Descobertas ainda não representam a cura, mas podem atrasar evolução
Mychael Lourenço
Doutor em química biológica com ênfase de atuação em neurociências (UFRJ), é professor-adjunto do Instituto de Bioquímica Médica Leopoldo de Meis
Muitas pessoas se perguntam se irão desenvolver a doença de Alzheimer em alguma etapa da vida. É natural que, à medida que envelhecemos, esqueçamos informações importantes, especialmente em momentos de estresse ou distração. Essa preocupação ainda se justifica também pela frequência com que vemos um familiar ou amigo com Alzheimer.
A doença de Alzheimer afeta mais de 35 milhões de pessoas em todo o mundo —no Brasil, em torno de 1,2 milhão. No entanto, é possível que esses números estejam subestimados, dadas as dificuldades de diagnóstico em nosso país. Mas, afinal, como a ciência tem avançado nesta área?

O Alzheimer ainda não tem cura. Os medicamentos atualmente disponíveis têm um efeito modesto no início da doença, mas não modificam o curso degenerativo, infelizmente. Hoje sabemos que pacientes de Alzheimer possuem acúmulo cerebral de duas proteínas que caracterizam a doença: beta-amiloide e tau.
Embora todos nós tenhamos essas proteínas em nossos cérebros, elas adquirem formatos estranhos e se agregam no cérebro de pacientes, fazendo com que os neurônios funcionem mal e passem a ter dificuldade em se comunicar através das sinapses. Tais mudanças começam a acontecer anos (ou décadas) antes de os primeiros sintomas surgirem.
Não é surpreendente, portanto, imaginar que muito esforço tem se concentrado em buscar terapias contra beta-amiloide e tau. Mas a grande maioria dos testes em humanos não funcionou como esperado ou então gerou efeitos colaterais indesejados, o que até levou a suspeitas de que estaríamos seguindo pelo caminho errado. Ou seja: que beta-amiloide e tau nada tinham a ver com a perda de memória no Alzheimer.
Em 2021, um medicamento antiamiloide chamado aducanumabe foi aprovado pela agência norte-americana Food and Drug Administration (FDA). No entanto, sua aprovação nos EUA veio com muitas controvérsias, uma vez que o benefício real da medicação para grande parte dos pacientes não ficou claro.
Mas, em novembro de 2022, uma boa notícia foi divulgada: uma nova versão de um anticorpo contra beta-amiloide chamada lecanemab apresentou, pela primeira vez, resultados claros de redução do declínio cognitivo em pacientes com Alzheimer inicial ou moderado. Esses resultados não são a cura, mas são uma pequena vitória, já que mostram que é possível ao menos atrasar a evolução do Alzheimer.
Agora, em janeiro deste ano, o FDA aprovou o uso do lecanemab em pacientes de Alzheimer nos EUA. Mais estudos são necessários para melhor avaliar o custo-benefício (preço, efeitos colaterais e eficácia) do lecanemab. Por aqui, a Anvisa ainda terá de avaliar e decidir sobre o novo medicamento. Devemos ser otimistas, no entanto, pois estamos cada vez mais rapidamente entendendo a doença de Alzheimer e os testes clínicos parecem apontar na direção certa.
Avanços recentes também indicam que, dentro de alguns anos, deverá ser possível identificar pessoas em risco ou em etapas pré-sintomáticas da doença de Alzheimer a partir da detecção de beta-amiloide e tau em exames de sangue. Essa abordagem ainda não está disponível comercialmente, mas o diagnóstico precoce do Alzheimer pode aumentar as chances de uma terapia mais efetiva.Futebol ajuda a resgatar memórias perdidas com o mal de Alzheimer
Por fim, hoje sabemos que um estilo de vida saudável ao longo do envelhecimento reduz as chances de se desenvolver Alzheimer. Ou seja, praticar exercício físico e atividades que estimulam o cérebro, balancear a alimentação, melhorar a qualidade do sono, não fumar e reduzir o estresse são todas medidas boas para o cérebro (e para o resto do corpo).
Assim, há razões para estar otimista com a pesquisa em Alzheimer em todas as suas frentes, incluindo mecanismos, diagnóstico precoce, prevenção e terapia. Felizmente, grupos brasileiros de pesquisa em Alzheimer, como na UFRJ, UFRGS, UFMG e USP, têm tido importante reconhecimento internacional, o que também é um motivo para comemorarmos. A ciência está motivada em busca de melhores abordagens para a doença de Alzheimer e outras demências.
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Fonte: Folha de São Paulo