Apesar da política externa do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que adiciona forte dose de incerteza sobre os mercados globais, o cenário externo oferece um momento mais positivo para a economia brasileira. Adicionalmente, indicadores antecedentes sugerem uma atividade que não esfria tão rapidamente quanto algumas analistas chegaram a temer. Somados com o impulso da agricultura, esses vetores devem significar um bom desempenho do PIB no primeiro trimestre do ano, ainda que não mudem o cenário de desaceleração e os riscos associados ao fiscal para o restante de 2025.
Na edição de fevereiro do Boletim Macro, o Instituto de Economia Brasileira da Fundação Getulio Vargas (Ibre FGV) traz a projeção de expansão de 1,5% PIB entre janeiro e março, na comparação com o período entre outubro e dezembro. A estimativa da entidade é de alta é de 3% em relação ao mesmo período do ano passado. O consumo das famílias, que surpreendeu com queda de 1% no último trimestre do ano passado ante os três meses anteriores, deve se recuperar e avançar 0,9% no período.
“É preciso lembrar que o consumo cresceu, em média, 1% nos três primeiros trimestres de 2024, então era compreensível um ajuste no quarto trimestre em um cenário de impulso fiscal negativo e aceleração da inflação, que corrói o poder de compra”, pondera a coordenadora do boletim, Silvia Matos.
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“Para o próximo período, a nossa expectativa é que os gastos das famílias voltem a crescer. Dados de gastos com cartões de fevereiro como o Idat do Itaú e o Iget do Santander mostram recuperação em fevereiro. Além disso, a geração de vagas em janeiro surpreendeu para cima e mesmo os indicadores de confiança empresarial, que caem há alguns meses, são resultado sobretudo de uma perspectiva futura pior, na esteira dos juros mais altos, não necessariamente das condições atuais.”
Matos ressalta que esta retomada do consumo se dá mesmo com um carrego estatístico pior vindo de 2024, que foi revisado de 0,8% para 0,2% após a divulgação dos dados do quarto trimestre pelo IBGE no início deste mês. Além disso, acrescenta a especialista, haverá mais renda na economia com a valorização real do salário mínimo e a colheita da safra de soja, que movimenta a agroindústria e o setor de logística, entre outros.
Outro setor de destaque em 2024 pela ótica do consumo, o investimento deve crescer 2% em relação ao último trimestre do ano passado – um número fortemente afetado pela importação de uma única plataforma de petróleo vinda da China, no valor de US$ 2,7 bilhões. E, diferentemente de episódios anteriores, em que a entrada desses números era apenas contábil, desta vez o equipamento vai agregar à capacidade de extração do país.
“Se no ano passado o investimento foi forte e bastante disperso entre setores, neste ano esperamos algo mais concentrado no setor extrativo. Embora isto ainda não tenha ocorrido nos primeiros meses do ano, há forte expectativa com a aceleração da produção de petróleo, que ficou de lado ano passado”, afirma a economista.
O carro-chefe do período, no entanto, será a agricultura, que deve crescer 10% ante o quarto trimestre de 2024 e 12,4% na comparação interanual, um forte impulso que deve se estender por outros setores, como a agroindústria, logística e exportações. Ainda do lado da oferta, a indústria extrativa deve subir 4,2%, enquanto é esperado que os serviços andem praticamente de lado (0,1%).
Em relação ao exterior, a economista destaca à virada para melhor das condições financeiras para países emergentes, inclusive o Brasil, mas ressalta que é cedo para comemorar. Diante de um enfraquecimento da narrativa do “excepcionalismo americano” e da persistência das dúvidas sobre quando e qual será o nível das medidas tarifárias do governo Trump, o fortalecimento global do dólar começou a perder gás. Ao mesmo tempo, a China começou a dar sinais animadores sobre a atividade, o que beneficia seus principais parceiros comerciais.
Previsão é que a agricultura seja carro-chefe do primeiro trimestre, com alta de 10%
“É um retrato do momento. Atualmente, um dólar mais fraco ajuda o Brasil mesmo que venha combinado com perspectiva menor de quedas dos juros nos EUA. Ao mesmo tempo, uma guerra comercial poupa países com economia fechada, como é o nosso caso”, comenta. “Por outro lado, vale lembrar que uma guerra comercial tem vários capítulos e, se Pequim decidir lá adiante comprar mais produtos agrícolas americanos para evitar uma escalada das tarifas, isso vai nos atingir.”
Dado o bom desempenho do primeiro trimestre, o Ibre acredita em estabilidade ou leve contração no segundo – a projeção preliminar está em -0,2%. “Sei que números negativos suscitam questionamento sobre recessão, mas enxergamos o movimento mais como uma acomodação após uma expansão bem forte nos três primeiros anos”, diz Matoss. Ela pondera ainda que a expansão do PIB foi sequencialmente mais intensa nos três trimestres do ano, o que significa uma base de comparação alta e difícil de superar.
É, inclusive, uma discussão arriscada, segue, dada a sensibilidade do governo do presidente Lula a temas que possam prejudicar sua já combalida aprovação. O noticiário aquecido sobre as medidas heterodoxas para aquecer a economia, inclusive, imprime um viés de alta sobre a projeção para o PIB do ano.
“O risco de novas medidas parafiscais do governo também significa que a inflação, que já está resistente, em especial no setor de serviços, se torne ainda mais difícil de combater”, critica Matos. “Vale notar que, em nosso cenário, já não vemos cortes de juros em 2026, como enxerga o mercado, justamente porque a inflação dos núcleos segue alta e as expectativas cada vez mais dispersas.”
Idealmente, diz o perfil do crescimento brasileiro deveria ser mais parecido com o de 2023, em que setores exógenos lideraram a expansão da atividade e o consumo das famílias cresceu mais em linha com o PIB, diz Matos. Foi um quadro totalmente oposto do observado em 2024, quando o consumo cresceu 4,8%, contra 3,4% da economia como um todo.
“O problema é que a avaliação de governo não depende só de resultados das contas nacionais, mas de fatores como o desempenho do poder de compra das famílias. As sondagens mostram claramente como isso afeta a visão sobre a economia brasileira. A questão é saber até onde o governo vai buscar como solução e como isso impactará a inflação.”
Fonte: Valor Econômico