A crise da gestora americana Blue Owl, que financia empresas de software e suspendeu resgates em um de seus fundos, levantou temor sobre uma contaminação maior no crédito privado – o ativo que se alastrou nas carteiras globais nos últimos anos.
“Todas as principais classes de ativos já foram testadas. Agora é a vez do crédito privado”, diz o gestor de renda fixa de alto risco Mark Benbow, da Aegon Asset Management. A firma gere US$ 1 trilhão, dos quais US$ 7 bilhões na estratégia de high yield comandada por Benbow.
Ele destaca que parte do fluxo de entrada nesses papéis nos últimos anos se deu por mudanças na regulação. Países como Estados Unidos e Reino Unido passaram a permitir que planos de previdência de benefício definido tivessem acesso ao crédito privado, o que fez a classe de ativos inchar para US$ 40 trilhões, dos quais apenas US$ 2 trilhões são high yield e o restante, grau de investimento.
“Novos produtos foram lançados para oferecer ‘liquidez’, o que resultou em algumas soluções criativas, como companhias BDC (listadas em bolsa para financiar pequenas e médias empresas) ou fundos evergreen (de papéis sem vencimento), já que muitos desses instrumentos não são negociados no mercado secundário”, explica.
Parte dessas estruturas financiava a indústria de software, como os fundos da Blue Owl, um mercado que já vinha passando por questionamentos em seus fundamentos. No último mês, as ações de empresas do setor listadas em bolsa sentiram um baque, dado o receio de que novas ferramentas de agentes de IA possam decretar o fim do SaaS como é hoje.
Nas contas da gestora americana Voya Investment Management, a exposição do crédito privado a empresas de software é de cerca de US$ 226 bilhões. À CNBC, a Voya definiu o mercado de software como “o setor mais alavancado no mercado de crédito direto de middle market”, indicando que o problema é mais da indústria financiada do que da classe de ativos.
Por isso, para o gestor da Aegon, o fenômeno da inteligência artificial é um catalisador de risco adicional para o crédito privado. “Muitos dos emissores, fala-se em até um terço, são PMEs de software. Com o advento da IA, isso tem gerado preocupação quanto aos critérios de concessão de crédito e à sustentabilidade dos modelos de negócios.”
A situação da americana Blue Owl só aumentou as preocupações. “O mercado provavelmente passará a exigir um prêmio de spread maior para emprestar a crédito privado. Muitos investidores vão querer resgatar quando seus fundos abrirem janelas de liquidez, o que tornará o refinanciamento mais desafiador para os emissores.”
“Os defaults inevitavelmente subirão, dado o custo de capital mais elevado. Isso será o fim do crédito privado? Certamente não. Mas há preocupação com futuras baixas contábeis, dada a ausência de marcação a mercado? Absolutamente sim”, diz Benbow.
Além disso, apesar da distinção entre crédito privado e o high yield público, uma crise em um quase certamente terá impacto sobre o outro, emenda Tom Hanson, co-gestor na Aegon. “É como morar no mesmo bairro, mas em casas diferentes”, diz. “O crédito privado é obviamente muito menos líquido e mais difícil de negociar do que o high yield público, então um susto de liquidez pode levar investidores a levantar caixa a partir do ativo mais líquido disponível, que provavelmente será o high yield público.”
Fonte: Valor Econômico
