As transações continuam, mas em menor escala e com aportes e tíquetes reduzidos
— Para o Valor, de São Paulo
Após intensa movimentação de fusões e aquisições até 2021, o setor de saúde vem desacelerando a consolidação de um mercado ainda fragmentado. As transações continuam acontecendo, mas em menor escala e com aportes e tíquetes reduzidos. A última grande operação, a aquisição da operadora de planos de saúde Amil por R$ 11 bilhões, foi feita em dezembro de 2023 pelo empresário José Seripieri Filho, fundador da Qualicorp, conhecido como Júnior. De lá para cá, os negócios são de volumes financeiros menores.
As consultorias divergem, mas quase todas indicam uma redução de transações em 2023 e 2024, bem como uma retomada prevista para 2025 devido ao potencial apresentado pelo segmento. Segundo Deloitte, PwC, Fortezza Partners e XP, o ano de 2023 teve menos transações por conta do elevado custo de capital no contexto econômico de juros elevados e dado o alto endividamento das grandes empresas que entraram no páreo da consolidação.
Conforme levantamento da Deloitte, com base nos dados da TTR (Transactional Track Record), que considera os segmentos de indústria e serviços em assistência médica (healthcare), farmacêutico, higiene, estética e cosméticos, foram 139 transações em 2023, volume 32% menor do que no ano anterior. Já na parcial de janeiro a março deste ano, foram oito negócios realizados, sendo que cinco ainda estão em andamento. O pico do setor se deu em 2021, com 246 negociações. Em 2022, foram 204.
“Não vejo um ano de retomada de grandes fusões e aquisições no setor. Por outro lado, têm algumas áreas que começaram a ganhar força, como medicina reprodutiva, aumentando as operações. As clínicas de fertilização in vitro têm crescido”, afirma Luís Joaquim, sócio-líder de life sciences e health care da Deloitte. O executivo explica que as grandes aquisições que ocorreram até 2021 precisam de tempo de maturação e que grandes players como Rede D’Or, Hapvida, Dasa e Grupo Fleury precisam organizar seus custos financeiros.
Outro ponto de atenção é a sinistralidade dos planos de saúde, que atingiu 87%. “Este é um problema que pressiona as margens de pagamentos das empresas. Teve também a demanda reprimida da pandemia que ocasionou um acréscimo no número dos serviços. O número de autismo, por exemplo, teve aumento de 317% de 2000 para cá e acelerou muito a partir de 2020”, conta Joaquim.
Este ano as principais operações foram as da Blue Health Holding, adquirindo a Servilogi Health, em janeiro, com valor de transação não divulgado. A Oncomed anunciou também em janeiro a participação majoritária na Clínica de Neoplasias Litoral. A Genial Care recebeu aporte de US$ 7,1 milhões da General Catalyst Partners e de investidores privados, incluindo Mauro Figueiredo, ex-CEO do Fleury, e João Alceu Amoroso Lima, ex-CEO da Qualicorp. Além disso, o Sou Odonto recebeu aporte de capital de Paulo Batista, ex-CEO da Dental Cremer, em troca de uma participação na companhia. O valor da transação não foi divulgado. “Teve também a Raia Drogasil que adquiriu a 4 Bio, distribuidora de medicamentos. Não são grandes estratégias de consolidação como no passado”, diz o sócio da PwC Brasil, Leonardo Dell’Oso.
Para o analista de research da XP, Rafael Barros, apesar de haver bastante espaço para consolidação, em 2024 as aquisições serão mais pontuais. “Não acredito em um movimento acelerado como em 2020 e em 2021. Em 2025, aí sim, pode ser mais generalizado, porém, menos acelerado do que no passado”, afirma Barros.
Para os especialistas, dentre as grandes aquisições do passado, o Grupo Fleury foi quem manteve a saúde financeira mais estável e com menos alavancagem. Apesar das 17 aquisições feitas nos últimos cinco anos – sendo a maior a do Grupo Hermes Pardini em 2023 – que a tornaram uma empresa com receita bruta superior a R$ 7 bilhões, seu endividamento está em 1,2 vez a dívida líquida versus o Ebtida.
“Nosso nível de alavancagem está adequado para o momento de juros alto. Além disso, demos lucro de R$ 467 milhões em 2023, um crescimento de 51,7%, quando tiramos as despesas da combinação de negócios”, observa Jeane Tsutsui, presidente do Grupo Fleury. A executiva não descarta novas aquisições, mas salienta que os ativos precisam estar em valores corretos e não superestimados.
Na visão de Harold Takahashi, sócio da Fortezza Partners, compradores como Fleury, Rede D’Or e Hapvida, estarão, de fato, mais seletivos e menos dispostos a pagar caro pelas aquisições. Mais recente Próxima Cursos priorizam formação em novas tecnologias
Fonte: Valor Econômico