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Fenolio: disputa eleitoral voltou a ficar mais acirrada — Foto: Gabriel Reis/Valor
Os efeitos do debate presidencial entre a candidata democrata Kamala Harris e o republicano Donald Trump foram amplamente sentidos nos mercados financeiros ontem. Diante da avaliação de que a atual vice-presidente se saiu melhor no embate, as bolsas de apostas passaram a atribuir uma probabilidade maior de vitória da candidata, cenário que levou a uma desvalorização das posições que se beneficiariam em caso de uma vitória do ex-presidente – estratégia que o mercado batizou de “Trump trade”.
Houve repercussões em uma série de ativos. As moedas de mercados emergentes tiveram um dia positivo, com amplo destaque para o peso mexicano – o país é um alvo importante da retórica do republicano. O dólar caiu 1,31% contra a divisa do México, que registrou o melhor desempenho dentre as 33 moedas mais líquidas acompanhadas pelo Valor.
Ainda durante o debate, transmitido pela ABC News, na noite de terça-feira, as bolsas de apostas passaram a apontar uma probabilidade majoritária de vitória de Kamala Harris sobre Donald Trump. O cenário representou uma inversão da trajetória negativa que a democrata vinha exibindo nos últimos dias, após a euforia inicial provocada pela desistência de Joe Biden da corrida eleitoral.
“Era um debate em que ela entrou precisando ganhar para gerar um fato novo na campanha. E acredito que tenha conseguido. É preciso observar as pesquisas agora e talvez ela volte a crescer um pouco mais. A corrida eleitoral estava se encaminhando para um certo favoritismo de Trump e, agora, ela volta a se tornar muito mais competitiva”, afirma o economista-chefe da WHG, Fernando Fenolio.
Segundo ele, o mercado agora deve ter menos convicção nas estratégias que se beneficiariam de uma vitória de Trump, faltando dois meses para as eleições. “Se ontem [terça-feira] o desfecho do debate tivesse sido o contrário, acredito que o mercado ia começar a pular no ‘Trump trade’ com mais força, já que ele vinha exibindo alguma vantagem nos últimos dias. Mas não foi o que ocorreu e a eleição está acirrada de novo”, diz.
Para Ivo Chermont, sócio e economista-chefe da Quantitas, a perspectiva de vitória da democrata não só aponta para um dólar mais fraco globalmente, como também para um estresse menor nos juros americanos como, nos títulos do Tesouro dos Estados Unidos com prazos de 10 e 30 anos. Na visão dele, ambos os candidatos tendem a “estressar” as taxas dos Treasuries, mas o plano de corte de impostos de Trump tem mais chance de se efetivar do que os aumentos de gastos pretendidos pela democrata em um cenário de Congresso dividido ou tomado pela liderança republicana.
Além disso, Chermont avalia que o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) tende a ter mais espaço para cortar os juros em 2025 com um novo governo democrata. “[Uma vitória de] Kamala seria um mundo muito parecido com o de hoje, teria poucas alterações econômicas. Com Trump, a coisa fica muito mais volátil, o que pode dar ao Fed algum grau de cautela um pouco maior”, diz.
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Para as bolsas, em termos de índices, o economista da Quantitas não vê diferença entre os candidatos, mas avalia que uma vitória de Trump pode favorecer setores mais sensíveis a questões regulatórias, como o de petróleo e gás e empresas do ramo farmacêutico.
Até a eleição em novembro, porém, Chermont também não espera que o mercado assuma uma tendência clara em meio à incerteza quanto ao vencedor. Os efeitos do “Trump trade” no mercado podem, inclusive, retornar a depender das notícias que aparecerem até o dia do pleito, seja por meio de novas pesquisas eleitorais, seja pelo desempenho dos candidatos à vice-presidência J.D. Vance (republicano) e Tim Walz (democrata) em debates, entre outros fatores.
O economista lembra que, nas eleições presidenciais de 2020, as pesquisas eleitorais subestimaram em cerca de quatro pontos percentuais o desempenho final de Trump no estados-pêndulo, o que já seria suficiente para compensar a vantagem que Harris exibe nas sondagens mais recentes.
“No fundo, para saber quem está na frente, tem que ter alguma hipótese sobre o erro das pesquisas, e aí não dá pra ter convicção”, diz o economista, que cita a presença dos eleitores no dia do pleito como o principal desafio para as estimativas dos institutos. Nos Estados Unidos, o voto não é obrigatório.
Na avaliação do profissional de uma importante gestora de recursos, havia uma ampla expectativa no mercado de que Harris iria mal no debate, o que levou os investidores a um retorno ao “Trump trade” no pregão de terça-feira, antes do enfrentamento entre os dois. “Mas foi algo bem distante daquele primeiro debate contra o [presidente dos EUA Joe] Biden. Ela foi preparada e foi muito bem. Conseguiu jogar umas cascas de banana e o Trump escorregou. A chance de ela vencer aumentou e isso é refletido nos preços dos ativos”, diz.
Diante do aumento das apostas em Harris, a cesta de ações que se favoreceriam com uma vitória republicana se desvalorizou na sessão de ontem, especialmente em relação aos papéis que ganhariam com uma vitória democrata. A razão entre as duas cestas caiu à mínima histórica.
A cesta republicana, elaborada pelo UBS, contém ações de grandes bancos, empresas de consumo financeiro, empresas que ganhariam em um cenário de produção nos EUA, setor automotivo e companhias ligadas à aplicação da lei.
Na cesta democrata, o UBS inclui empresas que se beneficiariam do plano de redução da inflação; papéis do setor de defesa e aeroespacial; ações do setor industrial com exposição à China; e ações de consumo.
“Os preços andaram de acordo com o debate”, diz o gestor. “Não tenho apostado em um ou outro candidato e estamos sendo meio neutros no nosso portfólio, mas é nítido que o mercado tem tirado cada vez mais probbailidade de vitória do Trump.”
Fonte: Valor Econômico

