A combinação recente de surpresas de baixa na inflação e na atividade econômica aumentou a probabilidade de o Banco Central iniciar um ciclo de cortes de juros já em dezembro, na visão do BTG Pactual. Ainda que o banco mantenha em seu cenário-base o início do afrouxamento monetário apenas no primeiro trimestre de 2026, a continuidade do viés desinflacionário e dos sinais de reancoragem das expectativas de inflação podem antecipar o movimento de redução na Selic e aumentam a chance de que os juros básicos retornem para a faixa de um dígito em 2027.
Em comentário enviado a clientes, a sócia e economista do BTG Iana Ferrão revela que a casa revisou para baixo as estimativas de IPCA para 2025 e 2026, o que elevou de forma significativa a chance de uma redução nos juros neste ano. Entre os motivos, ela cita surpresas baixistas de inflação e de atividade; a desaceleração dos núcleos, em especial de serviços intensivos em trabalho; o alívio das condições financeiras domésticas; a redução do risco de uma expansão mais expressiva do gasto público; e dados mais fracos de concessão de crédito consignado.
“Essa antecipação, contudo, dependerá da continuidade de surpresas desinflacionárias e de alguma reancoragem, ainda que parcial, das expectativas nos próximos meses”, pondera Ferrão.
Para a economista, em um ambiente de expectativas de inflação desancoradas, a projeção do BC na meta, por si só, não é suficiente para o início do ciclo de cortes. “Uma regra de reação eficiente deve atribuir maior peso às expectativas de médio prazo e aos núcleos mais sensíveis ao hiato [do produto, medida de ociosidade da economia], assegurando uma trajetória crível de convergência”, afirma a economista, ao justificar a manutenção do cenário-base de cortes apenas em 2026.
No entanto, para Ferrão, “se novas surpresas desinflacionárias vierem acompanhadas de alguma reancoragem parcial das expectativas, consideraremos satisfeitas as condições para a antecipação do início do ciclo em 2025”. Ela lembra, ainda, que as sucessivas revisões para baixo da inflação implicam elevação da taxa real de juros, tornando mais contracionista a política monetária vigente.
Assim, as projeções do BTG de Selic a 15% ao fim de 2025; de 12% ao término do ano que vem; e de 10,5% em dezembro de 2027; passaram a ter viés de baixa.
“Mantida a trajetória recente de queda dos núcleos, alguma reancoragem das expectativas e a melhora dos prêmios de risco e do câmbio — cenário hoje provável —, o juro real necessário à convergência tende a se aproximar do neutro, o que abriria espaço para Selic de um dígito em 2027; nesse caso, 9,5% torna-se plausível. Ressaltamos, contudo, que um cenário mais benigno para a política monetária exige clareza quanto ao compromisso do próximo governo em enfrentar o desequilíbrio fiscal estrutural”, conclui Ferrão.
Fonte: Valor Econômico
