As mudanças tributárias que vão impor uma taxação mínima de 10% para as altas rendas a partir deste ano podem provocar algum deslocamento de fluxo entre os investimentos, mas ainda não dá para estimar a magnitude nem a que tempo esses movimento vai ser sentido, segundo Pedro Rudge, diretor da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).
“Alguma coisa a gente vai ver de realocação porque o investidor sente no bolso quando está pagando um pouco mais de imposto e busca alternativas para otimizar ou reduzir esse tipo de tributação”, disse Rudge, em entrevista à imprensa para comentar o desempenho da indústria de fundos de investimentos em 2025. “Principalmente porque nem todo tipo de investimento que gera renda entra no cálculo de IR mínimo, a atratividade dos isentos vai acabar aumentando quando se pensa em tributação.”
O mais importante, enfatizou Rudge, é o investidor entender as diversas alternativas, riscos e propostas, não olhar apenas para a tributação para fazer uma eventual realocação.
Uma indicação de como o investidor se comporta quando há mudanças regulatórias ou tributárias foi o desempenho dos fundos de previdência em 2025, afirmou Julya Wellisch, diretora da Anbima. Com os 5% de imposto sobre operações financeiras (IOF) nas aplicações acima de R$ 300 mil nos planos do tipo VGBL — que representam mais de 90% do setor — os fundos que acomodam as reservas para aposentadoria e outras finalidades de longo prazo tiveram resgates líquidos de R$ 32,1 bilhões. O saldo negativo não tinha aparecido em nenhum outro ano da série histórica da Anbima, que começa em 2006.
Antes, em 2023 e 2024, os multimercados sofreram os impactos do fim do diferimento tributário em fundos fechados exclusivos usados por indivíduos e famílias mais endinheiradas para fazer gestão patrimonial. Naquele biênio, a classe perdeu R$ 527,7 bilhões. No ano passado, a sangria foi menor, com saídas líquidas de R$ 58,9 bilhões.
Rudge observou que nos dois últimos trimestres de 2025, houve captação de R$ 7,7 bilhões nos fundos mistos, o que pode sinalizar uma mudança de tendência para 2026. “Demonstra alguma recuperação da classe, que pode ser atribuída a uma performance melhor.”
Na média, o índice de hedge funds da Anbima (IHFA) teve valorização de 14,7% em 2025, pouco acima dos 14,3% do CDI no período. O melhor desempenho foi para as carteiras “long short”, que fazem arbitragem com ações.
Entretanto, os fundos de ações ainda não recuperam terreno, mesmo com o bom desempenho da bolsa no ano passado, com ganhos de 34% para o Ibovespa. Os resgates líquidos na categoria foram de R$ 54,5 bilhões, vindo de saques de R$ 16,3 bilhões em 2024.
Rudge afirmou que o bom comportamento das ações brasileiras foi ancorado pelo capital estrangeiro e que o investidor local segue avesso a estratégias de maior risco. “A alocação da pessoa física, dos fundos de pensão, family offices, todos os perfis de investidores ainda mostram saída de recursos e uma exposição muito baixa”, disse.
Para ele, o que vai ajudar os fundos de ações a ganharem fôlego é a redução da taxa básica de juros e uma expectativa macroeconômica mais positiva, seja pelo lado fiscal, seja pelas eleições.
Outro componente que pode favorecer a renda variável em fundos é que dentro das carteiras os dividendos não serão taxados. Já a pessoa física que receber individualmente mais de R$ 50 mil por mês passa a ter um desconto de 10% na fonte, que poderá ser compensado na declaração de ajuste anual do exercício seguinte.
Fonte: Valor Econômico

