Por Financial Times — Londres e Zurique
19/03/2023 17h26 Atualizado há 11 horas
O UBS aceitou comprar o Credit Suisse por US$ 3,25 bilhões após um fim de semana de negociações frenéticas intermediadas por autoridades reguladoras suíças para salvaguardar seu sistema bancário e tentar evitar uma crise com risco de se propagar por todo o sistema financeiro global.
O acordo histórico segue-se a um período de cinco dias nos quais o “establishment” suíço se apressou em pôr fim a uma crise cada vez mais grave no Credit Suisse, que ameaçava derrubar o banco, o segundo maior do país.
Uma linha de crédito emergencial de 50 bilhões de francos suíços (US$ 54 bilhões) fornecida pelo Swiss National Bank (SNB, o BC suíço) na quarta-feira não deteve a queda vertical do preço das ações, que foi exacerbada por uma turbulência no mercado como um todo causada pelo repentino colapso do Silicon Valley Bank, da Califórnia.
“Na sexta-feira, as retiradas de recursos e a volatilidade do mercado revelaram não ser mais possível restabelecer a confiança do mercado, e que uma solução rápida e estabilizadora era absolutamente necessária”, disse o presidente da Suíça, Alain Berset, em entrevista coletiva à imprensa em Berna na noite de ontem. “Essa solução foi a tomada de controle do Credit Suisse pelo UBS.”
O UBS pagará cerca de 0,76 franco suíço por ação com suas próprias ações, no valor de 3 bilhões de francos suíços, em relação a uma oferta de compra de 0,25 franco suíço apresentada horas antes, ainda ontem, no valor de US$ 1 bilhão e recusada pelo conselho de administração do Credit Suisse. No entanto, a oferta continua muito inferior ao valor de fechamento dos papéis do Credit Suisse, de 1,86 franco, na sexta.
Como parte do acordo, o SNB aceitou oferecer uma linha de liquidez de 100 bilhões de francos respaldada por uma garantia federal contra inadimplência ao UBS, disse o Ministério das Finanças suíço. O governo vai fornecer uma garantia contra prejuízos de até 9 bilhões de francos suíços, mas só depois de o UBS ter arcado com os primeiros 5 bilhões de francos suíços em perdas computadas em determinadas carteiras de ativos.
A combinação cria um dos maiores bancos da Europa. O UBS tem US$ 1,1 trilhão em total de ativos em seu balanço, e o Credit Suisse, US$ 575 bilhões.
“Esse não é um pacote de socorro financeiro. É uma solução comercial”, disse Karin Keller-Sutter, ministra das Finanças suíça. “A falência teria causado enormes danos em termos de garantias ao mercado financeiro suíço, e com um risco de contágio internacional”, disse. “Os EUA e o Reino Unido ficaram muito gratos por essa solução… eles realmente temiam uma falência do Credit Suisse.”
A tomada de controle significa o fim do banco, operante há 167 anos, cuja sede fica de frente para seu ferrenho concorrente UBS, instalado do outro lado da praça Paradeplatz de Zurique.
A operação põe fim a um calamitoso período de alguns anos para o Credit Suisse, marcado por crises paralelas ligadas ao grupo Greensill Capital e ao “family office” (escritório especializado em administrar a fortunas de famílias) Archegos, em 2021, que resultaram em bilhões de dólares em prejuízos e abalaram gravemente a reputação do banco em gestão de risco.
Sob os termos do acordo, cerca de 16 bilhões de francos suíços em títulos de capital adicionais de nível 1 do Credit Suisse, criados para assumir perdas quando as instituições enfrentam problemas e para transferir o risco de falência de um banco dos contribuintes para os investidores, estão sendo eliminados.
O Credit Suisse disse em comunicado na noite de ontem que o órgão regulador do mercado suíço, a Finma, determinou que os bônus “sofrerão baixa contábil para zero”. Cerca de 1 bilhão de francos suíços de capital de outras origens também passou por baixa contábil.
O conselho federal suíço — o braço executivo do governo — emitirá um conjunto maciço de determinações emergenciais para desobrigar temporariamente o cumprimento de obstáculos de ordem regulatória e de governança, a fim de facilitar o fechamento rápido da transação. Os parlamentares suíços também terão de acabar aprovando o processo — embora retroativamente; uma votação será realizada dentro dos próximos seis meses.
O CEO do Credit Suisse, Ulrich Körner, não conseguiu pôr fim às crises do banco durante seu mandato de oito meses. Um plano de reestruturação que incluiu desmembrar seu banco de investimentos como unidade independente e fechar cerca de 9 mil vagas não foi suficiente para convencer os investidores.
Os clientes sacaram 111 bilhões de francos suíços do grupo nos últimos três meses do ano passado. Os resgates de depósitos do Credit Suisse ultrapassaram 10 bilhões de francos suíços ao dia no fim da semana passada, segundo noticiou anteriormente o “Financial Times”.
As ações do Credit Suisse caíram mais de 74% nos últimos doze meses, deixando seu valor de mercado na sexta-feira em apenas US$ 8 bilhões, indicador que perde de longe para o valor de mercado de aproximadamente US$ 57 bilhões do UBS.
Para o UBS, o acordo consolida sua posição como o maior gestor de patrimônio do mundo, com operações que abarcam EUA, Europa, Oriente Médio e Ásia. A entidade resultante da fusão terá US$ 5 trilhões em ativos investidos globalmente.
“O UBS permanecerá tremendamente sólido”, disse o presidente do conselho de administração do banco, Colm Kelleher, que continuará a encabeçar a entidade resultante ao lado do CEO Ralph Hamers. Kelleher disse que a divisão suíça do Credit Suisse é “um ativo muito bom, que estamos muito determinados a manter” e que é cedo demais para dar uma estimativa de cortes de vagas no conjunto de várias divisões que o UBS está adquirindo.
Em 2022, o UBS registrou lucro de US$ 7,6 bilhões, enquanto o Credit Suisse amargou um prejuízo de US$ 7,9 bilhões, o que, na prática, fez evaporar todos os lucros dos dez anos anteriores.
Fonte: Valor Econômico
