Ao menos um quinto das exportações de bens do bloco destina-se aos EUA; carros alemães e medicamentos irlandeses estão mais expostos a impacto tarifário
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A ameaça do presidente dos EUA, Donald Trump, de impor uma tarifa de 50% sobre todas as exportações da União Europeia (UE) a partir de 1º de junho seria um duro golpe para setores manufatureiros importantes do continente, como o automobilístico, o aeroespacial, o de produtos químicos e outros.
Os Estados Unidos são o maior parceiro individual da UE, respondendo por pouco mais de 20% das exportações de bens no valor de mais de €530 bilhões em 2024, segundo números da Comissão Europeia.
Alemanha, Irlanda, Itália e França são os principais exportadores para o mercado americano. Isso inclui mais de € 200 bilhões em máquinas e veículos, € 160 bilhões em produtos químicos e € 25 bilhões em produtos alimentícios e bebidas.
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Maria Demertzis, chefe do centro de estratégia econômica do centro de estudos Conference Board em Bruxelas, diz que o impacto de uma tarifa de 50% seria “insustentável”, especialmente para setores mais expostos em que os Estados Unidos são um mercado-chave.
Modelagens econômicas feitas quando Trump impôs uma tarifa de 20% em abril, estimaram que as tarifas afetariam o produto interno bruto (PIB) do bloco em 0,2%. Com as tarifas de 50%, esse impacto aumentaria para 0,5%, segundo Demertzis.
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“Continua sendo um efeito macroeconômico relativamente pequeno, em termos do bloco como um todo, mas muito significativo em alguns países que dependem mais das exportações para os EUA, como a Irlanda”, afirma Demertzis. Em termos de setores, “os efeitos serão realmente grandes”, acrescenta.
Produtos farmacêuticos
Os medicamentos foram os produtos mais exportados da União Europeia para os EUA em 2024, somando quase US$ 80 bilhões, segundo a Eurostat, o escritório de estatísticas do bloco.
Nathalie Moll, diretora-geral da Federação Europeia das Indústrias e Associações Farmacêuticas, diz que o grupo está “muito preocupado” com o aumento das tensões comerciais entre a Europa e a Casa Branca.
Ela alerta que as tarifas sobre os medicamentos causariam escassez e exortou os EUA e a UE para que as evitem a “qualquer custo”. As tarifas sobre os medicamentos seriam nada menos do que um desastre para os pacientes e o setor nos dois lados do Atlântico”, afirma ela.
Até agora, os produtos farmacêuticos foram excluídos das chamadas tarifas recíprocas lançadas no começo de abril, embora Trump tenha aberto uma investigação com base na Seção 232 para avaliar as implicações para a segurança nacional da dependência da produção estrangeira. Essa investigação poderá resultar na imposição de tarifas ao setor. A seção 232 é uma cláusula da Lei de Expansão do Comércio de 1962, que permite ao presidente de turno impor medidas comerciais que levam em conta considerações de segurança nacional.
Grupos farmacêuticos europeus como Novo Nordisk, a fabricante dinamarquesa do medicamento para obesidade e diabetes Ozempic, e Sanofi, a farmacêutica francesa, mantêm uma produção significativa dentro de seus países. Mas as companhias farmacêuticas dos EUA também construíram grandes bases de produção na União Europeia, especialmente na Irlanda, onde aproveitam a alíquota tributária mais baixa.
Trump reclamou que a Irlanda tem “toda a indústria farmacêutica dos Estados Unidos em suas mãos”. “Não fabricamos mais nossos próprios medicamentos, nossos próprios produtos farmacêuticos”, disse ele. “As companhias farmacêuticas estão na Irlanda e em muitos outros lugares, como a China.”
Setor aeroespacial
Executivos da indústria aeroespacial já haviam alertado para custos mais altos como resultado da tarifa básica de 10% de Trump sobre quase todos os países. Desde então, o setor vem pressionando a Casa Branca, defendendo um retorno à era sem tarifas, amplamente a norma que vigora desde 1979.
A Boeing e a Airbus importam peças de várias regiões do mundo para a fabricação de novas aeronaves. A fabricante americana, que obtém componentes de países como a Itália e o Japão, é vista com particularmente exposta às tarifas de Trump.
Antes mesmo do anúncio desta sexta-feira, a Ryanair – maior companhia aérea de baixo custo da Europa e um dos maiores clientes da Boeing – havia alertado que poderá adiar a entrega de pedidos de aeronaves se as tarifas as deixarem mais caras.
A UE está se tornando mais odiada do que a China e tem de ir à mesa de negociações”
Michael O’Leary, executivo-chefe da Ryanair, disse este mês que a companhia está travando um “debate” com a Boeing sobre qual das partes arcaria com os custos das tarifas.
Falando nesta sexta-feira, antes da divulgação das tarifas, Guillaume Faury, executivo-chefe da Airbus, disse a uma plateia em Londres que “ninguém quer pagar tarifas”.
Carros
Executivos do setor automotivo condenaram de imediato a incapacidade da UE em chegar a um acordo com os EUA para reduzir as tarifas de 25% que o país impôs sobre veículos e peças fabricados no exterior.
“A União Europeia está se tornando mais odiada do que a China, o que é desconcertante. A UE precisa vir à mesa de negociações com grande urgência”, disse Lynn Calder, CEO da fabricante de veículos fora de estrada Ineos Automotive, que produz seus veículos na França.
“Todas as outras regiões do mundo vêm se mobilizando, mas onde está a Europa? A estratégia deles de ‘não fazer nada’ está fracassando”, disse.
Nas últimas semanas, a indústria automotiva mostrava-se esperançosa de que Bruxelas e Washington chegariam a um acordo sobre as importações de carros, ainda mais após os EUA terem alcançado um com o Reino Unido estipulando a tarifa em 10%.
Hoje, a UE cobra uma tarifa de 10% sobre importações de carros dos EUA, enquanto os EUA cobram apenas 2,5%.
“Não acho que o governo americano esteja interessado em fechar o comércio entre a Europa e os EUA”, disse o CEO da Volvo Cars, Håkan Samuelsson, na conferência Future of the Car do “Financial Times” na semana passada, dizendo que a UE deveria “nivelar” as tarifas no mesmo patamar das americanas.
O executivo-chefe da BMW, Oliver Zipse, também havia previsto no início de maio que as tarifas de Trump sobre carros estrangeiros seriam reduzidas a partir de julho.
Não está claro se as tarifas de 50% propostas por Trump se somariam às de 25% já existentes sobre importações de carros ou se as substituiriam. Tarifas acima de 25% tornariam as exportações de carros inviáveis para as montadoras europeias.
Tarifas mais altas afetariam montadoras como a Audi e a Porsche, que não possuem produção industrial nos EUA, assim como a Volvo Cars, a Mercedes-Benz e outras que exportam veículos vendidos nos EUA e produzidos na Europa.
Os EUA são o segundo maior mercado para exportações de veículos da UE, depois do Reino Unido. A UE exportou 757.654 veículos novos para os EUA em 2024, avaliados em 38,9 bilhões de euros. Importou apenas 169.152 veículos novos dos EUA, no valor de 7,8 bilhões de euros, segundo a associação das montadoras europeias Acea.
Alimentos e bebidas
Embora as exportações de alimentos e bebidas da UE para os EUA, no valor de €25 bilhões, sejam pequenas em comparação aos principais setores industriais, elas têm grande significado político e deverão ser alvos de medidas retaliatórias de ambos os lados.
O comércio bilateral de matérias-primas agrícolas, ingredientes e produtos acabados é avaliado em 40 bilhões. Muitos produtos americanos, como nozes, frutas e vegetais, estão na lista de possíveis retaliações por Bruxelas, enquanto o champanhe francês e o queijo “parmigiano” italiano estão entre os produtos europeus ameaçados pelos EUA. (Tradução de Mário Zamarian e Sabino Ahumada)
Fonte: Valor Econômico