O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, se reunirá com seu Gabinete na Casa Branca nesta quarta-feira em um momento delicado para as negociações com o Irã. O encontro ocorre dias depois de o republicano insistir que havia “praticamente negociado” um acordo com Teerã, embora as conversas ainda permaneçam em situação incerteza e os dois lados descartem um pacto iminente.
A reunião ocorrerá após o Irã ter acusado os EUA de violarem o cessar-fogo em vigor em 8 de abril e ameaçado retaliar os ataques lançados pelos americanos contra bases de mísseis no sul iraniano e contra embarcações que estariam lançando minas no Estreito de Ormuz, ainda fechado enquanto as partes negociam uma solução para o conflito, que completa três meses amanhã.
Enquanto se prepara para se reunir com seus principais auxiliares, Trump tem demonstrado confiança de que está perto de fechar um acordo que reabrirá Ormuz e lhe dará um argumento plausível de que a capacidade nuclear do Irã foi suficientemente reduzida para declarar vitória, encerrando um conflito quer tem sido politicamente impopular para o governo e para os republicanos.
No entanto, o acordo em discussão adia muitas questões críticas para serem resolvidas posteriormente e já expôs Trump a fortes críticas – inclusive de alguns de seus apoiadores – de que líderes linha-dura do Irã saíram do conflito abalados, mas fortalecidos.
As pressões sobre Trump se intensificam à medida que as eleições de meio de mandato para o Congresso, em novembro, entram no radar, com republicanos temendo que o aumento dos custos de vida e dos preços dos combustíveis, em razão da guerra, esteja piorando o humor dos americanos.
As negociações ficaram ainda mais complicadas depois que forças dos Estados Unidos realizaram o que o Pentágono chamou de ataques em “legítima defesa” contra plataformas de lançamento de mísseis e embarcações usadas para instalação de minas no sul do Irã. Os EUA disseram ter agido com “moderação” diante do cessar-fogo que já dura semanas, enquanto o Irã denunciou a ação como sinal de “má-fé e falta de confiabilidade”.
O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, disse na terça-feira que as negociações com o Irã sobre a reabertura do estreito e a extensão do cessar-fogo — período que, segundo o governo americano, poderá ser usado para acertar os detalhes mais delicados de um acordo nuclear — levarão mais alguns dias.
“Ele vai fazer um bom acordo ou nenhum acordo”, disse ele a jornalistas após uma viagem à Índia. “[O Estreito de Ormuz] será aberto de um jeito ou de outro”.
Trump, por sua vez, recorreu às redes sociais na terça-feira para reclamar que, mesmo que Teerã oferecesse uma rendição completa, a mídia retrataria o fim do conflito como uma “vitória magistral e brilhante” do Irã. E embora venha expressando otimismo em relação ao acordo, o presidente americano continua ameaçando retomar os ataques em suas manifestações públicas sobre o tema.
Além da reabertura de Ormuz, o presidente americano diz que seu principal objetivo na guerra é impedir que Teerã desenvolva uma arma nuclear com seu urânio altamente enriquecido. O governo iraniano nega essa intenção, mas também resiste a entregar o material, que se acredita ter sido soterrado após uma série de bombardeios americanos no ano passado.
Teerã possui cerca de 440 quilos de urânio enriquecido a até 60% de pureza, um curto passo técnico do nível de 90% necessário para armas nucleares, segundo a Agência Internacional de Energia Atômica. O país ainda não se comprometeu publicamente a abrir mão desse material.
Trump afirmou na segunda-feira, em uma publicação na Truth Social, que o urânio — que se acredita estar enterrado sob instalações nucleares atingidas por ataques aéreos dos EUA no ano passado — seria entregue aos Estados Unidos ou “destruído no local ou em outro local aceitável, com a Comissão de Energia Atômica, ou equivalente, testemunhando esse processo e evento”. O comentário sinaliza uma suavização da posição anterior de que os EUA deveriam assumir o controle do estoque de urânio iraniano.
Por sua vez, o Irã continua permitindo a passagem limitada de embarcações pelo estreito, priorizando navios ligados a países com os quais mantém relações próximas. Ontem, Teerã informou que 25 navios haviam cruzado a rota nas últimas 24 horas. Antes da guerra, cerca de 140 embarcações passavam diariamente pelo local.
No entanto, num lembrete dos riscos da navegação no estreito, a associação britânica de armadores UKMTO informou ontem à noite que o petroleiro Olympic Life, pertencente a uma empresa grega, relatou uma explosão externa no lado de bombordo, próximo à linha d’água, a 60 milhas náuticas de Mascate, capital de Omã.
Segundo a entidade, o navio, que não transportava carga, e sua tripulação estavam seguros, embora parte do combustível tenha vazado no mar. A causa do incidente ainda é desconhecida.
Do lado iraniano, os negociadores pressionam pelo descongelamento de pelo menos US$ 24 bilhões em ativos do país. Autoridades dos dois lados afirmam que as negociações indiretas recentes avançaram na elaboração de um memorando de entendimento — um acordo inicial que abriria caminho para tratativas mais amplas ao longo de 60 dias.
O Irã também exige o fim do conflito no Líbano, onde o cessar-fogo firmado em meados de abril não conseguiu interromper os confrontos entre Israel e o Hezbollah, grupo apoiado por Teerã. Israel também iniciou uma nova ofensiva no Líbano que pode complicar as negociações.
Em um sinal positivo, o Catar se envolveu mais na mediação, papel que até então tinha sido liderado pelo Paquistão. Mohammad Bagher Ghalibaf, o principal negociador do Irã, retornou ontem do Catar após negociações sobre a liberação dos recursos congelados, informou a mídia estatal do Irã, citando uma fonte segundo a qual o desbloqueio desses ativos seria o último grande obstáculo para um acordo inicial com os EUA.
Outra questão-chave ainda sem solução é se o cessar-fogo também abrangerá as operações de Israel contra o Hezbollah, grupo militante apoiado pelo Irã no Líbano. O Irã insiste que o Líbano deve ser incluído em qualquer acordo de cessar-fogo negociado com os Estados Unidos
O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, afirmou em comunicado nesta terça-feira que Israel está “aprofundando suas operações no Líbano”, dizendo que os militares “estão operando com grandes forças em campo”.
A Casa Branca parece deixar certa margem de manobra na questão libanesa. O memorando de entendimento em elaboração prevê um cessar-fogo entre os EUA e seus aliados contra o Irã e seus grupos aliados, como o Hezbollah, mas também ressalta o direito de Israel de agir diante de ameaças iminentes e em legítima defesa.
Trump também utilizou a crise para pedir que mais países árabes e muçulmanos, incluindo a Arábia Saudita, adiram aos Acordos de Abraão, negociados durante seu primeiro mandato e destinados a normalizar as relações entre esses países e Israel.
A posição histórica da Arábia Saudita é que não assinará os acordos sem que haja um entendimento sobre um caminho para a criação de um Estado palestino.
Milhares de pessoas morreram no conflito mais amplo, principalmente no Líbano e no Irã. Dentro do Irã, o grupo de monitoramento da internet Netblocks relatou uma restauração parcial da conectividade após um apagão de quase 90 dias.
Fonte: Valor Econômico


