Vendas do comércio restrito crescem 1% em fevereiro ante o mês anterior e reforçam cenário de atividade aquecida no 1º trimestre
PorLucianne Carneiro e Marta Watanabe
— Do Rio e de São Paulo
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Sustentado por mercado de trabalho apertado, expansão do crédito, reajuste real do salário mínimo e pagamento extra de precatórios, o volume de vendas do varejo no país surpreendeu mais uma vez em fevereiro, com crescimento muito acima do esperado pelo segundo mês consecutivo. Com um conjunto de indicadores que mostram atividade econômica mais aquecida que o esperado, economistas revisam ou pelo menos colocam viés de alta nas projeções de PIB do primeiro trimestre. Para parte deles, porém, esse dinamismo maior pode colocar em risco a desaceleração da inflação e afetar a política monetária em curso.
O volume de vendas no varejo restrito subiu 1% em fevereiro, ante janeiro, na série com ajuste sazonal, segundo a Pesquisa Mensal do Comércio (PMC), divulgada ontem pelo IBGE. O resultado veio na contramão do que indicava a mediana do Valor Data, apurada junto a 26 consultorias e instituições financeiras, de queda de 1,6%. O desempenho também ficou acima do teto das projeções, cujo intervalo ia de queda de 2% a alta de 0,3%. Em janeiro, frente a dezembro, o comércio restrito avançou 2,8% (dado revisado após divulgação de crescimento de 2,5%) e também ficou acima da expectativa mediana do Valor Data, de alta de 0,1%.
No varejo ampliado, que inclui as vendas de veículos e motos, partes e peças, material de construção e atacarejo, o volume de vendas subiu 1,2% em fevereiro contra janeiro. A mediana do Valor Data apontava queda de 1%.
O resultado da PMC de fevereiro mostra que a demanda continua impulsionada pelo pagamento de precatórios e seu impacto na renda das famílias, destaca o o economista Gabriel Couto, do Santander. O resultado, diz, traz viés positivo ao cenário de atividade econômica do primeiro trimestre de 2024. A estimativa oficial do banco para o PIB dos três primeiros meses deste ano é de alta de 0,7% contra o trimestre anterior, embora o acompanhamento até agora dos dados disponíveis indiquem crescimento de 0,8%, diz Couto.
Para Luis Otavio Leal, economista-chefe da G5 Partners, o varejo reflete, além dos precatórios, o ajuste real do salário mínimo, que é a “cereja do bolo”.
Com a divulgação da PMC ontem, diz Leal, a projeção da G5 Partners para o PIB do primeiro trimestre foi revisada de alta de 0,5% para alta de 0,9%. Como se estima um segundo semestre mais forte que o primeiro, em razão dos esperados efeitos da queda da taxa básica de juros, a projeção de PIB para 2024 também está sob revisão e deve sair de alta de 2,1% para algo em torno de 2,5%, diz Leal.
Fatores de expansão do crédito vêm se acumulando”
— Cristiano Santos
Rodolpho Tobler, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), ressalta que o crescimento do varejo em fevereiro veio disseminado. A perspectiva é de que o desempenho do setor neste ano deve ser mais positivo, diz, após o ano “desafiador” de 2023. Isso, avalia, aponta para um crescimento do PIB em 2024 que pode ser menor que a variação em 2023, mas com composição melhor.
“O que mais puxou o comércio em fevereiro foi o segmento farmacêutico, principalmente a parte de medicamentos, e os bens de uso pessoal e doméstico, com dois meses de crescimento forte. Essa atividade vem de base baixa de 2023, por causa da crise das lojas de varejo, que gerou fechamento de lojas físicas. E agora estamos vendo reabertura de lojas”, disse ontem o gerente da PMC, Cristiano Santos, ao apresentar os dados. Ele destacou também a mudança no comportamento do consumidor, que deixou de concentrar compras em itens básicos – como supermercado – e passou a diversificar mais.
As vendas do comércio avançaram em seis das oito atividades do varejo restrito em fevereiro, na comparação com janeiro, com ajuste sazonal. Além do crescimento em artigos farmacêuticos, médicos e de perfumaria (9,9%) e em outros artigos de uso pessoal e doméstico (4,8%), houve alta também em livros, jornais, revistas e papelaria, móveis e eletrodomésticos, equipamentos e material para escritório informática e comunicação e tecidos, vestuário e calçados. Houve recuo em vendas de combustíveis e lubrificantes e hiper, supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo (ver quadro).
No varejo ampliado, houve alta de 3,9% em veículos, motos, partes e peças e queda de 0,2% no material de construção, na série com ajuste sazonal. O atacarejo ainda não dispõe de índice com ajuste sazonal.
“Há uma questão de tração. Os fatores de expansão do crédito vêm se acumulando e ajudaram a ter o segundo mês seguido de alta do varejo. O efeito não é imediato, o crédito demora a expandir e reflete a trajetória de queda de juros. Além disso, a massa de rendimentos que cresceu”, afirma Santos.
Se contribui para melhorar as estimativas de PIB, a PMC “não ajuda em nada” a política monetária, diz Leal, da G5 Partners. Ele lembra que o IPCA de março mostrou alta pequena, de 0,16%, mas medidas subjacentes continuam preocupando. Para ele, uma perspectiva mais apurada deve vir com a divulgação aguardada para hoje da Pesquisa Mensal de Serviços (PMS), também do IBGE.
Com a divulgação ontem da PMC e o conjunto de dados já disponíveis, o C6 Bank adicionou viés de alta para a projeção de 2,4% para o PIB 2024, diz a economista Claudia Moreno. Ela ressalta, porém, que o cenário de crescimento acima do que se considera ser o potencial da economia brasileira dificulta a continuidade da desaceleração da inflação. “Por esse motivo, há chance de a autoridade monetária não chegar a uma taxa terminal de juros de 9,25%, nossa atual projeção para a Selic de 2024.”
Fonte: Valor Econômico