A inflação acelerou menos do que o esperado em setembro e contribuiu para mais alguns economistas ajustarem suas projeções de 2025 para baixo.
O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), inflação oficial do país, subiu 0,48% em setembro, após recuar 0,11% em agosto, conforme divulgou ontem o IBGE. A taxa ficou acima da de setembro de 2024 (0,44%) e é a maior para o mês desde 2021 (1,16%), mas veio abaixo da expectativa mediana do Valor Data, de 0,52%.
No ano até setembro, a alta é de 3,64%. No acumulado em 12 meses, a inflação avançou ligeiramente, para 5,17%, de 5,13% até agosto, mas também ficou abaixo da expectativa de 5,21%. “A gente não esperava uma convergência da inflação de forma consistente. Na verdade, a nossa expectativa é que essa convergência se dê apenas a partir de outubro”, afirma Mirella Hirakawa, coordenadora de pesquisa da Buysidebrazil.
Ela diz que a composição do IPCA em setembro se mostrou melhor que as suas expectativas “e possivelmente muito melhor que as expectativas do mercado”. Algumas casas revisaram suas projeções de 2025, como o Barclays (para 4,6%, de 4,9%), a XP (para 4,7%, de 4,8%) e o J.P. Morgan (para 4,7%, de 4,9%). A meta de inflação é 3%, com tolerância de até 4,5%.
Após a divulgação do IPCA de setembro, a equipe do Bradesco, liderada por Fernando Honorato, reforçou a visão de uma “trajetória mais benigna da inflação em direção à nossa projeção de 4,5%, no limite superior do intervalo da meta para o ano”, revisão que foi apresentada na semana passada.
Movimento em seguro de veículos ainda não é claro e levanta questões”
Das nove classes de despesas analisadas, quatro aceleraram de agosto para setembro: habitação (de -0,90% para 2,97%); alimentação e bebidas (de -0,46% para -0,26%); transportes (de -0,27% para 0,01%); e despesas pessoais (de 0,40% para 0,51%). Foi observada desaceleração em artigos de residência (de -0,09% para -0,40%); vestuário (de 0,72% para 0,63%); saúde e cuidados pessoais (de 0,54% para 0,17%); educação (de 0,75% para 0,07%); e comunicação (de -0,09% para -0,17%).
A difusão, que mede a proporção de itens com aumento de preços, caiu para 52,3% em setembro, de 56,8% em agosto, segundo cálculos do Valor Data.
O principal fator altista para o IPCA de setembro foi a energia elétrica residencial, que subiu 10,31%, após recuar 4,93% em agosto, e respondeu por 0,41 ponto percentual (p.p.) do índice geral. A alta reflete a devolução do chamado “bônus de Itaipu”, que gerou desconto nas faturas de agosto, e a bandeira tarifária vermelha 2, além de reajustes de tarifas em algumas capitais. Com isso, os preços de habitação, que inclui energia, tiveram a maior alta para setembro em 30 anos.
Fazendo uma “correção” nos impactos da energia, o IPCA entre agosto e setembro teria ido de 0,06% a 0,07%, estima Luis Otávio Leal, economista-chefe da G5 Partners. “Outra forma de expurgar essa influência seria observar apenas os ‘preços livres’, que passaram de 0,07% em agosto para uma deflação de 0,01% em setembro”, diz.
O grupo alimentação e bebidas teve o quarto mês seguido de queda, ainda que menos intensa do que em agosto (-0,46%). Em quatro meses, a contração é de 1,17%. “A oferta de alimentos ‘in natura’ está maior, então, traz essa pressão para uma variação negativa”, diz Fernando Gonçalves, do IBGE.
Dentro do grupo, a alimentação no domicílio caiu menos em setembro (-0,41%) do que em agosto (-0,83%). A alimentação fora de casa, por sua vez, desacelerou a alta para 0,11%, de 0,50% em agosto, com a refeição em restaurantes passando a recuar 0,16%, depois de subir 0,35% no mês anterior. Foi a primeira queda das refeições em mais de cinco anos, observa Roberto Secemski, economista-chefe para Brasil do Barclays. A última retração havia sido em agosto de 2020 (-0,56%), na pandemia.
Secemski destaca também os transportes, pressionados pelos combustíveis, mas beneficiados pela queda “anormalmente grande” nos seguros de veículos (-6%), que já havia aparecido na prévia da inflação, o IPCA-15. “A razão por trás desse movimento ainda não está clara para nós, o que levanta questões sobre se uma recuperação poderia ser esperada nas próximas leituras ou se esse foi um movimento permanente”, afirma.
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O economista do Barclays menciona ainda as despesas pessoais, que subiram em setembro conforme a queda temporária em cinemas, após promoções, começou a ser revertida, passando de -4% em agosto para 2,8% no mês seguinte.
A deflação em seguros de veículos e o alívio na alimentação fora de casa contribuíram, junto com passagens aéreas, para a desaceleração em serviços, para 0,13% em setembro, de 0,39% em agosto, diz Secemski. “No geral, a inflação em 12 meses de serviços permaneceu praticamente inalterada, oscilando de 6,16% no mês passado para 6,14% em setembro, bem acima da média pré-pandemia de 4,2% durante 2017-2019”, afirma.
A surpresa baixista na alimentação fora do lar também explica em grande parte a variação menor dos núcleos, diz Alexandre Maluf, economista da XP. A média dos cinco núcleos (medidas para suavizar volatilidades) monitorados pelo Banco Central subiu 0,19% em setembro, de 0,30% em agosto. Em 12 meses, desacelerou para 5,09%, de 5,12%, mas permanece em patamar elevado, diz Secemski.
Ele já dizia ver riscos de baixa para sua projeção de IPCA em 2025 por causa do repasse de um real mais forte. “Como continuamos a observar um comportamento benigno de vários bens industriais em períodos recentes, incluindo as grandes quedas hoje [ontem] nos preços de fogões em 3,6%, geladeiras em 1,7% e televisores em 2,1%, entre vários outros itens, ajustamos nossa projeção.”
A inflação de bens comercializáveis em 12 meses desacelerou para 5,4% em setembro, de 5,9% em agosto e de um pico de 7% em abril, observa Secemski. Os bens industriais em particular subiram 0,05% em setembro, de 0,17% em agosto.
Por outro lado, ele nota que a inflação de bens não comercializáveis subiu 5,1% em 12 meses até setembro, mesmo nível de agosto, mas ainda 1 p.p. acima da mínima de 4,1% de fevereiro. O grupo é sustentado por uma inflação de serviços mais rígida, diz o economista.
Os serviços subjacentes, mais ligados ao ciclo econômico, surpreenderam ao subirem apenas 0,03% em setembro, ante 0,34% em agosto, com a média móvel trimestral anualizada e dessazonalizada passando para 4,8%, de 5,8%, o ritmo mais lento desde meados de 2024, segundo Secemski. “No entanto, destacamos novamente o papel temporário desempenhado pelo seguro de veículos e pelas refeições: se esses dois itens tivessem permanecido inalterados em setembro, os serviços subjacentes teriam aumentado 0,29%”, estima.
Em 12 meses, a inflação dos serviços subjacentes ainda acelerou para 6,76% em setembro, de 6,74% em agosto, mantendo-se perto de seu nível mais alto em 28 meses, observa Secemski.
Apesar do resultado abaixo do esperado no IPCA, as pressões ainda são “intensas” e “generalizadas” especialmente entre os serviços, que rodam em 6%, inclusive em “métrica-chave”, como serviços intensivos em mão de obra e sensíveis à ociosidade, diz Alberto Ramos, diretor de pesquisa econômica para América Latina do Goldman Sachs. Os serviços sensíveis à mão de obra, por exemplo, subiram 0,33% em setembro, de 0,65% em agosto, mas avançaram 1 p.p. em 12 meses, para 6,32%.
“Apesar da surpresa baixista, vemos espaço limitado para a inflação de serviços convergir à meta, dado que o mercado de trabalho segue apertado e os componentes cíclicos do PIB devem acelerar nos próximos trimestres”, diz Maluf.
Fonte: Valor Econômico
