No embalo do melhor desempenho do Ibovespa em nove anos, ações de empresas dos setores de utilidades públicas (“utilities”) e financeiro exibiram as maiores valorizações da bolsa em 2025 e ajudaram a turbinar os ganhos de fundos de ações “long biased” (com viés mais comprado). Os de melhor desempenho, inclusive, superaram 50% de rentabilidade nos 12 meses encerrados em novembro, de acordo com levantamento do Valor.
Tanto nomes considerados consenso pelo mercado quanto companhias menos óbvias e de menor porte estiveram nas carteiras vencedoras. Entre elas, destacam-se BradescoCotação de Bradesco, BTG Pactual e EcoRodovias, além de algumas ações do setor de energia. Apesar da valorização expressiva em 2025 e da turbulência eleitoral esperada para este ano, a visão consensual é a de que empresas consolidadas, com maior resiliência em termos de receita, beneficiadas pela queda dos juros e menos dependentes da atividade econômica, ainda têm espaço para subir em 2026.
A partir dos dados do Guia de Fundos do Valor, que reúne produtos com pelo menos 36 meses de histórico, a reportagem analisou o desempenho dos fundos long biased nos 12 meses encerrados em novembro e selecionou aqueles com rentabilidade acima do ponto médio da categoria. Na liderança, o Patria Long Biased registrou retorno de 68,95%. Em seguida, aparece o Versa Long Biased, com ganho de 56,42%, enquanto o Ibiuna Long Biased ficou em terceiro lugar, com rentabilidade de 51,89%. No mesmo período, o Ibovespa avançou 26,58%.
O elo entre as três gestoras está, justamente, no setor de utilities. Responsável pelas estratégias de ações no Brasil do Patria, William Leite destaca a EcoRodovias como um papel relevante para o desempenho dos fundos no ano passado, por ter se tornado uma ação atrativa diante da previsibilidade de receitas e da baixa dependência do ritmo da atividade econômica.
“Foi um caso em que avaliamos positivamente o fato de a empresa ter alguma alavancagem porque, quando os juros caem, o custo de ‘funding’ [captação de recursos financeiros] diminui e esse efeito é capturado em um ‘upside’ [valorização] maior”, afirma Leite.
Enquanto vários fundos não focados em ações mantiveram uma exposição reduzida à renda variável ao longo do ano passado, o Patria identificou sinais macroeconômicos que o levaram a abandonar o pessimismo após a forte aversão a risco observada em dezembro de 2024. Segundo o gestor, o mercado demorou a reagir porque permaneceu excessivamente focado em um cenário doméstico ainda frágil, sem capturar a melhora do ambiente global.
Outro papel importante para os ganhos do Patria em 2025 foi a Cyrela, com valorização de 103% em 12 meses até novembro. Com maior exposição ao ciclo econômico, a construtora ainda assim surpreendeu positivamente nos resultados, impulsionados por vendas e lançamentos, o que explica a sua permanência no portfólio neste ano.
Cyrela foi um dos papéis que contribuíram para os ganhos do fundo da Ibiuna nos 12 meses encerrados em novembro, ao lado de nomes como BradescoCotação de Bradesco, Vivara, Multiplan, Cury e Direcional.
Assim como o Patria, a Ibiuna Investimentos optou por manter alguns dos papéis que ajudaram a elevar os retornos de seu fundo long biased, como ações mais defensivas. É o caso da Axia Energia (antiga Eletrobras). “Se o PIB do quarto trimestre for -0,1% ou +0,1%, isso não impacta em absolutamente nada na Axia. A companhia tem dinheiro em caixa e está fazendo tudo na direção do acionista”, observa o sócio e diretor de investimentos (CIO) em ações, André Lion.
Nomes como BradescoCotação de Bradesco, Vivara, Multiplan, Cyrela, Cury e Direcional também estão entre os papéis que contribuíram para os ganhos do fundo da Ibiuna nos últimos 12 meses até novembro. E, dessa lista, a gestora também continua a manter exposição ao BradescoCotação de Bradesco, além de apostar em uma valorização das units do BTG Pactual, ao avaliar papéis do setor financeiro.
De acordo com Lion, o BTG está com “valuation” (avaliação de valor) maior do que outros bancos, mas o elevado retorno sobre patrimônio líquido (ROE, uma medida da rentabilidade) faz o investimento valer a pena. Já no caso do BradescoCotação de Bradesco, a percepção é que o preço é muito atrativo, embora haja riscos no processo de reestruturação. “Vemos que existe um risco de execução do ‘turnaround’ do BradescoCotação de Bradesco, que é quase um transatlântico. O banco é uma empresa muito grande. Então, o processo de ‘turnaround’ é demorado. Mas, no relativo, o valor em que a ação está negociando vale a pena.”
Após alguns trimestres fracos, mudanças nos fundamentos microeconômicos do BradescoCotação de Bradesco também fizeram o Patria apostar no papel. “Em determinado momento, começamos a perceber que a administração estava implementando um plano de ação capaz de levar a uma melhora dos resultados em um prazo razoável, até metade do próximo ano”, destaca Leite. Incluída no portfólio no início do ano, a ação do banco avançou 69% em 12 meses até novembro.
Assim como ocorreu no ano passado, é possível que papéis de bancos continuem bastante voláteis em 2026, em razão das eleições. O setor ficou ao sabor do noticiário eleitoral por estar presente em muitas carteiras.
Lion, da Ibiuna, acredita que as eleições vão continuar a gerar turbulência no mercado local pelos próximos meses. “Diferentemente dos ciclos anteriores, a discussão veio antes do que seria razoável esperar, mas as informações ainda são muito volúveis. São pré-candidaturas”, enfatiza. “Estamos a meses das eleições. Tem muita água para passar debaixo da ponte. Já vimos facada, avião que caiu… Tem muitas variáveis em aberto, muitos acordos, alianças e discussões.”
Já no caso da Versa Asset, a Moura Dubeux figurou na lista das ações que ajudaram a impulsionar a rentabilidade dos fundos da casa. Outros nomes, como EcoRodovias e Vulcabras, também chegaram a gerar bons resultados para a gestora, que, contudo, retirou a operadora de rodovias da carteira.
O gestor Luiz Fernando Alves conta que a alta de 152% das ações da Moura Dubeux em 12 meses até novembro provocou um aumento na participação da empresa no portfólio da Versa, e a gestora optou por não reduzir a alocação justamente por acreditar que ainda há espaço para valorização. “A companhia aumentou os lançamentos e as vendas estão mais resilientes. A empresa começou a expandir para a baixa renda, além da média e alta. A Moura Dubeux conseguiu mostrar que a alta dos juros não foi prejudicial para ela”, observa.
Alves revela, ainda, que a maior posição da Versa, no momento, está em Hypera, uma alocação que foi aberta após o balanço do terceiro trimestre do ano passado. O gestor destaca que a companhia apresentou uma recuperação das vendas de genéricos e de produtos de higiene pessoal, perfumaria e cosméticos. “As vendas como um todo voltaram a acelerar e temos um viés otimista com os medicamentos semelhantes e genéricos de semaglutida [princípio ativo do Ozempic]”, acrescenta.
Fonte: Valor Econômico
