No momento em que a conjuntura macroeconômica local parece menos favorável à tomada de risco e em que os investidores estrangeiros continuam a sacar recursos da B3, a avaliação da Vinland Capital é de que a valorização da bolsa brasileira irá depender de pequenos gatilhos até a chegada das eleições.
Isso, inclusive, foi o que ocorreu nos últimos dias, em que números do IPCA abaixo do esperado pelos mercados e uma deflação surpreendente nos Estados Unidos abriram espaço para uma alta das ações domésticas.
“Não consigo fazer uma aposta estrutural comprada em bolsa neste momento”, diz Rodrigo Andrade, sócio e gestor de ações da Vinland. “O jeito que pensamos é mais tático. Dada a incerteza, fica muito difícil montar posições estruturais em bolsa local. O vaivém de notícias gera muita volatilidade e temos tentado ‘surfar’ os dados”, afirma.
Andrade conta que a casa chegou a aumentar as operações em “pares”, ou seja, quando a gestora aposta ao mesmo tempo na alta de um ativo cíclico doméstico (“long”/comprado) e na queda de outro (“short”/vendido). A movimentação ocorreu após a divulgação de um IPCA abaixo do esperado na sexta-feira passada, 10 de julho, com o objetivo de se proteger, sem deixar de aproveitar oportunidades.
Ainda assim, o executivo diz que está com uma visão cautelosa para ações cíclicas domésticas, que costumam ser mais sensíveis a juros, em virtude do cenário macroeconômico. “A conjuntura com uma eleição à frente, um juro real muito acima do nível visto historicamente, além de um governo que está com dificuldade de se financiar, é mais difícil. As incentivadas [na renda fixa] também estão ganhando um espaço muito relevante”, pondera.
Embora os investidores estrangeiros tenham voltado a apresentar um saldo positivo em ações já listadas na B3 nos últimos dias, Andrade afirma que os sinais de retorno do alocador não residente ainda são pouco expressivos. “A dinâmica do [investidor] estrangeiro ainda é de saída. Nesta semana, um fundo de fora zerou o ‘short’ em Brasil, mas isso é um grão em relação ao todo. A saída [de estrangeiros] ainda é grande recentemente”, avalia.
O gestor explica que a variável mais acompanhada pelo investidor estrangeiro é o ciclo de corte de juros e que, neste momento, o debate é sobre quantos pontos-base serão cortados e não sobre o tamanho que terá o ciclo de cortes, o que dificulta a atração de recursos para cá, em um momento em que o Brasil se mostra como um “mercado anti-AI” (sem a presença de ações mais ligadas à inteligência artificial).
“O tema da IA suga o dinheiro do mundo e o Brasil tem perdido relevância diariamente. O gringo olha o ciclo de corte de juros e não temos mais um ciclo grande”, afirma Andrade.
Fonte: Valor Econômico
