Uma em cada quatro unidades particulares fala em escassez ou dificuldade para compra, segundo levantamento do sindicato; Dipirona, Dramin B6 e Neostgmina têm estoque mais baixo em SP
- O Estado de S. Paulo.
- 19 May 2022
- JOSÉ MARIA TOMAZELA
Um em cada quatro (25%) hospitais privados do Estado de São Paulo diz que a falta ou dificuldade para compra de remédios é o principal problema enfrentado hoje, segundo pesquisa do Sindicato dos Hospitais, Clínicas e Laboratórios de São Paulo (Sindhosp), feita de 29 de abril a 12 de maio. Farmácias e centros médicos, públicos e particulares, têm relatado escassez de medicamentos.
Entre os motivos apontados estão os sucessivos lockdowns na China e a guerra na Ucrânia, que afetaram a cadeia de fornecimento. A crise prejudica o trabalho dos profissionais de saúde e o atendimento de pacientes e leva até ao adiamento de cirurgias eletivas.
Outros 30% dos hospitais ouvidos pelo Sindhosp relataram a alta de preços como principal problema. No total, foram ouvidas 76 unidades particulares – responsáveis por 1.518 leitos de UTI e 5.725 leitos clínicos. Conforme a pesquisa, só 14% dos hospitais não enfrentam problemas com estoque ou aquisição de medicamentos. Os itens em falta ou com estoque abaixo do nível de segurança mais citados são Dipirona (em 25% dos hospitais), Dramin B6 (18%) e Neostgmina (17%).
Francisco Balestrin, presidente do Sindhosp, diz que a falta de medicamentos, materiais e equipamentos de saúde ficou evidenciada desde o início da pandemia de covid-19 e defende a importância de definir a área da saúde como prioridade. Segundo ele, é preciso reduzir a dependência de matéria-prima externa para produção de fármacos.
SÍRIO. Alguns dos principais hospitais de São Paulo confirmaram e revelaram preocupação com a falta de medicamentos. “Estamos acompanhando o cenário nacional e temos observado dificuldade para alguns medicamentos, mas nada que tenha nos colocado em risco. O mais significativo é a imunoglobulina que enfrenta restrição mundial e que temos conseguido importação para viabilizar a manutenção do tratamento”, informou em nota o Hospital Sirio-libanês.
Já o diretor do Hospital Saint Nicholas, Marcelo Carlos Godofredo, disse que está havendo dificuldade para a compra de medicamentos muito usados, como o analgésico Dipirona, e sobretudo a Neostigmina, relaxante muscular que ajuda pacientes a se recuperarem da anestesia. “Mais do que atrapalhar a rotina, isso acaba gerando custos.”
A falta de medicamentos afeta também os hospitais públicos geridos pelo Sistema Único de Saúde (SUS). O problema acontece desde o fim do ano passado, mas se agravou nas últimas semanas, segundo o Conselho de Secretários Municipais de Saúde do Estado (Consems-sp). O órgão afirma que a situação já exigiu o adiamento de cirurgias e procedimentos. Levantamento do Cosems paulista apontou como causas a falta de insumos, matéria-prima e embalagens. A região do ABC paulista é uma das que mais têm sofrido. A lista de remédios faltantes nos hospitais já ultrapassa 43 itens. Entre eles está o soro fisiológico.
A Secretaria da Saúde do Estado de São Paulo informou que os hospitais estaduais registraram dificuldade de compra de alguns dos medicamentos relacionados pelo Cosems por indisponibilidade de produtos no mercado.
Já a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) informou que, embora não atue nas relações comerciais de aquisição e distribuição de medicamentos pelo Ministério da Saúde ou por empresas privadas, monitora o mercado a fim de avaliar o risco de desabastecimento ou restrição de acesso a medicamentos resultante de descontinuação de fabricação ou importação. •
A falta de medicamentos afeta também os hospitais públicos geridos pelo Sistema Único de Saúde
Consideradas as épocas mais propícias para a proliferação do vírus sincicial respiratório (VSR), por serem as estações mais frias e secas, no outono e no inverno é mais comum observar o aumento de crianças internadas com bronquiolite e pneumonia. Desta forma, medidas preventivas e o diagnóstico precoce são ferramentas para evitar o agravamento do quadro clínico.
Pertencente ao gênero Pneumovirus, o VSR é um dos principais agentes da infecção aguda nas vias respiratórias. O vírus atinge brônquios e pulmões. Não há vacinação contra o VSR. Somente no caso das crianças prematuras nascidas com até 28 semanas de gestação ou com fator de risco como bebês com displasia broncopulmonar e cardiopatias congênitas, um programa do Ministério da Saúde oferta o palivizumabe, anticorpo específico contra o vírus sincicial, aplicado uma vez por mês durante cinco meses, antes do período de maior circulação do vírus, para evitar formas graves da doença.
A amamentação, por exemplo, é um reforço imunológico importante. Ou seja, o desmame precoce deixa a criança mais frágil. Além disso, em caso de pessoas fumantes, é importante evitar que a criança seja exposta à fumaça.
“Viroses respiratórias têm sintomas comuns como tosse, febre, dor de garganta e coriza. No VSR, o que chama atenção é a idade do bebê – geralmente atinge com mais frequência crianças de até 2 anos de idade – e a dificuldade para respirar, sintomas associados à época do ano com predomínio da circulação do vírus. Claro que também existem testes para saber qual vírus acomete a criança naquele momento. Febre persistente e criança que não reage aos estímulos são sinais de alarme. Isso vale para todas as doenças. Crianças pequenas com quadros respiratórios precisam ser avaliadas pelos médicos”, orienta Renato Kfouri, pediatra, infectologista e presidente do Departamento de Imunizações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), durante participação ontem no Fórum Estadão Think “A bronquiolite e a pneumonia podem atacar até dentro de casa – evite que seu guerreiro tenha que lutar contra o VSR”, patrocinado pela Astrazeneca.
TRANSMISSÃO. No caso da bronquiolite, as crianças podem transmitir o VSR por mais de uma semana. Mesmo após apresentar melhora, é importante ter atenção. Marco Aurélio Safadi, professor de pediatria e infectologia da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo e presidente do Departamento de Infectologia da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), salienta que em crianças menores o risco é maior de agravamento. “Uma criança com desconforto respiratório nesta faixa etária e que perde a capacidade de mamar tem fatores levados em consideração na avaliação do quadro clínico. Muitos casos necessitam de internação para oferecer assistência respiratória para o bebê”, destaca Safadi. “A hidratação é essencial neste caso. E vale reforçar a amamentação no caso do bebê que mama e até aumentar a oferta de fórmula no caso de bebês que não mamam no peito”, diz o professor de pediatria.
Segundo Rosana Richtmann, médica infectologista do Hospital e Maternidade Santa Joana, Pro Matre Paulista e Instituto de Infectologia Emílio Ribas, os bebês prematuros estão entre os grupos de alto risco. “Os brônquios mais finos ficam inchados e o vírus causa secreção, obstruindo as vias respiratórias e a criança fica mais cansada”, diz. •
Não há vacinação contra o VSR. Anticorpo específico só é aplicado em crianças prematuras.
Fonte: O Estado de S. Paulo