Enquanto centenas de drones e mísseis iranianos voavam pelo Oriente Médio na noite de sábado, uma linha defensiva de radares, jatos de combate, navios de guerra e baterias de defesa aérea de Israel, dos Estados Unidos e de meia dúzia de alguns outros países já estava ativada contra o tão temido ataque do Irã. Resultado: quase nada atingiu Israel.
A exibição formidável da capacidade de defesa coletiva foi o ápice de um objetivo de décadas, mas quase sempre vago, dos EUA de forjar alianças militares próximas entre Israel e seus inimigos árabes de muito tempo, num esforço para conter uma crescente ameaça do Irã.
Mas o esforço liderado pelos EUA para proteger Israel nos dias e horas antes do ataque iraniano teve de superar vários obstáculos, incluindo os temores de países do Golfo Pérsico de serem vistos como apoiadores de Israel no momento em que as relações encontram-se muito tensas em decorrência da guerra na Faixa de Gaza.
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Grande parte da cooperação na noite de sábado que levou ao abate de drones e mísseis balísticos utilizados no bombardeio lançado pelo Irã precisou ser forjada rapidamente e muitos detalhes sobre o papel desempenhado pela Arábia Saudita e outros governos árabes importantes estão sendo mantidos em sigilo.
As forças israelenses e americanas interceptaram a maior parte dos drones e mísseis iranianos. Mas elas conseguiram fazer isso em parte porque os países árabes transmitiram discretamente informações sobre os planos de ataque de Teerã, abriram seus espaços aéreos para aviões de guerra, compartilharam informações de rastreamento por radar e, em alguns casos, forneceram suas próprias forças para ajudar, disseram autoridades.
A operação foi o ápice de anos de esforços dos EUA para derrubar barreiras políticas e técnicas que impedia a cooperação militar entre Israel e os governos árabes sunitas, segundo autoridades. Em vez de uma versão da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan, a aliança militar ocidental) no Oriente Médio, os EUA se concentraram em uma cooperação regional de defesa aérea menos formal para enfraquecer o crescente arsenal de drones e mísseis de Teerã – as mesmas armas que ameaçaram Israel no sábado.
Os esforços para construir um sistema integrado de defesa aérea para a região datam de décadas. Após anos de falsos começos e progresso mínimo, a iniciativa ganhou força depois dos Acordos de Abraão de 2020, mediados pelo governo Donald Trump, que estabeleceram laços formais entre Israel e os Emirados Árabes Unidos e o Bahrain.
Dois anos depois, o Pentágono transferiu Israel de seu Comando Europeu para o Comando Central, que inclui o restante do Oriente Médio, uma decisão que permitiu uma maior cooperação militar com governos árabes sob os auspícios dos EUA.
“A transferência de Israel para o Centcom foi uma mudança de jogo”, tornando mais fácil compartilhar inteligência e fornecer alertas antecipados entre os países, diz Dana Stroul, que até dezembro era a autoridade civil mais graduada no Pentágono com responsabilidade pelo Oriente Médio.
Em março de 2022, o general da Marinha Frank Mackenzie, então o principal comandante dos EUA na região, convocou uma reunião secreta de autoridades militares de alta patente de Israel e países árabes, para explorar como eles poderiam se coordenar contra as crescentes capacidades de mísseis e drones do Irã.
As discussões, realizadas no balneário de Sharm El Sheik, no Egito, representaram a primeira vez em que tal extensão de oficiais israelenses e árabes se reuniram, sob atuação de militares dos EUA, para discutir a contenção do Irã.
“Os Acordos de Abraão fizeram o Oriente Médio parecer diferente… porque poderíamos fazer coisas não só abaixo da superfície, mas também acima dela”, disse uma autoridade graduada israelense. A entrada no Comando Central dos EUA possibilitou ainda mais cooperação técnica com os governos árabes. “Foi isso que criou essa aliança”, disse a autoridade.
Apesar do progresso alcançado, o objetivo dos EUA de ter Israel e Estados árabes compartilhando dados de rastreamento sobre ameaças iranianas em tempo real nunca foi totalmente alcançado devido a preocupações políticas, segundo autoridades.
Bilal Saab, que já trabalhou no Pentágono na cooperação em segurança no Oriente Médio, diz que é prematuro falar em integração da segurança na região. “Ela sempre será gradual e o sábado foi um primeiro passo importante no mundo real”, afirma Saab, hoje pesquisador do centro de estudos Chatham House de Londres.
Mas a cooperação entre Israel e governos árabes em matéria de defesa área, tendo os militares americanos como intermediários, tornou-se comum, até mesmo com a Arábia Saudita, que ainda não estabeleceu relações diplomáticas com Israel.
Essa nascente aliança de defesa aérea nunca havia sido testada em batalha quando, em 1º de abril, um ataque de míssil a Damasco, capital da Síria, matou várias autoridades iranianas, inclusive o general Mohammad Reza Zahedi, que, segundo a imprensa iraniana e autoridades dos EUA, coordenava as operações paramilitares do Irã na Síria e no Líbano. Israel não reivindicou a autoria do ataque.
Teerã prometeu responder rapidamente, e autoridades de alto escalão dos EUA começaram a pressionar governos árabes para que compartilhassem informações de inteligência sobre os planos do Irã para atacar Israel e que ajudassem na interceptação de drones e mísseis lançados a partir do Irã e de outros países em direção a Israel, segundo disseram autoridades sauditas e egípcias.
O sistema de defesa aérea multicamadas de Israel mostrou-se capaz de defender o país contra salvas individuais ou pequenas de drones e mísseis. Mas autoridades e analistas afirmam que o país poderia ser sobrepujado por uma salva suficientemente grande de drones ou uma grande barragem de mísseis.
A resposta inicial de vários governos árabes foi cautelosa, temendo que a assistência a Israel pudesse envolvê-los diretamente no conflito e levá-los a sofrer represálias de Teerã. Após novas negociações com os EUA, os Emirados Árabes Unidos e a Arábia Saudita concordaram, em segredo, em compartilhar informações de inteligência, enquanto a Jordânia disse que permitiria o uso de seu espaço aéreo por aviões dos EUA e outros países, e que também usaria suas aeronaves para ajudar a interceptar mísseis e drones iranianos, segundo disseram autoridades.
Dois dias antes do ataque de retaliação, autoridades iranianas informaram colegas da Arábia Saudita e outros países do Golfo Pérsico sobre os contornos e o momento de seus planejados ataques em grande escala contra Israel, para que esses países pudessem proteger o espaço aéreo, disseram as autoridades. A informação foi repassada para os EUA, dando a Washington e Israel um aviso prévio crucial.
Com um ataque iraniano praticamente certo, a Casa Branca ordenou ao Pentágono que reposicionasse navios e recursos de defesa aérea para a região e assumisse a liderança na coordenação de medidas defensivas entre Israel e os governos árabes, segundo disse uma autoridade graduada israelense.
“O desafio foi colocar todos esses países de linhas políticas tão diferentes ao lado de Israel” num momento em que Israel está isolado na região, disse a autoridade. “Foi uma questão diplomática.”
Os países árabes ofereceram ajuda na defesa dos ataques de Teerã contra Israel porque viram os benefícios de cooperar com os EUA e Israel, contanto que ela permanecesse discreta, segundo afirma Yasmine Farouk, pesquisadora não residente do Carnegie Endowment for International Peace, um centro de estudos com sede em Washington.
“Os países do Golfo sabem que ainda não têm o mesmo nível de apoio que Israel tem dos EUA e veem o que eles fizeram no sábado como uma maneira de conseguir isso no futuro”, diz ela.
Os mísseis e drones iranianos foram rastreados desde o momento em que foram lançados, por radares de alerta antecipado localizados em países do Golfo Pérsico ligados ao centro de operações dos EUA no Catar, que transmitiu as informações a caças de vários países que se encontravam no espaço aéreo da Jordânia e outros países, assim como para navios de guerra no mar e baterias de defesa antimísseis em Israel.
Quando os lentos drones iranianos chegaram ao alcance, foram abatidos, principalmente por aviões de Israel, dos EUA e em menor número, do Reino Unido, França e Jordânia.
A certa altura, mais de 100 mísseis balísticos iranianos estavam no ar ao mesmo tempo, seguindo para Israel. A esmagadora maioria foi abatida pelos sistemas de defesa aérea de Israel no espaço aéreo israelense e fora dele, segundo declarou uma autoridade dos EUA.
Aviões americanos abateram mais de 70 drones, e dois destroyers dos EUA no mar Mediterrâneo interceptaram até seis mísseis. Um sistema de defesa aérea Patriot dos EUA perto de Erbil, no Iraque, abateu um míssil balístico iraniano a caminho de Israel, segundo disse a autoridade.
Dos mais de 300 drones e misseis balísticos e de cruzeiro disparados pelo Irã em direção a Israel, apenas um número reduzido caiu em Israel, causando pequenos danos a uma base militar no sul do país, segundo disseram os militares israelenses.
Uma autoridade de Israel envolvida nos esforços de cooperação em segurança nacional disse que embora o compartilhamento de informações de inteligência sobre ameaças à defesa área tenha sido frequente no passado, o ataque do Irã no sábado “foi a primeira vez que vimos a aliança trabalhar com força total”. (Tradução de Mário Zamarian)
Fonte: valor econômico

