Se é uma bolha que vai estourar, ninguém sabe. Mas muitos analistas concordam que o ciclo de supervalorização das empresas de tecnologia, impulsionado pela inteligência artificial (IA), pode ter ido um pouco além do saudável.
Para Virgílio Lage, especialista da Valor Investimentos, algumas companhias estariam com avaliação muito acima do que seria adequado por ansiedade de investidores, o “medo de perder a oportunidade” (FOMO, na sigla em inglês). Isso porque, apesar do horizonte promissor da IA, ainda há dificuldades consideráveis no caminho. A oferta de energia é uma delas.
“Pode haver descompasso entre o ritmo de implantação da nova quantidade de geração necessária, por meio de projetos de longo prazo, e o avanço da tecnologia, mais acelerado”, diz Lage. A energia nuclear, que tem andado na mira de big techs como Amazon, Google e Microsoft, bate de frente com conflitos geopolíticos. Outro ponto sensível seria a dependência da empresa líder em equipamento crítico, a Nvidia. “Praticamente todo o suporte da IA está concentrado em uma empresa. Isso por si só aumenta o risco. Qualquer problema derruba a cadeia inteira.”
A empresa mais valiosa do mundo animou o mercado com a divulgação de resultados positivos no terceiro trimestre fiscal. O lucro líquido subiu 65% ante mesmo período do ano passado, para US$ 31,9 bilhões, com lucro de US$ 1,30 por ação, superando o resultado do terceiro trimestre do ano passado (US$ 0,81).
Há cenário para queda de 20% a 30% do [índice] S&P 500”
Os resultados positivos da gigante líder em valor mundial animaram brevemente o mercado. A alta de 4% que se seguiu ao anúncio não se sustentou e no fim do dia os papéis tinham recuado 3,15%, contribuindo para queda de 2,16% da Nasdaq. O comportamento reflete a volatilidade do setor e os temores em torno de outras questões desafiadoras, como a interdependência que marca a indústria. A Nvidia, por exemplo, investe na OpenAI que, em contrapartida, compra GPUs (chips para processamentos gráficos) da Nvidia; também é acionista da CoreWeave, que por sua vez aluga as GPUs da marca. A circularidade contribui para criar uma aura de artificialidade nas receitas.
O cenário suscita lembranças da bolha da internet de 2001. Mas, ao contrário de muitas “pontocom” do início do milênio, as companhias agora têm produtos, com entregas e receitas. “A temporada de resultados de empresas americanas está com crescimento médio de 13%, carregado por empresas de tecnologia”, diz Andrey Nousi, à frente da gestora suíça Nousi Wealth. “Agora elas têm ofertas que trazem valor, que todos usamos de uma forma ou outra.”
Além da Nvidia, outras quatro das “Sete Magníficas” apresentaram resultados acima das expectativas – a Apple teve alta de 86% no lucro; a Amazon, com crescimento de 20% na divisão de computação em nuvem e de 38,5% no lucro líquido; Alphabet, alta de 33% no lucro líquido; e Microsoft, com lucro operacional 24% superior.
O endividamento e a ascensão das chinesas são outras preocupações. “A relação entre patrimônio e custo da dívida começa a crescer. As empresas estão alavancadas para investir em startups desafiadas por chinesas com custo básico e capital abundante”, diz Nousi. “Há cenário para queda de 20% a 30% do [índice] S&P 500 por conta das empresas de tecnologia. Mesmo saudáveis, o preço foi elevado pela revolução da IA”, diz Lage.
Fonte: Valor Econômico

