Quando foi divulgada, em 2011, pretendia-se que a torre tivesse 120 andares, abrigasse um hotel cinco-estrelas e atraísse os ricos e poderosos de Wuhan com seu heliporto e seu saguão, com as dimensões do salão de uma catedral. Previa-se que haveria um amplo “centro de serviços” do Partido Comunista onde a elite de patriotas pudesse tratar de seus temas políticos com estilo, apreciando a vista. Material de marketing o descreve como um “prédio para pessoas físicas capazes de impactar o PIB [o Produto Interno Bruto]”.
Hoje, no entanto, o colosso representa um monumento ao colapso da bolha imobiliária da China e aos crescentes desafios com que se defronta a segunda maior economia do mundo.
Por ordem do presidente chinês, Xi Jinping, a altura planejada teve de ser reduzida, ao meio da construção, em 25%, para 475 metros. O hotel ainda não abriu e muitos endinheirados proprietários de apartamentos não receberam as chaves dos imóveis no prazo devido – uma situação comum em toda a China após a implosão do mercado imobiliário nos últimos três anos.
“Aqui, a maioria dos compradores de residências são ricos; assim, podem-se conformar com atrasos muito longos”, explica uma fonte próxima à incorporadora do prédio, que prometeu que ele estaria totalmente concluído até o fim de 2023 – com seis anos de atraso.
Os imóveis são apenas um dos sinais vermelhos na economia chinesa, de US$ 18 trilhões. Após terem se recuperado, no primeiro trimestre, das violentas restrições do ano passado, quando as autoridades impuseram “lockdown” a cidades como Xangai, todos os indicadores econômicos, desde o comércio aos lucros industriais e os preços ao consumidor tiveram desempenho inferior às expectativas dos analistas nos últimos meses.
A China anunciou no começo da semana que seu PIB cresceu 0,8% no segundo trimestre, em relação ao primeiro, quando a economia cresceu 2,2%.
O desempenho fraco vem desencadeando crescentes apelos para que a China recorra ao manual de estratégia do passado, que defende a introdução de um grande estímulo monetário e fiscal a fim de sustentar os motores de crescimento tradicionais, movidos a endividamento, representados pela infraestrutura e pelo mercado imobiliário.
Mas o presidente Xi e as principais autoridades de seu governo estão aderindo à posição que chamam de “dingli”, ou “manutenção do foco estratégico”. Muitos economistas interpretam isso como sendo continuar a reduzir a dívida, principalmente no setor imobiliário, intensamente superalavancado, perseguindo, ao mesmo tempo, a liderança global em tecnologia avançada e em outras áreas estratégicas da economia, como a transição para a energia verde.
“Xi Jinping não define o sucesso econômico em termos de crescimento do PIB”, diz Arthur Kroeber, sócio-fundador e diretor de pesquisa da Gavekal Dragonomics. “Ele o define em termos de autossuficiência tecnológica.”
A questão é, com a paralisia dos motores do crescimento, Pequim conseguirá persistir nesse rumo? Ou voltará à cena o velho cálculo de que ele precisa manter determinado volume de crescimento para garantir estabilidade social – abrindo o caminho para uma volta aos incentivos de grande escala?
Apuros comerciais. O problema para Xi é que, no segundo trimestre, não só o mercado imobiliário, mas outro dos principais motores do crescimento chinês – o comércio exterior – também desacelerou acentuadamente.
Durante a pandemia, o mundo se voltou para a China para adquirir produtos eletrônicos que ajudassem as pessoas a trabalhar em casa, e para comprar equipamentos de proteção da covid-19. Os consumidores em compras on-line também contribuíram para manter os dados do comércio exterior chinês aquecidos, o que neutralizou o impacto negativo dos lockdowns rígidos do país.
Mas, neste ano, quando os bancos centrais ocidentais elevaram taxas de juros para combater a inflação, a demanda por produtos exportados pela China caiu. Em junho as vendas externas chinesas sofreram sua maior queda anual desde o início da pandemia, ao recuar 12,4% em dólares, segundo revelaram os últimos dados.
O sentimento negativo com relação ao comércio exterior foi exacerbado pelas tensões geopolíticas com os EUA, que levaram empresas ocidentais a falar em “eliminar o risco” das cadeias de suprimentos, afastando-as da China.
A queda do comércio exterior está prejudicando os fabricantes chineses como Richard Chan, diretor-executivo da Golden Arts Gift & Decor, que produz árvores artificiais e decorações de Natal em Dongguan, no sul da China.
Chan diz que as encomendas à empresa, que exporta cerca de 80% da produção para os EUA e a Europa, tiveram queda de 30% neste ano, em comparação com o ano passado. Normalmente a companhia recebe a maioria das encomendas, todos os anos, até maio.
A inflação estagnou o mercado, diz o empresário. Por exemplo, “uma árvore de Natal que custava € 100 no varejo custa agora € 150, e as pessoas deixaram de comprar.
Sua fábrica contratou metade do número de trabalhadores temporários para os meses de pico de produção, comparativamente aos anos pré-pandemia. “A indústria de transformação está morrendo”, acrescenta Chan. “A perspectiva é pessimista… E nós só podemos tentar cortar custos aqui e ali.”
“Atualmente está mais difícil fazer negócios na China, com um mercado menor e uma competição mais acirrada”, disse Danny Lau, da Kam Pin Industrial, que produz paredes de vedação de alumínio para prédios na Província de Guangdong, no sul do país.
Os EUA normalmente respondem por cerca de 30% dos negócios de Lau, e o restante provém, principalmente, dos clientes na China. Ele prevê uma recuperação significativa só por volta de 2025, quando a economia global melhorar.
As encomendas no âmbito da China continental também caíram mais de 60% nos seis primeiros meses de 2023 em termos anuais, diz ele. Uma recuperação dependeria muito das políticas de incentivo de Pequim e de certo grau de abrandamento das tensões entre EUA e China, acrescenta.
No front interno, há sinais de que os consumidores e empresas privadas chinesas ainda enfrentam as consequências da pandemia, especialmente as do ano passado, quando várias cidades grandes passaram por prolongados lockdowns, dizem economistas.
Com poucos estímulos, a demanda interna por serviços como turismo local se recuperou, mas os consumidores não estão fazendo compras de maior valor.
Ao mesmo tempo, o governo adotou medidas regulatórias duras em vários setores importantes durante os anos da pandemia, que começaram com a imposição de limites à alavancagem das empresas do setor imobiliário e se estenderam para as plataformas de comércio eletrônico, como o Ant Group do bilionário da internet Jack Ma, e para a área das finanças.
Há esperanças de que agora o Estado dê uma trégua com relação a algumas dessas medidas.
Na semana passada, o governo anunciou uma multa de 7,1 bilhões de yuans (US$ 984 milhões) para o Ant Group. Apesar do seu tamanho, alguns analistas entenderam a multa como um passo positivo – que possivelmente sinaliza o fim da chamada “retificação” da empresa da internet.
O premiê Li Qiang, segunda autoridade mais alta da China, também se reuniu com executivos da área de tecnologia da ByteDance, proprietária do TikTok, do grupo de entrega de alimentos Meituan e do Alibaba Cloud, de Ma, e lhes garantiu que o governo normalizaria as regulamentações.
A reunião se deu na sequência da campanha do governo para melhorar sua imagem dirigida a governos e empresas estrangeiros, que culminou na retomada do diálogo com Washington depois de um longo intervalo, com a visita da secretária do Tesouro dos EUA, Janet Yellen, a Pequim neste mês.
Manter a posição. Em um pequeno jantar de empresários locais em Wuhan, a conversa se concentrou nos tópicos habituais.
A maioria deles ainda passava por dificuldades, após anos difíceis da pandemia, que começou em Wuhan. Mas alguns mencionaram indícios de que as políticas governamentais para a economia, como o financiamento de projetos de infraestrutura, têm ajudado a manter as empresas abertas.
“As coisas estão mal, mas estamos conseguindo nos virar”, diz um empresário especializado na construção de túneis e outras obras civis para o governo.
Um ex-funcionário governamental de alto escalão em Wuhan diz, entretanto, que até agora o ritmo da retomada econômica vem seguindo as expectativas. “Não se pode esperar que uma pessoa doente que está se recuperando corra uma maratona no ano seguinte”, diz.
O setor imobiliário é o maior desafio. Depois de estabilizar-se no início do ano, voltou a retrair-se nos últimos meses. De acordo com uma amostra de 25 cidades, o preço médio das casas prontas diminuiu 1,4% em junho sobre maio, acelerando o ritmo de queda, segundo o Nomura, com base em dados do Beike Research Institute.
“Você não poderia imaginar que uma incorporadora como a Evergrande implodiria da noite para o dia. Os compradores se sentem inseguros com o mercado”, diz um especialista. Segundo ele, Pequim pode não querer que o mercado imobiliário seja usado para estímulos de curto prazo, mas há muita pressão nas esferas locais para que isso seja feito. “As populações locais esperam um grande estímulo, mas não é isso que está acontecendo”, diz. (Sabino Ahumada, Rachel Waszawski e Lilian Carmona)
Fonte: Valor Econômico

