Os mercados domésticos de renda fixa deram sequência à recuperação dos últimos dias e exibiram um forte alívio ontem, mesmo sem direcionadores claros. Se anteriormente, o movimento ficou concentrado nos juros prefixados, ontem as taxas das NTN-Bs (títulos públicos atrelados à inflação) acompanharam a melhora vista nos juros nominais e apresentaram um recuo ainda mais robusto, com queda de até 7 pontos-base (0,07 ponto percentual). O recuo dos juros futuros ajudou o Ibovespa a subir na sessão de ontem. Já o dólar à vista encerrou em leve alta.
Participantes do mercado avaliam que o bom desempenho local nos mercados de renda fixa se deu por uma movimentação técnica dos investidores, com o mercado voltando a comprimir os prêmios acrescidos às taxas nas primeiras semanas de outubro. No começo do mês, os prêmios subiram em virtude de ruídos fiscais, problemas em títulos de dívida externa de empresas brasileiras e do tom bastante conservador de diretores do Banco Central em eventos.
Agentes financeiros também citam que é possível que parte da melhora nas taxas nominais esteja relacionada à expectativa do mercado de um número menor para o IPCA-15 de outubro, que será divulgado na próxima sexta-feira.
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No fim da sessão, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 caiu de 13,925%, do ajuste anterior, para 13,88%; a do DI de janeiro de 2029 recuou de 13,205% a 13,145%; e a do DI de janeiro de 2031 teve baixa de 13,485% para 13,42%.
Já no mercado de NTN-B, os juros reais de prazos intermediários e longos fecharam em forte queda, acelerando a descompressão dos retornos observados nos dois primeiros dias da semana. A taxa da NTN-B com vencimento em maio de 2035 cedeu de 7,70% para 7,65%, ao passo em que o juro real extraído do papel atrelado à inflação para agosto de 2060 saiu de 7,31% para 7,24%.
“O mercado está devolvendo a piora [do começo de outubro] e colocando [a reunião do BC em] janeiro na mesa novamente”, diz um operador de um importante banco local. Segundo ele, a curva de juros futuros já embute 15 pontos-base (ou 0,15 ponto percentual) de cortes da Selic até janeiro, o que significa que parte do mercado já espera redução da taxa básica antes de março ou abril, cenário-base da maior parte dos economistas.
O recuo dos juros futuros ajudou o Ibovespa a se manter no positivo ontem. No entanto, o maior impulso para a alta veio da repercussão positiva do mercado ao relatório de produção da Vale no terceiro trimestre, juntamente com o avanço de ações de bancos e com a recuperação dos papéis da Petrobras. No fim do dia, o índice subiu 0,55%, aos 144.873 pontos.
Com o apoio de blue chips, o Ibovespa conseguiu remar na contramão de Wall Street. As principais referências acionárias cederam, em virtude do recuo das ações de tecnologia e da notícia de que os EUA estariam considerando restringir a exportação de produtos com software americana para a China, segundo a Reuters. No fim do dia, o Nasdaq recuou 0,93%; o Dow Jones teve perda de 0,71%; e o S&P 500 teve baixa de 0,53%.
Tecnologia (-0,79%) e comunicação (-0,88%) ficaram entre as maiores perdas, com destaque para as ações da Netflix, que cederam 10,07%, após o resultado trimestral vir pior do que o esperado.
Já o índice DXY, que mede o desempenho da moeda americana frente a uma cesta de outras seis divisas fortes, operava estável, com queda de 0,03%, no fim do pregão. Por aqui, o dólar comercial passou por um dia de instabilidade, até encerrar em alta de 0,13%, a R$ 5,3969. A sessão foi marcada pela baixa liquidez e pela falta de um catalisador para os negócios.
O economista-chefe do Banco BV, Roberto Padovani, avalia que o ambiente é de muita indefinição e que a “qualidade de informações que os economistas usam para entender as dinâmicas cambiais piorou muito”. Para ele, duas quebras relevantes na dinâmica do câmbio local dificultam a leitura. “Por um lado, vimos o movimento global do dólar ter maior peso na formação da cotação do real frente à moeda americana; por outro, o dólar deixou de responder a alguns fundamentos, como a taxa de juros dos EUA”, destacou.
Fonte: Valor Econômico
