A invasão americana na Venezuela ainda passará pelo escrutínio do Congresso dos Estados Unidos e organizações internacionais, mas no mercado financeiro as análises imediatas se voltam principalmente para os efeitos no setor energético e nas relações geopolíticas. O discurso do presidente Donald Trump após a captura de Nicolás Maduro, numa operação militar que mobilizou mais de 150 aeronaves na madrugada de sábado, deu o tom ao mesclar política e economia.
Preço do petróleo: o impacto no curto prazo tende a ser baixo porque a produção venezuelana hoje é inferior a um milhão de barris/dia, menos de 1% da oferta global. Analistas estrangeiros estimam alta limitada do Brent, entre US$ 1 e US$ 2, dado o efeito surpresa e as incertezas, mas considerando que o contexto da commodity é de excesso de oferta global e demanda fraca. O Brent fechou sexta-feira a US$ 60,75. No médio prazo, uma retomada das exportações venezuelanas para até três milhões de barris/dia pode pressionar ainda mais a cotação, após a maior queda anual em 2025 nos últimos cinco anos.
A beneficiada: a Chevron é hoje a única grande petrolífera americana ainda presente na Venezuela e aparece como principal candidata a liderar a reconstrução do setor no país. A empresa responde por cerca de 200 mil barris/dia da produção local. Trump disse que as petrolíferas americanas, que viram seus ativos serem estatizados, vão reocupar o país e que os EUA vão controlar as reservas locais de petróleo. Trata-se simplesmente da maior reserva de óleo do mundo, mas a Venezuela está atrasada em infraestrutura e um aumento significativo da produção demanda tempo e investimento. Seu maior comprador, hoje, é a China.
Embate no Congresso: no campo político, a operação também pode mexer com o preço dos ativos financeiros ao gerar novas incertezas e ruídos entre o governo americano e congressistas. Republicanos, em sua maioria, celebraram a captura de Maduro, enquanto democratas questionaram a legalidade da ação. Alguns parlamentares americanos afirmaram, ao longo do sábado, que Trump não buscou autorização nem informou previamente o Congresso, em possível violação à Resolução dos Poderes de Guerra. A Casa Branca diz que a notificação prévia comprometeria a missão.
Repercussão diplomática: O secretário-geral da ONU, António Guterres, disse que a ação dos EUA abre “um precedente perigoso” e o conselho de segurança no órgão convocou uma reunião sobre o tema para a segunda-feira. Brasil, Colômbia, México, China e Rússia foram alguns dos países que já se manifestaram contra a estratégia americana para depor o ditador – o que pode azedar novamente a relação de Lula e Trump.
(Com informações do WSJ, NYT, FT e CNBC)
Fonte: Pipeline

