Por Eduardo Magossi, Valor — São Paulo
08/01/2024 15h24 Atualizado há 13 horas
Embora haja cada vez mais sinais de que a inflação americana está desacelerando e o mercado de trabalho esfriando, duas autoridades do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) apontaram nos últimos dias o risco de a política monetária e as condições financeiras não permanecerem restritivas o suficiente por um bom tempo.
O presidente da distrital de Atlanta do Fed, Raphael Bostic, disse nesta segunda-feira que a inflação caiu mais do que ele esperava e que o banco central pode deixar a política restritiva continuar fazendo seu trabalho para reduzir a inflação.
“Por agora, a política deve seguir restritiva. Os riscos estão equilibrados, com o mercado de trabalho esfriando, mas a inflação ainda segue acima da meta. Vejo dois cortes de 0,25 ponto percentual apenas no fim do ano”, disse durante evento no Rotary Club de Atlanta. Segundo ele, a política continuará sendo restritiva no fim do ano, mas o progresso da inflação irá justificar juros menores.
Bostic, que é membro votante do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês) neste ano, afirmou que a queda da inflação está permitindo às famílias recuperar seu poder aquisitivo. “A dor dos preços altos está passando”, disse, ressaltando, contudo, que ainda não se sente confortável para declarar vitória sobre a inflação.
Segundo ele, o cenário agora não indica uma volta da inflação, mas o Fed ainda precisa estar atento. “A inflação de bens já voltou para níveis pré-pandemia, enquanto a inflação de serviços está caindo gradualmente e não se espera queda acentuada”, disse. Segundo ele, neste momento, medidas de curto prazo de inflação, como três e seis meses, são mais importantes. “E elas estão apontando para uma direção positiva”.
Bostic disse também que o desemprego aumentou muito menos do que normalmente aconteceria considerando o movimento de queda na inflação. Segundo ele, o mercado de trabalho segue aquecido, mas o crescimento está concentrado em uma pequena parte da economia.
Já durante encontro da Associação Americana de Economia no fim de semana, a presidente da distrital do Fed de Dallas, Lorie Logan, afirmou que, se as condições financeiras não se mantiverem apertadas o suficiente, há um risco de a inflação voltar a subir e que todo o progresso feito até agora seja revertido.
“Diante do afrouxamento das condições financeiras visto nos últimos meses, ainda não devemos abandonar a possibilidade de outra alta nos juros”, disse ela em seu discurso. Logan se referia especificamente ao recuo dos rendimentos dos títulos do Tesouro visto recentemente, diante da expectativa de cortes expressivos de juros durante o ano.
A presidente do Fed de Dallas lembra que um risco importante é que uma flexibilização prematura das condições financeiras poderia permitir uma recuperação da demanda. “As condições financeiras restritivas desempenharam papel importante no alinhamento da demanda com a oferta e na manutenção das expectativas de inflação bem ancoradas. No entanto, ao longo dos últimos meses, os rendimentos de longo prazo devolveram a maior parte do aperto que vimos em meados do ano passado. Não podemos contar com a manutenção da estabilidade de preços se não mantivermos condições financeiras suficientemente restritivas.”
Segundo ela, a inflação hoje está numa situação muito melhor do que em janeiro passado. “Mas a tarefa de restaurar a estabilidade de preços ainda não está concluída. O nosso desafio agora é terminar o trabalho de trazer a inflação de volta de forma sustentável à meta de 2%”, disse.
Logan afirmou também que há sinais claros que de que a economia está caminhando para um melhor equilíbrio. “Embora o PIB tenha crescido a uma taxa anual insustentavelmente forte de 4,9% no terceiro trimestre, as leituras preliminares sugerem que o quarto trimestre será muito mais fraco”, afirmou. Porém, ela lembra que o mercado de trabalho segue aquecido, embora dê sinais de estar se reequilibrando. “O ritmo de aumento do emprego nos últimos meses manteve-se forte, mas está bem abaixo do ritmo do início de 2023”, disse.
Fonte: Valor Econômico
