KEVIN levou a indicação, no fim. Em 30 de janeiro, o presidente Donald Trump escolheu Kevin Warsh para comandar o Federal Reserve (Fed). Ele superou um rival Kevin, Hassett (um favorito inicial), Rick Rieder e Christopher Waller na etapa final de uma disputa de meses. Trump elogiou o longo currículo de Warsh. “Além de tudo”, escreveu o presidente americano, estrela de reality show, “ele é ‘central casting’.”
Deixando de lado o visual de Wall Street, Warsh parece uma escolha peculiar para um presidente em cruzada para reduzir os juros. Ele ganhou notoriedade como um feroz falcão da inflação durante sua passagem como diretor do Fed de 2006 a 2011. De forma desconcertante, ele passou até mesmo pelos piores momentos da crise financeira global de 2007-09, quando a inflação era inexistente, preocupado com a possibilidade de os preços dispararem.
Agora, os Estados Unidos realmente têm um problema de inflação. Foi preciso uma pandemia e concessões fiscais colossais (às quais, para seu crédito, Warsh se opôs), mas os preços finalmente saíram do controle. O Warsh de duas décadas atrás poderia ter sentido uma ponta de vindicação presunçosa. Em vez disso, Warsh agora afirma ser uma “pomba” favorável a cortes de juros do tipo que Trump admira.
Warsh explica essa mudança de posição apontando para o gênio desregulatório da formulação de políticas do presidente e para a perspectiva de um boom de inteligência artificial capaz de elevar a produtividade. Essas forças, ele argumenta, apagarão qualquer inflação remanescente na economia. O Fed não precisa se preocupar e pode, felizmente, reduzir os juros para dar mais impulso às coisas.
Mesmo que a IA faça milagres de produtividade (o veredito ainda está em aberto) e a Casa Branca reduza a burocracia (seus resultados até agora têm sido menos impressionantes do que seus anúncios), ignorar a inflação hoje por conta de ganhos especulativos de produtividade amanhã está mais perto do pensamento desejoso do que de uma política monetária prudente. Ainda assim, os mercados parecem aliviados. Warsh pode ser camaleônico, mas não é uma espécie desconhecida e tem experiência real no Fed. Os yields dos títulos [rendimentos de títulos] mal se mexeram desde que ele surgiu como o favorito claro no dia anterior ao anúncio de Trump. Os mercados acionários mal perceberam. Como Trump nunca iria apresentar um indicado “business as usual” [sem grandes mudanças], os investidores concluíram que Warsh é o mais próximo disso que existe.
Como seria o Fed de Warsh? O afrouxamento quantitativo (QE) [quantitative easing; compra de ativos pelo banco central] está fora de cogitação. Warsh nunca vacilou em seu ódio ao enorme balanço [balanço patrimonial] que o Fed acumulou por meio de compras de títulos. Convenientemente, isso o alinha com Scott Bessent, o secretário do Tesouro, que supervisionou o processo de escolha do presidente do Fed (e que é ele próprio um ex-protegido de Stanley Druckenmiller, atual chefe de Warsh na Duquesne Capital, um family office [gestora de patrimônio de uma família]). Bessent comparou o QE à pesquisa biológica de “ganho de função” [experimentos que aumentam capacidades de patógenos], do tipo que entusiastas da hipótese de vazamento de laboratório culpam por desencadear a pandemia de covid-19. Isso também se encaixa em um consenso crescente sobre o QE — até banqueiros centrais sisudos, como Andrew Bailey, do Banco da Inglaterra, passaram a expressar reservas semelhantes.
Onde Warsh pode colidir com a ortodoxia é nos juros e, de forma mais preocupante, na independência do Fed. Warsh terá dificuldade para cortar juros por conta própria: ele detém apenas um dos 12 votos no comitê que os define. Jerome Powell, o atual presidente mais “falcão”, pode muito bem permanecer como diretor do Fed até o fim de seu mandato em 2028, em vez de sair quando sua presidência terminar em maio, como a maioria de seus predecessores. Assim, Warsh quase certamente substituirá Stephen Miran, o único e declarado “puxa-saco” de Trump no Fed.
Um choque mais sério diz respeito à independência do Fed. Nenhum presidente foi tão intrometido quanto Trump nas sete décadas desde que o banco central conquistou liberdade em relação à interferência política. Ele repreende Powell constantemente e está tentando demitir Lisa Cook, outra diretora do Fed, por supostamente ter documentação duvidosa do seu financiamento imobiliário (o que ela nega e que a Suprema Corte parece propensa a rejeitar). Mesmo que Warsh redescubra seu lado “falcão” uma vez empossado para um mandato fixo (invulnerável ao capricho presidencial), as dúvidas sobre sua imparcialidade permanecerão.
O momento definidor da carreira de Warsh foi a crise financeira, quando ele serviu como embaixador do Fed junto a Wall Street. Naquele episódio e em crises desde então, o Fed foi uma mão firme vital, em que tanto os dois partidos quanto os mercados confiavam. Agradar ao presidente sem alienar todo o resto exigirá não apenas aparência, mas habilidade acrobática. Talvez Warsh esteja desejando ter um dublê. ■
Fonte: The Economist

