Trump apresenta tarifas recíprocas para parceiros comerciais, no que chamou de ‘dia da libertação’, em 2 de abril — Foto: Mark Schiefelbein/AP
Para Donald Trump e alguns de seus principais conselheiros, as tarifas comerciais são o instrumento para estimular a economia dos EUA, trazer de volta empregos na indústria, aumentar a arrecadação de impostos e dar ao país poder de barganha para renegociar acordos de segurança com seus aliados. Muitos economistas consideram esses objetivos exagerados, ou mesmo contraditórios.
A Reuters ouviu alguns dos atuais e ex-assessores de Trump, alguns dos quais divergem fortemente sobre a teoria econômica por trás da estratégia do presidente. Mas a maioria deles concorda em um ponto, quando a poeira das negociações abaixar, os EUA ficarão com tarifas mais altas.
A imposição de tarifas às importações por Trump, em abril, enfureceu parceiros comerciais dos EUA, desacelerou a economia mundial e fez os mercados entrarem em crise.

Ela contraria o consenso que sustentou a ordem global após a Segunda Guerra Mundial: a ideia de que o livre comércio promove a paz e a prosperidade. Trump acusa outros países de explorar esse sistema, o que teria causado perda de empregos na indústria nos EUA e prejudicado os trabalhadores americanos – muitos dos quais votaram nele.
Mas investidores, governos estrangeiros e economistas vêm tendo dificuldade para entender a estratégia do presidente. Stephen Miran, presidente do Conselho de Assessores Econômicos, o centro de estudos políticos da Casa Branca, disse que Trump está criando um novo paradigma comercial para os EUA e amenizou o significado das oscilações do mercado e dos dados econômicos, classificando-as como impacto de “curto prazo”.
“Dada a abrangência histórica e a velocidade das ações do presidente para colocar os trabalhadores americanos em pé de igualdade com o resto do mundo, é claro que haverá volatilidades no curto prazo”, disse Miran. Ele afirmou que existe uma tarifa ideal para os EUA, que maximizaria a arrecadação de impostos e, ao mesmo tempo, beneficiaria a economia. “Tenho plena convicção de que esse número é positivo. É mais alto do que os dois ou três por cento que estavam em vigor quando este governo começou”, afirmou Miran.
Tarifas mais altas vão arrecadar centenas de bilhões de dólares por ano e facilitar os cortes de impostos internos que, segundo ele, vão estimular o crescimento.
Em um artigo publicado em novembro, intitulado “Um guia do usuário para a reestruturação do sistema comercial global”, Miran cita um estudo que mostra que sob certas circunstâncias, a taxa tarifária ideal dos EUA é de cerca de 20%.
Miran disse que o estudo antecede ao seu cargo na Casa Branca e “não reflete a política do governo”.
Peter Navarro, conselheiro sênior de Trump para comércio e indústria, expressou apoio ao conceito de tarifa ideal, dizendo que ela “claramente indica que um grande país pode melhorar seus termos comerciais pelas tarifas”.
Navarro disse que os déficits comerciais são indesejáveis porque transferem empregos, produção e propriedade de ativos para o exterior, razão pela qual os países buscam ter superávits. “Quando os acordos começarem a surgir, os céticos serão silenciados”, afirmou Navarro. “Esta poderá ser a última chance que esta nação terá para reverter o comércio injusto.”
Na semana passada, Trump anunciou um acordo bilateral limitado com o Reino Unido, que manteve tarifas de 10% sobre as exportações britânicas, ampliando ligeiramente o acesso agrícola para ambos os países e reduzindo as tarifas proibitivas sobre as exportações britânicas de automóveis. Na ocasião, Trump disse que mais acordos comerciais estavam a caminho, incluindo com a China.
Nouriel Roubini, economista que ganhou proeminência por prever a crise global de crédito de 2008, já trabalhou com Miran e fez uma avaliação do seu artigo de novembro sobre comércio. O cenário-base de Roubini é que as tarifas ficarão em torno de 10% para a maior parte dos parceiros dos EUA, e cerca de 60% para a China.
Nesse cenário, a inflação chegaria a 4% e a economia estagnaria no quarto trimestre, segundo Roubini. Isso levaria o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) a cortar juros, criando uma recessão “curta e superficial”. “Se, em vez desse cenário, ficar bem acima disso, haverá o risco de uma recessão realmente severa, nos EUA e no mundo”, acrescentou.
A economia dos EUA encolheu no primeiro trimestre pela primeira vez desde 2022, com o comércio pesando sobre os dados. Uma pesquisa de opinião mostra que os eleitores americanos estão ficando preocupados com as tarifas de Trump e com a condução da economia pelo governo.
Lawrence Summers, economista que ocupou altos cargos no governo sob os presidentes democratas Bill Clinton e Barack Obama, também disse que uma recessão nos EUA “agora parece mais provável do que improvável”, como consequências das políticas de Trump.
“Há argumentos a favor de tarifas limitadas com objetivos específicos, mas não para o tipo de política tarifária ampla que está sendo adotada agora”, disse Summers.
Miran afirmou que sua equipe já havia feito simulações para medir o impacto na economia caso as negociações tarifárias se arrastem. Ele rejeitou preocupações sobre possíveis danos de longo prazo, inclusive quanto ao papel do dólar como moeda de reserva global. “As histórias pessimistas vão acabar, como sempre”, disse ele.
Tudo o que ele [Peter Navarro] diz está sempre totalmente errado”
Após o anúncio das tarifas em 2 de abril, os investidores testaram a determinação de Trump, vendendo ativos dos EUA e derrubando o dólar, os preços dos títulos do Tesouro americano e as ações. Isso levantou o espectro do retorno dos “vigilantes de bônus” – investidores que punem políticas ruins tornando proibitivamente caro para o governo contrair empréstimos.
Trump cedeu, primeiro suspendendo as tarifas por 90 dias para dar tempo às negociações, e depois fazendo concessões adicionais. Ontem, Washington e Pequim concordaram em suspender temporariamente as tarifas elevadas sobre seus produtos. Com essa medida, a tarifa média geral dos EUA cai para 17,8%, a mais alta desde 1934, de 28% antes do acordo com a China.
Esse recuos de Trump ajudaram os mercados a recuperar a maior parte das perdas, mas o impacto da incerteza em torno das tarifas permanece. Uma medida essencial do risco embutido nos Treasuries, que captura o prêmio que os investidores cobram pela incerteza política, segue alta.
Alfonso Peccatiello, diretor de investimentos do fundo de hedge Palinuro Capital, diz que a incerteza com as políticas do governo Trump aumentou as chances de uma reação dos vigilantes de bônus. “Vejo os vigilantes de bônus como um grupo sério de investidores macroeconômicos que se rebelam contra decisões de política econômica – e eles não vão recuar enquanto essas políticas não forem corrigidas”, afirma ele.
Arthur Laffer, veterano conselheiro econômico de Trump, acredita que o presidente na verdade é a favor do livre comércio. Segundo ele, no primeiro mandato de Trump, os dois discutiram o uso de tarifas para forçar parceiros comerciais a permitir um comércio mais livre de bens e serviços. “Creio mesmo que esse é o objetivo dele”, afirma Laffer.
Mas o economista de 84 anos vê a jogada de Trump como de alto risco se o governo não firmar acordos comerciais em breve. “Os danos de longo prazo das restrições comerciais começam a acontecer muito rapidamente”, afirma ele.
Trump se queixava do que ele via como a desvantagem dos EUA no comércio mundial desde muito antes de entrar na política. Em uma carta aberta escrita em 1987 e publicada como anúncio de página inteira nos principais jornais americanos, ele acusou os aliados ricos dos EUA de se aproveitarem da proteção militar americana enquanto geravam superávits comerciais à custa dos EUA.
Após três décadas, quando chegou ao poder pela primeira vez, Trump não agiu imediatamente.
Wilbur Ross, ex-secretário do Comércio, disse que o governo precisou entender quais poderes o Executivo tinha na área de comércio, independentemente do Congresso. “Acabamos descobrindo que são muito amplos”, disse Ross.
Em seu segundo mandato, Trump tem outras vantagens, diz Ross. Elas incluem o controle sobre o Partido Republicano e das duas casas do Congresso.
Roubini diz que – em meio a um amplo espectro de opiniões sobre o comércio dentro do governo – Trump tem demonstrado que sua visão de mundo está mais alinhada à de radicais como Navarro, do que a moderados como o secretário do Tesouro Scott Bessent. “O presidente é tão protecionista quanto Navarro”, afirma Roubini. “Foi preciso uma reação muito forte do mercado para que eles recuassem.”
Em um ensaio no “Projeto 2025”, um conjunto de propostas conservadoras que foi publicado antes das eleições de 2024, Navarro descartou a ideia de que todos se beneficiam do livre comércio, classificando-a como uma “conclusão acadêmica de torre de marfim” que não reflete o mundo real.
Ele afirmou que o impulso protecionista de Trump foi prejudicado no primeiro mandato pela falta de apoio em seu Gabinete, com Jim Mattis, o então secretário de Defesa, resistindo às tarifas sobre o aço e o alumínio.
“Mattis e eu batemos de frente nessa questão e ele acabou cedendo, mas ele nos contrariou em cada etapa”, disse Navarro à Reuters. Mattis não quis ser entrevistado para esta reportagem.
As diferenças de opinião continuaram no segundo mandato. Navarro discutiu publicamente com o bilionário Elon Musk, um importante conselheiro de Trump, que o chamou de “idiota” por suas opiniões sobre as tarifas.
Às vezes os assessores divergem sobre aspectos fundamentais da teoria econômica do comércio e das tarifas. Stephen Moore, que atuou como assessor de campanha sobre a economia para Trump, mas não está no governo, rejeita o argumento de que o comércio global foi o principal responsável pela redução dos empregos no setor industrial nos EUA. Em vez disso, ele atribui essa redução, ao longo dos anos, a impostos, regulamentações e avanços tecnológicos.
“Digamos que isso não é economia de livre comércio convencional”, disse Moore. Ele observou que o esforço para repatriar empregos industriais pode ser equivocado: “Em cinco a dez anos, não vai haver mais empregos em fábricas. Todo esse trabalho será feito por robôs.”
Laffer diz que Navarro e o secretário do Comércio Howard Lutnick não entenderam os benefícios econômicos de ter um déficit comercial – que os dólares usados para pagar produtos estrangeiros são reinvestidos nos mercados de capitais dos EUA. “Construímos nosso país com déficits comerciais e infusões de capital.”
“Tudo que ele diz está sempre completamente errado”, afirma Laffer sobre Navarro.
Em resposta, Navarro citou a China, dizendo que o país recebeu investimentos estrangeiros mesmo enquanto mantinha superávits comerciais. E ele disse que as tarifas de Trump já atraíram promessas expressivas de investimentos.
“É irônico que o homem famoso por desenhar a curva ideal de impostos em um guardanapo” não compreenda a teoria da tarifa ideal, disse Navarro, referindo-se à “Curva de Laffer”, que propõe que a redução de alíquotas pode aumentar a arrecadação ao estimular o crescimento econômico.
Lutnick não respondeu a pedidos para comentários. (Tradução de Mário Zamarian)
Fonte: Valor Econômico

