Por Lucianne Carneiro e Marcelo Osakabe — Do Rio e de São Paulo
15/09/2022 05h01 Atualizado há 4 horas
Na contramão dos serviços, que se manteve aquecido em julho, o comércio varejista voltou a cair na virada do primeiro para o segundo trimestre. O movimento foi generalizado e segue apontando para um ritmo de expansão mais fraca da atividade na segunda metade do ano.
Segundo a Pesquisa Mensal do Comércio (PMC), divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta quarta-feira, o volume de vendas no varejo restrito caiu 0,8% em julho ante junho, na série com ajuste sazonal. O resultado veio pior que a mediana das estimativas coletadas pelo Valor Data junto a 28 consultorias e instituições financeiras, que era de alta de 0,1%, com um amplo intervalo de projeções, de queda de 1% a alta de 2%.
Foi a terceira contração seguida. O indicador agora está em patamar 2,7% inferior ao de abril. O recuo em julho também foi o mais intenso para o mês desde 2018.
No varejo ampliado, que inclui as vendas de veículos e motos, partes e peças, e material de construção, o volume de vendas caiu 0,7% na virada do mês, também abaixo da mediana das projeções, que apontava para estabilidade. Na comparação com julho de 2021, o volume de vendas do varejo restrito recuou 5,2% e o ampliado, 6,8%.
A piora do comércio em julho foi generalizada. Dos oito setores pesquisados, só o de combustíveis e lubrificantes teve alta (12,2%), beneficiado pela redução de impostos promovida pelo governo. O destaque negativo foi o tombo de 17,1% da categoria tecidos, vestuário e calçados e do recuo de 3% de móveis e eletrodomésticos.
“O segmento [de vestuário] vinha mostrando recuperação desde o primeiro semestre, mas voltou a aprofundar as perdas em julho, ao contrário do esperado”, nota a economista da Tendências Consultoria, Isabela Tavares. Para o restante de 2022, ela entende que o dinamismo seguirá arrefecendo, em especial na comparação com o começo do ano, na esteira de uma Selic mais alta e também das incertezas com o cenário doméstico.
Para Leonardo Costa, da ASA Investments, o terceiro mês consecutivo de queda das vendas no varejo indica que os efeitos da reabertura pós-pandemia ainda não se esgotaram. “A população ainda migra para serviços, deixando bens de lado. Ontem [terça] a PMS (Pesquisa Mensal de Serviços) surpreendeu para cima, mas os dois dados em conjunto continuam indicando desaceleração no terceiro trimestre.”
A mesma avaliação faz o economista do Santander Lucas Maynard, acrescentando ainda que indicadores proprietários do banco indicaram nova desaceleração da atividade em agosto.
Para Maynard, a mudança do ritmo na atividade na virada do segundo para o terceiro trimestre pode ser resultado de um pequeno recuo na massa de rendimentos da população, à medida que estímulos adotados pelo governo começam a perder efeito.
Desde janeiro o governo federal pagou a pagar o Auxílio Brasil no valor de R$ 400 – como substituto do Bolsa Família. Além disso, liberou em fevereiro saques extraordinários de FGTS no valor de R$ 1 mil por pessoa. Em abril também começou a ser paga a antecipação do 13º salário de aposentados e pensionistas do INSS.
Os dados julho indicam um esgotamento do efeito das ações do governo, afirmou o gerente da PMC no IBGE, Cristiano Santos.
“Já teve efeito [as medidas de estímulo]. Parte do crescimento de abril [0,4%] tem influência do Auxílio Brasil, de antecipação de aposentadoria, do FGTS. Mas o que se vê depois de abril é uma influência mais reduzida”, disse ele.
No recorte regional, 20 das 27 unidades da federação apresentaram queda no volume de vendas em julho ante junho, com destaque para Bahia e Rio de Janeiro, ambos com recuo de 3,1%. Por outro lado, os destaques positivos ficaram com Mato Grosso (3,5%) e Paraná (1,7%).
Apesar da sinalização dos dados, Isabela Tavares entende que fatores podem atenuar a desaceleração. “Tem o arrefecimento da inflação de itens essenciais, como combustível e energia elétrica, a retomada da massa de renda com o avanço da ocupação, e as transferências do governo que começam em agosto, com o Auxílio Brasil a R$ 600. Este último deve ajudar principalmente na parte dos bens essenciais, como alimentação.”
“Temos projeção de crescimento de 0,4% no terceiro trimestre. É uma desaceleração frente ao avanço de 1,2% do segundo trimestre, mas reconhecemos que alguns fatores podem limitar esse movimento, como o mercado de trabalho resiliente, que ajuda a sustentar a demanda”, diz Maynard.
Fonte: Valor Econômico
