Todo ano acontece a conferência da Berkshire Hathaway em Omaha, uma típica cidade de médio porte no coração dos Estados Unidos, no estado de Nebraska. Este ano, pela quarta vez, tive a oportunidade de estar lá e vou trazer aqui os principais insights e minhas percepções do evento.
Pode parecer exagero, mas o anúncio da aposentadoria de Buffett aos 94 anos, depois de 60 anos de serviços prestados à sua empresa, a Berkshire Hathaway, por incrível que pareça, de certa forma surpreendeu. Mas mais do que isso, emocionou a todos os presentes. Buffett foi ovacionado por um ginásio com cerca de 30 mil pessoas. Aplausos que duraram minutos e constrangeram o sempre humilde Oráculo. Sua representatividade transcendeu o universo dos investimentos, as fronteiras dos EUA e o fez ser uma persona, uma instituição que representa um mix de filosofia de vida, frugalidade, sabedoria e valores aos quais muitos se alinham. Mas vamos aos highlights:
Sucessão
Esse é um tema que nunca foi tabu na Berkshire e que vem sendo discutido e preparado há muitos anos. Buffett anunciou que recomendará Greg Abel como novo CEO da empresa no final do ano, uma decisão esperada desde que Abel foi nomeado sucessor em 2021. Buffett afirmou que continuará envolvido de forma consultiva, mas que as decisões operacionais e de alocação de capital ficarão totalmente a cargo de Abel. Apesar de se afastar da liderança, Buffett buscou ressaltar, por diversas vezes ao longo do evento, sua total confiança em Abel, ao declarar que não venderá uma única ação, chamando isso de uma decisão econômica baseada em sua crença de que o futuro da Berkshire será ainda mais promissor sob a liderança de Abel.
Guerra tarifária
Uma das frases mais emblemáticas da conferência este ano foi a que se refere ao tema “Trade should not be a weapon.” Buffett salientou que o equilíbrio no comércio beneficia o mundo e que déficits comerciais crescentes são prejudiciais. Ele comentou que, em 2003, trouxe a ideia de criar “Import Certificates” com o objetivo de equilibrar o déficit comercial. Explicando rapidamente: segundo ele, os exportadores receberiam esses Certificados de Importação equivalentes ao valor em dólares de suas exportações e poderiam vendê-los no mercado aberto. Já os importadores deveriam comprar esses certificados para cobrir o valor dos bens que importam. Segundo Buffett, as tarifas são uma tentativa de ajuste de um desequilíbrio que é ruim para os EUA. Ele não demonstrou concordância com as tarifas e ressaltou que acredita que sua ideia dos certificados é uma solução superior. Buffett destacou que a postura de disputa, de tentar sair “vencedor” contra outro país, é prejudicial, pois tende a gerar raiva e ressentimento. Ele acredita na ideia das vantagens competitivas entre os países, nas quais o comércio pode ser benéfico para ambos os lados.
Questão fiscal americana
Buffett comentou que a burocracia é um problema comum entre países e corporações. Segundo ele, os políticos são eleitos com promessas e compromissos com gastos e alocação do capital dos contribuintes. No entanto, os incentivos não estão bem alinhados: gastar dinheiro é fácil, enquanto cortar benefícios é uma tarefa árdua e há poucas consequências para quem não gerencia bem as contas. Ele admitiu que não gostaria de ter a responsabilidade de equilibrar receitas e despesas, mas enfatizou que é uma tarefa essencial, necessária e que pode até unir as pessoas (entenda-se os congressistas) em torno de uma pauta comum. Segundo ele, o grande risco aqui é o da destruição da moeda caso não haja responsabilidade fiscal.
Risco ao dólar: “never bet against America” e a volatilidade recente
Ligado ao que comentei acima, ele expressou preocupação com a política fiscal dos EUA, que, segundo ele, pode sim impactar o dólar, embora esse problema não seja exclusivo dos EUA, sendo enfrentado também por outras nações. Ele observou que os investidores estão pessimistas atualmente, mas a verdade é que a América sempre se renovou, sendo a mudança uma constante em sua história. Reconheceu que sempre há algo a criticar no país, mas afirmou que o dia mais feliz da sua vida foi quando nasceu nos EUA. Enfatizou que o país superou recessões, guerras, bombas atômicas e outros desafios, e que, se pudesse escolher, nasceria novamente na América. Ou seja, ele continua acreditando que você não deve apostar contra os EUA. Nesse sentido, ele relativizou as quedas recentes, dizendo que não representaram nada de significativo, lembrando que as ações da Berkshire Hathaway já caíram 50% em três ocasiões diferentes. Destacou que já passou por vários momentos como esse e que nada mudou fundamentalmente.
Investimentos da Berkshire
Uma grande questão no mercado se refere à elevada posição de caixa da companhia, que atingiu US$ 328 bilhões (todo ele alocado títulos de dívida americana – Treasuries), quase 30% do patrimônio da Berkshire, um percentual bem mais elevado que a média histórica. Buffett destacou que, em toda sua vida no mercado, as oportunidades não surgem diariamente, e que a Berkshire ganhou muito dinheiro mesmo sem estar totalmente investida o tempo todo.
Warren Buffett elogiou a Apple e seu CEO, Tim Cook, apesar de ter reduzido a participação da Berkshire na empresa ao longo do último ano. Exaltou a liderança de Cook, observando com bom humor que estava “um pouco envergonhado” por admitir que Cook havia gerado mais lucro para a Berkshire do que ele próprio.
Aposentadoria
Por fim, sempre com bom humor e carisma, após os longos aplausos da plateia pelo anúncio de sua aposentadoria, Buffett comentou que aquilo poderia ser interpretado de duas maneiras, mas que preferia achar que se tratava de uma homenagem a ele.
Todas as palmas do mundo ao Oráculo!
*William Castro Alves é estrategista-chefe da Avenue e um fã de Warren Buffett.
Fonte: Pipeline

