O último ano se destacou como período de volatilidade e tendências baixistas para o câmbio, tornando o dólar mais fraco globalmente. Para 2026, a expectativa é que parte dos fatores que geraram esse movimento em 2025 se repitam, e a ele se somem novos acontecimentos, como a queda das tarifas adotadas pelo governo de Donald Trump, e posteriormente as eleições no Brasil, que podem reverter a relação entre real e dólar. A previsão é de um movimento ainda baixista, a princípio, caso a tensão dos Estados Unidos com o Irã não escale.
Desde 2025, especialmente após o “Dia da Libertação”, em abril, quando Trump anunciou as tarifas de importação, o dólar apresentou um viés mais baixista no cenário global. “Esse movimento reflete uma combinação de fatores: a percepção do fim do ciclo de alta de juros nos Estados Unidos, sinais de desaceleração econômica e ajustes técnicos após um período prolongado de valorização da moeda americana”, comenta Ricardo Trevisan, CEO da Gravus Capital.
Essa reprecificação do dólar foi fortemente influenciada por esse ajuste nas expectativas de juros dos EUA, mas a rotação global de capital e a incerteza envolvendo a política comercial de Trump foram outros fortes impulsionadores, lembra Marcus Novais, sócio fundador da Private Investimentos. “Em relação às moedas emergentes, o real foi uma das mais beneficiadas com esse contexto. E ele se fortaleceu principalmente por um diferencial de juros ainda muito elevado em relação aos Estados Unidos, que beneficia muito a retomada do fluxo estrangeiro para renda fixa e bolsa aqui”, diz. Fato é que, neste contexto, o ambiente doméstico ficou em segundo plano como fator de volatilidade.
Agora, o cenário ganha um novo capítulo, à medida que o mercado digere incertezas sobre a relação entre o Federal Reserve (Fed), banco central dos EUA, e o governo Trump, novos conflitos geopolíticos e novidades sobre a política tarifária norte-americana. Na última sexta-feira (20), a Suprema Corte dos EUA derrubou o tarifaço imposto pelo Republicano, com exceção das tarifas setoriais, alegando que Trump extrapolou sua autoridade com as medidas. Apesar da derrubada, agora, a ameaça se refere a uma nova tarifa global temporária (por até 150 dias), a princípio, de 10%, que passou a valer nesta terça (24). Nesta quarta-feira, o dólar encerrou o dia com queda de 0,55%, negociado a R$ 5,12.
“Hoje, o sentimento é de que até os pares do Trump não acreditam que isso vai perpetuar, [ele] vai ter que abrir mão dessas tarifas em algum momento. Ele mantém a balança comercial americana positiva ou menos negativa, fazendo com que os produtos americanos continuem atrativos como estavam quando tinham as tarifas”, comenta Alexandre Viotto, chefe de banking da EQI Investimentos. “A medida mais simples é desvalorizar a moeda local. Então, a tendência é que a queda dessas tarifas ajude a deixar o dólar ainda mais desvalorizado frente às outras moedas. E isso deve seguir nos próximos meses.”
Segundo o especialista da EQI, essa tendência de desvalorização do dólar, gerada pelo próprio governo dos EUA, deixa o real mais forte, portanto, “não é sonhar demais pensar em dólar abaixo de R$ 5”. “Acho que isso já está até no preço. Podemos pensar nisso até o final do mês de março. Provavelmente até abaixo, na minha opinião. Porque a eleição não vai estar pegando ainda, o cenário está bem pró-Brasil”, diz.
Para Viotto, pelo menos até abril, enquanto a eleição não começa a afetar o mercado, essa tendência baixista deve permanecer. O único porém se refere ao possível conflito entre EUA e Irã. Trump afirmou que atacaria o país durante o final de semana, o que não aconteceu, mas o temor sobre o conflito ainda paira. Na última semana, diante desses rumores, o dólar, que seguia em queda, teve um leve repique e ganhou alguma força, chegando ao patamar de R$ 5,25. O especialista da EQI acredita que, ao não se confirmar o conflito, hipótese mais provável, o cenário-base seja, até abril, o dólar até abaixo de R$ 5.
Na visão de Lucca Bezzon, analista de Inteligência de Mercado da StoneX, essa queda das tarifas, mesmo com a tarifa global, é positiva para o Brasil. “A gente ainda tinha, em alguns produtos, as tarifas de 50% [10% mais 40%]. Então, para a gente é positivo, e deve ter algum tipo de aumento incremental nas receitas de exportação que traz as divisas para o Brasil, e isso é positivo para o real. Mas o principal ponto que pode impactar o real é o que está acontecendo agora, os movimentos globais de desvalorização do dólar, mais do que realmente os impactos das próprias tarifas”, diz.
Em sua análise, do ponto de vista das tarifas, a tendência é baixista para o dólar e tende a fortalecer o real. Já em relação ao Irã, o analista menciona que o cenário está um pouco menos claro. Segundo ele, diante do aumento das tensões, um dos cenários seria o real ser prejudicado com possível intensificação das tensões geopolíticas e um aumento da aversão ao risco. Em um cenário de guerra mais prolongada, em que esse conflito transborde para outros ativos, pode ser que ativos arriscados como ações, commodities e moedas de países emergentes sejam impactados. “No entanto, e até surpreendentemente, nos dizem que a gente teve mais notícias sobre o conflito e que as tensões aumentaram mais, mas o real se favoreceu dessa dinâmica, principalmente via aumento dos preços de petróleo”, pondera Bezzon.
Para Novais, se as tarifas forem mantidas no nível atual, possivelmente deve haver volatilidade, mas ainda com viés muito favorável para o real caso o diferencial de juros permaneça elevado. “Se houver uma intensificação ou então retaliação global, aumenta a versão de risco. E nesse cenário, o real pode sofrer no curto prazo, porque os emergentes costumam ser muito penalizados em momentos de estresse”, opina.
Fonte: Capital Aberto
