As chances de O Agente Secreto ganhar o Oscar estão baixas. Quem dá a má notícia é Luis Stuhlberger, o gestor do fundo Verde, que consulta o Polymarket para diferentes temas. Mas dá para contar com uma virada: em assuntos como esportes e entretenimento, a margem de erro é maior do que em temas relacionados à economia e política.
Por isso Stuhlberger acompanha como mais um indicador, e não apenas como curioso, à medida em que segue lendo inúmeros relatórios e dados internacionais e locais. Na plataforma de previsões e apostas, apesar de espiar o cinema, seu olhar está nas eleições de meio de mandato nos Estados Unidos. “Uma eventual perda do Senado por Donald Trump poderia alterar o cenário para mercados emergentes”, diz o gestor ao Pipeline.
O tema ficou ainda mais volátil com a eclosão da guerra ao Irã – ataques bem-sucedidos costumam render popularidade, mas não se isso representar aumento do preço da gasolina para o eleitorado. “Não sou especialista no assunto, mas todo mundo é. Saímos dos esportes de inverno para o Oriente Médio”, diz um bem-humorado Stuhlberger, lembrando que o ataque era esperado mas que a reação do Irã ao atacar os vizinhos foi surpreendente.
A guerra afetou o desempenho do Ibovespa na última semana, que vinha subindo fortemente com a entrada de capital estrangeiro. Na semana, a queda foi de 5%, ainda acumulando alta de 11,73% no ano e 45,4% em 12 meses. O EWZ caiu 6,3%, enquanto a retração do S&P500 foi de 1,7%. No sábado, o presidente do Irã afirmou que não pretende atacar outras nações e pediu desculpas aos vizinhos do Golfo.
Apesar da preocupação fiscal e cenário eleitoral no Brasil, para o estrangeiro pesa mais esse contexto global para definir alocação do que a situação interna do país. O gestor não vê ainda um ponto de inflexão. O capital estrangeiro pode animar alguns IPOs, mas o BC já sinalizou que os juros não vão cair tanto, pondera Stuhlberger.
Abaixo, comentários do gestor sobre diferentes temas:
A GUERRA
Fechar o Estreito de Ormuz por 90 dias, tirando minas, poderia levar a um petróleo entre US$ 100 e US$ 120. Seria um outro nível de estresse, de redução de PIB, juros mais altos, inflação mais baixa. É um cenário bem pior do que está hoje. A questão é que o mercado está colocando alguma probabilidade disso acontecer, eu diria que o que está nos de 20% a 30% [no início da semana].
Viriam uns meses muito ruins, mas depois um futuro possivelmente melhor. Se não fazem isso, existe sempre a chance de o regime continuar, de alguma forma, fazendo algum acordo com os Estados Unidos. Do tipo: ‘devolvemos todo o estoque de urânio, topamos que se destrua todas as instalações’. Ou seja, algum acordo meio estilo Venezuela. É um cenário onde eles [governo do Irã] se enfraquecem muito, mas não saem, porque a verdade é muito difícil tirar isso de lá.
É um cenário obviamente delicado de investimentos. Dito isto, o Brasil é um que se beneficia disso. O dinheiro flui para emerging markets, é aquele país longe da confusão, que recebe investimentos, um país exportador agrícola, com commodities, petróleo.
EFEITO NO DÓLAR
Estamos lidando com um tale risk maior. Este movimento é definitivamente muito ruim para a Europa, com aumento de preço e disrupção no fornecimento de gás natural. É um enfraquecimento econômico e inflacionário para a Europa. É muito ruim para o Japão, que é altamente dependente de petróleo. E é potencialmente ruim para a China, à medida que os EUA invadem os principais fornecedores de petróleo do país asiático. Pesa em bolsas e moedas.
Como contrapartida, isso é bull dollar. Essa história de que você acorda e pensa assim: quem é que manda no mundo? De um lado, é o king dollar. Ao mesmo tempo, no cenário que a gente vem vindo nos últimos meses, essa falta de conforto com investimentos nos Estados Unidos… Ninguém quer ser inimigo dele, mas quer diversificação. Acho que isso não muda. Se o petróleo subir mais, claro, é mais bull dollar ainda.
No curto prazo pode ter um “bounce back” no trade anti-dólar, mas no médio prazo esse assunto vai voltar.
IMPACTO NA POLÍTICA AMERICANA
A gente pode ter um outcome positivo no Brasil, mas o que seria um outcome negativo nos Estados Unidos, para esse cenário que é positivo para o emerging market? Seria o Trump perder o Senado porque isso teria consequências grandes lá nos Estados Unidos, do tipo entrar em um processo de discussão de impeachment e ele ficar um governo muito mais fraco. A Câmara ele vai perder quase com certeza, porque a popularidade dele está muito baixa. O Polymarket está dando 40% de probabilidade – muda bastante de acordo com o tempo, mas 40% não é pouca coisa, por ora.
Essa guerra pode afetar o mid-term. Geralmente, guerra, quando o país ganha, melhora a popularidade do governante. Mas se isso implicar para o americano um petróleo mais caro… Gasolina mais alta é a inflação na veia para o americano, que já é um dos pontos da baixa popularidade do Trump, é o affordability.
Ele escolheu fazer isso agora para tentar resolver rápido. No limite, se tira a teocracia iraniana e substitui por um outro governo, o petróleo cai muito. Isso para o Trump é muito bom.
Não acho que esse assunto do Irã é só por causa da popularidade. É porque também, de fato, o Irã é uma ameaça existencial para o mundo, na minha opinião. Então, é uma coisa boa que ele está fazendo para o mundo. Regra geral, os governos, principalmente os governos da Europa, são muito complacentes com essas ameaças que nascem e preferem manter um status quo do que enfrentar. O Trump não é assim.
BOLSA BRASILEIRA
Não acho que estamos num ponto de inflexão. O Banco Central está sendo muito diligente em dar um foward guidance. Se vai de 15% para 12%, significa que a inflação está em 3,5%, então ainda é juro real extremamente alto. A curva longa não está projetado quedas adicionais por causa de eleição.
Vai ter agora uma onda de IPOs e eventualmente os investidores acabam comprando o que vai ser ofertado porque tem toda essa indústria de distribuição. Em tese, essa ação vai ser igual ou mais cara o que você está vendo no mercado. Mas as histórias são contadas, acho que vai ter pessoa física entrando, vai ter fundo entrando, mas não acho que essa dinâmica vai mudar significativamente. Existe um fear of missing out mas hoje já há um número grande de gestores, principalmente de multimercado, dizendo que essa bolsa já não está barata.
A grande mudança do último rali é que, durante o ano passado, teve uma alta de bolsa que era um fechamento de equity risk premium em relação a NTN-B. Fechou em 31 de dezembro de 2024, com equity risk premium altíssimo, mais de 5% em cima da B. Você comprava ações de empresas ligadas ao setor de energia e utilities ganhando a NTN-B 2035 mais 5%, ou B40 mais 5%. É muita coisa. O nível médio desse equity risk premium nos últimos é entre 2% e 3%, então estava muito estressada no meio do ano passado. No fim do ano, começa a ficar num preço ‘ok’ no Brasil.
Mas o americano, o gringo que compra Brasil, não olha a NTN-B, ele olha o dólar mais prêmio. Ele olha o P/E em dólar e a bolsa estava negociando a um múltiplo de lucro baixo, porque é concentrada em commodities, que não se controla o preço, e financials, com esse juro alto… Para o mundo, nesse trade anti-dólar, nesse trade de HALO, P/E a 7x, 8x é muito barato, o que trouxe mais de R$ 40 bilhões em dois meses. Uma alocação microscópica para eles é gigante para Brasil.
Eu acho que ficou cara. Mas assim, não fico vendido. Não fico na frente desse trem de alocação para emerging markets, né? Mas diminui muito a minha posição comprada, há poucos dias [antes da guerra provocar queda de preços].
FLUXO ESTRANGEIRO E ELEIÇÕES
Enquanto a gente não tem aqui no Brasil nenhuma notícia muito ruim do ponto de vista fiscal – como aumentar Bolsa Família ou dar passagem grátis para todo mundo -, que possa mudar esse cenário, é 50-50 na eleição até o último minuto.
O estrangeiro tem uma visão do Brasil mais construtiva do Lula 4 do que os brasileiros. Ele raciocina: ‘já teve o Lula 1, já teve o Lula 2, o Lula 3, e o Lula 4 vai ser o quê? Muito pior que isso? Não.’ A gente não entrou com um populismo estilo Venezuela, Argentina. Tem aí ainda uma situação de fiscal, pelo menos no nível primário, relativamente equilibrada. É muito ruim da maneira como esse equilíbrio é feito, com uma despesa de 38,1% com uma arrecadação de 37,8%. É um nível insustentável para emerging market, mas que o mercado acha que isso depois dá para ser consertado. É um equilíbrio ruim, mas é um equilíbrio. Você não tem as contas fiscais desandadas aqui. Então, enquanto isso estiver mantido, o cenário bom [de entrada de capital] continua.
Você pode ter uma noção da binariedade pelo preço das opções. Está longe das eleições ainda, mas hoje pelo preço das opções para a bolsa, para o dólar e para o EWZ, é um binário mas não é explosivo. Se você está no dia da eleição, compra um call, compra um put de dólar, vai pagar tipo 8% em cada perna. Significa que se você comprar os dois ou vender os dois, você captura um prêmio de 16% ou paga 16% de seguro nos dois sentidos. Então, é como se o mercado dissesse que o dólar sobe 8% ou cai 8% no dia seguinte da eleição. Esse é o recado pelos preços de hoje. Na bolsa, é por volta de 8% também.
Na véspera, por exemplo, da eleição Dilma 2 e Aécio, uma eleição 50-50, binária, o Ibovespa estava a 50 mil. E aí, no dia da eleição, um call ou put de Ibovespa, custava 20% para cima ou para baixo.
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Fonte: Valor Econômico
