Imunizante, que atua também contra crack, teve sucesso em testes com cobaias ao bloquear excitação causada pela droga
- O Estado de S. Paulo.
- 5 Feb 2024
- ALINE RESKALLA
O que falta? Para iniciar teste em humanos, com 30 a 40 voluntários, universidade precisa de Aval da Anvisa
As primeiras reações do organismo à cocaína são de excitação, euforia, autoconfiança. Com o uso contínuo, elas dão lugar a depressão, irritabilidade e isolamento. A excitação causada pela droga é justamente o que a vacina Calixcoca, em desenvolvimento por pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), pretende bloquear. A meta é ser o primeiro imunizante terapêutico específico contra dependência de cocaína.
Após experiências bem sucedidas em cobaias na etapa préclínica, os cientistas esperam iniciar testes com humanos em 2025, assim que obtiverem o aval da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
Especialistas veem desafios ao projeto, diante da dificuldade de ter em humanos os mesmos resultados que em animais. Também citam fracassos em tentativas similares nos EUA. No mundo, o cultivo de coca cresceu 35% entre 2020 e 2021, segundo relatório do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime. E a cocaína foi a droga estimulante mais usada no período. “Dos que consomem cocaína, um em cada quatro se tornará dependente”, diz Frederico Garcia, que lidera a pesquisa.
A expectativa é de que a vacina também funcione para o crack, produto mais barato que se espalha pelas grandes cidades e agrava o problema das cracolândias, como no centro de São Paulo.
COMO FUNCIONA.
Professor de Psiquiatria da UFMG, Garcia explica que a Calixcoca não é como vacinas convencionais, produzidas a partir de uma proteína. A equipe criou, com apoio do Departamento de
Química, uma nova estratégia vacinal, que usa uma molécula totalmente sintetizada em laboratório capaz de dizer ao sistema imunológico que ele deve produzir anticorpos contra a droga. “É como se fosse uma vacina-soro”, diz Garcia. “Como a vacina usada no tratamento de alergias, com objetivo de modular o sistema imune para produzir anticorpos”
A molécula, nos testes preliminares, bloqueou a entrada da cocaína no cérebro, diminuindo a percepção do seu efeito e elevando a chance de o paciente seguir em abstinência. Portanto, reforça Garcia, será mais eficaz em dependentes que estão no processo de interrupção do consumo. A ideia não é prevenir, mas curar.
“O objetivo é ser usada nos maiores centros de tratamento do mundo, proporcionando à pessoa com dependência química vida saudável.”
A vacina poderá ser aplicada em usuários de crack, já que as duas substâncias têm a mesma base química. Nos testes com cobaias (ratos, camundongos e primatas), não foi observado efeito colateral grave e houve produção de anticorpos.
TESTES EM HUMANOS.
Se tiver aval da Anvisa, os testes da fase 1 começam em 2025, incluindo 30 a 40 voluntários. Será avaliada tanto a segurança do uso e se a vacina produz anticorpos, como ocorreu nas cobaias, além de ser definida a dose ideal. A duração prevista é de três a seis meses.
Na fase 2, o número de participantes cresce em algumas dezenas, incluindo pacientes que têm dependência, estão internados e já em tratamento multidisciplinar, com psicoterapia, acompanhamento social e médico. “Vamos comparar se os que recebem a vacina têm vantagem clínica em relação ao placebo.”
Se o resultado for favorável, a Anvisa pode permitir a comercialização ou exigir mais testes, replicando a fase 2 em outros grupos. “A expectativa é de concluir os registros na Anvisa em 2024, e as fases seguintes em mais um a dois anos”, acrescenta o professor.
Já são 10 anos de trabalho. Após a pandemia, quando a UFMG teve de fechar laboratórios, e cortes orçamentários nas universidades federais entre 2020 e 2022, o último ano abriu um horizonte mais promissor, com incentivos à equipe para as próximas fases. Um deles foi o Prêmio Euro Inovação na Saúde, em outubro de 2023, que rendeu visibilidade internacional e 500 mil euros (R$ 2 84 milhões) ao projeto. A Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais (Fapemig), destinou mais R$ 10 milhões.
A reitora da UFMG, Sandra Goulart, se mobiliza junto aos governos federal e estadual em busca de verba. “As tecnologias que desenvolvemos na universidade, como a Calixcoca e SpiN-Tec (vacina anticovid, ainda em testes), além de ajudarem a combater problemas de saúde pública, irão gerar royalties importantes para a sociedade”, diz ela. •
Fonte: O Estado de S. Paulo