O varejo brasileiro movimentou R$ 1,4 trilhão em vendas brutas em 2023, alta nominal de quase 8% sobre o ano anterior, segundo a NielsenIQ, e acima da inflação do período – algo sustentado mais por aumentos de preços do que por volume vendido.
É algo que não deve mudar muito neste ano, com crescimento ancorado em inflação, e também no perfil dos produtos vendidos (lançamentos e novas versões de produtos, por exemplo, tendem a ter preços mais elevados).
Para 2024, a empresa de pesquisas prevê avanço de 9,2% nas vendas, acima, portanto, do ritmo de expansão do ano passado. Se atingir essa expansão, as vendas irão alcançar cerca de R$ 1,5 trilhão. Ocorre que mais de 70% dessa alta ainda deve vir das estratégias de preços e do mix vendidos nas lojas.
Para 2024, a projeção é de alta de 2,2% no volume vendido, abaixo do avanço de 2,6% em 2023. E não se trata de efeito de uma base forte de comparação em 2023, já que o ano passado teve um desempenho geral modesto considerando o real potencial do consumo no Brasil.
Os dados fazem parte do levantamento “Da Crise à Trend” da NielsenIQ, publicado ontem, e que aborda a evolução no consumo brasileiro desde o Plano Real, e as fases que esse mercado enfrentou durante esses 30 anos.
Trata-se do faturamento dos canais de venda de produtos alimentares, medicamentos e eletrônicos nas lojas e sites.
“Nós vemos o ano de 2024 muito parecido com 2023 em alguns aspectos. O ano começou bem até os primeiros meses, e depois já desacelerou de novo”, diz o diretor-geral da NIQ no Brasil, Alfredo Costa.
Apesar da queda nos níveis de desemprego e na inflação, o nível ainda elevado de endividamento da população e a falta de confiança do consumidor na economia são apontados como os principais responsáveis por esse cenário.
No que diz respeito aos canais, o levantamento mostrou que, em 2023, o atacarejo alcançou o maior nível de penetração da história, atingindo uma presença de 72,3% dos lares brasileiros, impulsionado principalmente pela abertura de novas lojas.
Isso, apesar da perda de ritmo de expansão de algumas companhias líderes, por conta da forte concorrência entre as lojas, que afetou resultados. Neste ano, após abril, o atacarejo voltou a recuperar crescimento.
A venda on-line segue em expansão e se consolidou como um canal importante de compra para categorias de consumo massivo, com destaque para alimentos e bebidas e cosméticos e perfumaria. Mas os dados não consideram o avanço das plataformas asiáticas, e como o crescimento de Shein, Shopee e AliExpress impactou o mercado.
“Apesar dessa força [das estrangeiras], estimamos que o peso delas nesse R$ 1,4 trilhão de faturamento anual é pequeno”, afirmou Costa.
Para o executivo, há um processo acelerado de mudanças de hábitos de consumidores, em ritmo mais forte do que se via no início do Plano Real, ou no início dos anos 2000, e isso afeta o ambiente de concorrência das empresas. Se no passado as marcas concorriam entre si, hoje elas competem entre diferentes categorias de produtos.
“Atualmente, vivemos o ambiente da concorrência total. O consumidor abre a mão da compra de um produto de um segmento, para economizar e comprar uma mercadoria de outro segmento”, disse ele.
Nesse cenário de disputa mais pesada, as companhias buscam ganhar mercado, em parte, com táticas pontuais, nas redes sociais, criando ações com produtos que gerem ganhos de vendas maiores em curto espaço de tempo. Ele cita, sem mencionar as marcas, um produto labial e um ovo de Páscoa, ambos lançados neste ano, e que tiveram um forte pico de vendas.
O Valor apurou que o hidratante é da Carmed e o ovo, da Garoto, da marca Caribe, que chegou a ser anunciado por mais de R$ 400 em sites on-line, após polêmica daqueles que “amam ou odeiam” o bombom da Garoto.
“As companhias viralizam com as marcas em redes sociais, chega a faltar produto nas lojas, e depois isso volta à normalidade. Então vivemos muito mais esses altos e baixos do que no passado por conta dessas estratégias”, afirma.
Fonte: Valor Econômico