresça perto de 2%, diz.
Para Barbosa, da AZ Quest, o superávit comercial de 2024 ficou próximo da expectativa inicial para o ano, mas o que surpreendeu ao longo do período foi a resiliência das importações, que vieram muito mais fortes. Os dados da Secex mostram que o volume das importações cresceu 17,2% em 2024 enquanto os preços recuaram 7,4%. O dado de quantidade, explica Barbosa, mostra que há “demanda doméstica que continua muito forte e vazando para o resto do mundo via importações, principalmente de bens de capital, mas também bens de consumo.”
Castro, da AEB, ressalta o ritmo forte da importação de bens de capital, também favorecida pela redução de preços. Os dados do governo mostra que o desembarque nessa categoria cresceu 20,6% em valor em 2024, com alta de 25,6% em volume. Os preços caíram 4,7%.
Fonte: Valor Econômico
