Por Renan Truffi, Valor — Puerto Iguazú (Argentina)
03/07/2023 15h29 Atualizado há 17 horas
O ministro das Relações Exteriores do Uruguai, Francisco Bustillo, criticou duramente nesta segunda-feira o “imobilismo” do Mercosul em relação a acordos com as principais potências econômicas. O chanceler voltou a pressionar os outros países-membros do bloco e disse que o Uruguai está “esperando” uma resposta sobre um possível acordo com a China, país com o qual o presidente Lacalle Pou está negociando um tratado bilateral.
Além disso, Bustillo ironizou a chamada Tarifa Externa Comum (TEC), taxa comercial padronizada para os países da região e usada como união aduaneira. Segundo o ministro, as taxas nacionais continuam prevalecendo no comércio entre os países. O discurso foi feito durante a reunião de abertura da 62ª cúpula de chefes dos Estados do bloco, que acontece nesta semana na cidade de Puerto Iguazú, na Argentina, região da tríplice fronteira.
“O Uruguai avançou e finalizou um estudo de viabilidade com a República Popular da China. Informamos isso no âmbito da presidência pro tempore [temporária] do Paraguai, na reunião de Assunção. Na ocasião, os demais membros manifestaram sua preocupação de que também gostariam de realizar um estudo no mesmo sentido. Bem, a China está esperando, o Uruguai está esperando”, enfatizou.
De acordo com ele, o Uruguai prefere estar acompanhado de outros países sul-americanos na negociação com a China, mas não irá aceitar uma posição de “imobilidade”. “Como já dissemos repetidamente, para o Uruguai é sempre melhor estar acompanhado em qualquer mesa de negociação na Argentina, Brasil e Paraguai. Sem prejuízo do que, a única coisa que não nos vamos permitir é a imobilidade”, disse antes de ironizar o bloco.
Segundo Bustillo, o Mercosul não é um mercado comum, mas uma “zona de livre comércio”. “Devemos nos reconhecer e buscar não o que gostaríamos, mas o que realmente podemos ser: uma zona de livre comércio”, criticou.
Sobre a Tarifa Externa Comum, ele disse que a taxa não funciona. “Persistem as dificuldades para garantir o funcionamento normal dos fluxos comerciais intrabloco, com forte presença de barreiras comerciais que levam a um cenário de incerteza e falta de previsibilidade que afeta o trabalhador, o empresário, o cidadão. “A tarifa externa comum não tem absolutamente nada em comum. Hoje temos tarifas nacionais e não uma tarifa externa comum”, argumentou.
Por conta disso, o ministro uruguaio sugeriu chamar o “Mercosul” de “Zocosul”. “Diante daqueles que exibiram a tarifa externa comum como o marco sobre o qual baseiam seu desejo de imaginar uma união aduaneira, lembramos que hoje existem três tarifas nacionais, elemento que deixa de lado qualquer indício de mercado comum e/ ou uma união aduaneira. Numa atividade, nossa, tão marcada por siglas, talvez devêssemos falar de Zocosul, e não de Mercosul, esta é uma área comum do sul”.
Além disso, o chanceler de Lacalle Pou, presidente do Uruguai, lembrou os outros ministros das Relações Exteriores que o Mercosul não tem acordo com “nenhuma das 10 principais potências econômicas e comerciais do mundo”.
“Em relação às relações externas, a análise não é mais próspera. Não temos acordos com nenhuma das 10 principais potências econômicas e comerciais do mundo, e não temos avanços tangíveis com a Ásia, que é a região mais dinâmica em termos econômicos”, ponderou.
Por fim, ele afirmou que os poucos acordos em negociação no bloco não avançam. “Ao mesmo tempo, temos três situações, para dizer o mínimo curiosas, os chamados acordos “em princípio” (Cingapura, EFTA e UE). Vejamos o caso de Cingapura. Em julho de 2022, já há um ano, anunciamos o fim das obras técnicas. Hoje, porém, a negociação ainda não está concluída e está em análise por um de seus sócios. Em relação à União Europeia, no final desta Presidência, verificamos que não avançamos nas negociações”, concluiu.
Fonte: Valor Econômico
