Apesar da paralisação (“shutdown”) parcial do governo dos Estados Unidos, que vem deixando investidores no escuro quanto a dados importantes sobre a economia americana, o consenso entre os participantes do mercado é que o Federal Reserve (Fed) seguirá com os cortes de juros nesta quarta-feira. O foco dos agentes financeiros estará no fim do processo de redução do balanço, conhecido como aperto quantitativo (QT, ma sigla em inglês), bem como na sinalização do banco central em relação à reunião de dezembro e seus próximos passos no ano que vem.
O Fed retomou o ciclo de afrouxamento monetário em sua última reunião, em setembro, com uma redução de 0,25 ponto percentual, para a faixa entre 4% e 4,25%, marcando o primeiro corte de juros de 2025. Diante da fraqueza nos dados do mercado de trabalho, os dirigentes deixaram de lado o discurso de cautela com os riscos no cenário econômico para dar suporte ao mandato de emprego do banco central.
A paralisação do governo tem privado investidores e dirigentes do Fed de dados importantes, como o relatório de empregos (“payroll”). Ainda assim, a expectativa de consenso do mercado segue em mais dois cortes de juros de igual magnitude até o fim do ano. Segundo o CME Group, que compila dados a partir dos futuros dos Fed funds, operadores veem 97,3% de probabilidade de uma redução de juros em outubro e 95,5% de chance de outro corte em dezembro.
Na visão do Bank of America (BofA), o presidente do Fed, Jerome Powell, deve novamente reiterar o foco do banco central nos riscos negativos ao mandato de emprego, justificando o corte de juros diante da ausência de dados causada pela paralisação do governo. “Ele deve oferecer pouco ‘guidance’ e adotar uma postura dependente de dados para a reunião de dezembro”, afirmam Mark Cabana, Aditya Bhave, Alex Cohen e Meghan Swiber, em relatório.
“A mensagem do Fed não deve mudar significativamente: embora a inflação continue elevada, os formuladores de política estão um pouco mais focados nos riscos de queda do emprego”, dizem os economistas. As únicas mudanças que eles veem que poderiam acontecer seriam caso o Fed reconheça a força da atividade econômica recente ou o comunicado mencione a falta de dados por conta do “shutdown”. O balanço de riscos deve ficar inalterado na reunião.
O estrategista sênior da Peppestone, Michael Brown, afirma que o texto da declaração de política monetária do Fed provavelmente será muito mais direto e refletirá, em grande parte, a falta de divulgação de dados econômicos. Com isso, o banco central deve descrever novamente o crescimento como tendo se “moderado” no primeiro semestre, com a criação de empregos tendo “desacelerado” e a taxa de desemprego “permanecido baixa”.
Brown destaca, no entanto, ser improvável que a votação seja unânime. “O novo diretor ‘superdovish’ e fantoche do presidente [dos EUA Donald] Trump, Stephen Miran, quase certamente discordará em favor de um corte de pelo menos 0,5 ponto percentual”, disse, na medida em que o “ponto” de Miran no gráfico e pontos de setembro prevê um afrouxamento adicional de 1,25 ponto percentual antes do final do ano. O restante do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc) “quase certamente votará a favor de uma medida mais modesta e sensata”, diz.
Para o BofA, embora a inflação continue elevada, os dirigentes estão mais focados nos riscos para o emprego nos EUA
Os economistas do BofA escrevem, ainda, que há risco de uma dissidência mais “hawkish” (menos propensa a cortes de juros), após alguns dirigentes do banco central terem adotado uma postura mais cautelosa em discursos recentes. Na última reunião, o Sumário de Projeções Econômicas (SEP), que reúne as projeções dos membros do comitê de política monetária, indicava que seis dirigentes previam apenas uma diminuição das taxas em 2025 – a que ocorreu na reunião de setembro.
Com a paralisação do governo limitando a divulgação de dados econômicos e um comitê ainda bastante dividido, é improvável que Powell forneça sinais claros sobre o caminho político a seguir, dizem economistas do Deutsche Bank, liderados por Matthew Luzzetti. Em vez disso, a reunião deve se concentrar em outros tópicos, incluindo a política do balanço, a próxima etapa da revisão do arcabouço de políticas e considerações sobre estabilidade financeira.
Assim, a conclusão do processo de aperto quantitativo estará no centro das atenções. Em comentários recentes, Powell observou que esse processo pode terminar “nos próximos meses”, uma indicação que foi interpretada por muitos como um sinal de que o “QT” será encerrado até o fim deste ano.
“Claramente, o Fomc está se aproximando do ponto em que o ‘QT’ foi levado ao limite, não apenas com o balanço se aproximando do nível de 20% do Produto Interno Bruto (PIB), frequentemente considerado um cenário ‘neutro’, mas também em meio a sinais crescentes de aperto nos mercados monetários dos Estados Unidos e à falta de ‘margem de manobra’ para os formuladores de políticas, com o uso da linha de recompra direta do Fed de Nova York tendo caído para praticamente zero” diz Brown, da Peppestone.
Ele afirma que as discussões sobre o fim do “QT” devem começar na reunião de outubro, antes de uma decisão formal e um anúncio para encerrar o processo serem feitos no final do ano, embora os riscos claramente tendam a que essa decisão aconteça mais cedo, se as condições do mercado monetário se apertarem muito mais.
O cenário base do Deutsche Bank é que o fim do “QT” seja anunciado esta semana, com o fim da redução do balanço no próximo mês, um cronograma antecipado em resposta à evidência contínua de aperto nos mercados de financiamento e a uma tendência de alta na taxa de juros. “Acreditamos que o comitê considerará a flexibilidade e a capacidade de resposta à evolução das condições de mercado como primordiais”, diz a equipe do banco alemão.
Fonte: Valor Econômico


