O entendimento de que o Banco Central está cada vez mais próximo de encerrar o ciclo de aperto da Selic foi reforçado durante as reuniões de primavera do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial. Na visão de participantes do mercado, os discursos dos dirigentes da autoridade monetária em Washington apontaram na mesma direção: as taxas de juros já estão bastante restritivas no Brasil e, diante da incerteza elevada no cenário econômico, os próximos passos na condução da política monetária exigem cautela ainda maior.
O mercado esperava apenas um sinal mais concreto do BC de que o fim do ciclo de aperto está próximo para começar a embalar o próximo “trade” com mais força. Foi o que ocorreu nas duas sessões anteriores na dinâmica dos juros futuros, que sofreram forte queda e acumulam retração expressiva no mês. Taxas de médio e de longo prazo já operam na casa dos 13% e são negociadas nos menores níveis desde novembro, mesmo em um ambiente de leilões gigantes de títulos públicos feitos pelo Tesouro Nacional.
Ao longo da semana, os diretores Diogo Guillen (política econômica), Nilton David (política monetária) e Paulo Picchetti (assuntos internacionais e gestão de riscos corporativos) se reuniram com investidores em Washington. Alguns encontros foram transmitidos, mas outros foram fechados à imprensa. Todas as falas, com transmissão ou a portas fechadas, foram lidas como mais “dovish” (suaves) por participantes do mercado e contribuíram para o forte alívio nas taxas futuras de juros.
Entre os vencimentos mais curtos, a taxa do DI para janeiro de 2026 caiu de 14,775% no fim da semana passada para 14,60% ontem. Já em vencimentos mais longos, a do DI para janeiro de 2029 recuou de 14,06% na última sexta-feira para 13,60%, em uma forte descompressão de prêmios de risco.
O comportamento menos agressivo também se refletiu nas expectativas para a política monetária no curtíssimo prazo: no mercado de opções digitais, a chance de um aumento de 0,25 ponto na Selic em maio, para 14,5%, subiu de 13% no fim da semana passada para 39% ontem. Na contramão, a probabilidade de uma alta de 0,5 ponto no juro básico, para 14,75%, enfrentou uma forte queda, ao passar de 78% para 55% ontem.
No geral, os dirigentes evitaram dar sinais concretos sobre os próximos passos na condução da política monetária e enfatizaram que a incerteza é elevada. No entanto, alguns apontamentos foram vistos como cruciais para a visão do mercado de que o BC passou a adotar uma visão mais “dovish”: a menção do diretor Nilton David aos efeitos defasados da política monetária; a ênfase ao nível restritivo dos juros; e o slide de uma apresentação do diretor Diogo Guillen sobre uma estimativa da chamada regra de Taylor — fórmula matemática que indica como reagir a desvios de inflação e de atividade —, que indicaria a necessidade de juros menores que os contemplados no Boletim Focus.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_63b422c2caee4269b8b34177e8876b93/internal_photos/bs/2025/0/8/Fz0lWFR9mAJudVdxCBZQ/regra-taylor.png)
Os fatores externos na dinâmica do mercado de juros também tiveram peso, mas investidores notam que a queda mais firme das taxas futuras começou a ocorrer na manhã de quarta-feira, quando Guillen teve reuniões fechadas em Washington e David participou de “live” organizada pelo J.P. Morgan. Os dois diretores também tiveram encontros privados com participantes do mercado na tarde de quarta-feira e, ontem, Guillen e Picchetti discursaram em eventos com transmissão.
O Valor apurou, em conversas com participantes do mercado que estiveram em reuniões fechadas com Diogo Guillen, que a percepção geral foi a de um discurso mais “dovish”. Embora tenha apontado que a inflação ainda estava alta e disseminada, o dirigente teria ponderado que a política monetária está funcionando e que as estimativas de alguns economistas para o impacto do consignado privado sobre a demanda agregada e o PIB podem ser exageradas. Além disso, Guillen também teria dito que a abertura do hiato do produto, ou seja, o aumento da ociosidade na economia, será mais significativa do que ele tem visto nas análises do Questionário Pré-Copom (QPC).
Ao participar de um evento aberto da XP ontem, Guillen apresentou um gráfico mostrando que as decisões do BC seguem a regra de Taylor, que não havia sido apresentado nas reuniões fechadas, segundo participantes. Guillen foi questionado mais de uma vez pela audiência do evento se a regra indicaria como o BC pretende agir no futuro e, embora o diretor tenha enfatizado que não, economistas disseram que dificilmente isso não seria lido por agentes do mercado como uma mensagem bastante “dovish”, já que o gráfico mostrava uma regra de Taylor com a Selic indo a menos de 14,5% no pico – abaixo, portanto, da projeção atual do Focus de 15%.
Já participantes de encontros privados com o diretor Nilton David a portas fechadas também apontam que não houve um conteúdo muito diferente, mas avaliam que os pontos escolhidos por ele foram interpretados como mais “suaves”. Nas reuniões, ele teria enfatizado que haverá uma abertura do hiato do produto; que a forte desvalorização do real no fim de 2024 teve mais relação com fatores externos do que domésticos; e, ao ser questionado se o BC deveria adotar uma postura mais conservadora e incorporar o consignado em seus cenários, ele teria dito que não havia certeza sequer de que haverá um efeito sobre a atividade.
O diretor Paulo Picchetti tem reuniões fechadas com investidores levados pelo Bank of America (BofA) nesta sexta-feira. Ontem, durante apresentação em evento do Itaú, deu ênfase às incertezas na economia. “Quando não se tem um panorama claro dos impactos, você não pode fazer movimentos bruscos.”
O dirigente também destacou o nível elevado da inflação, mas enfatizou, no fim do evento, que não tem dúvidas de que a política está “muito restritiva”. “Não sabemos se está restritiva o suficiente, mas está muito restritiva.”
Fonte: Valor Econômico

