Ainda que o mercado espere um aumento da volatilidade devido à eleição presidencial, o que pode reduzir o nível de atratividade do real, a Selic ainda bastante elevada deve manter em vigor apostas favoráveis à moeda brasileira, ao menos na primeira metade do ano. Essa é a avaliação predominante entre investidores estrangeiros ouvidos pelo Valor sobre as perspectivas para o câmbio doméstico.
Em 2025, o investidor não residente teve papel fundamental para a apreciação do real. Números da B3Cotação de B3 mostram que, enquanto no começo do ano passado a aposta do estrangeiro contra a moeda brasileira estava em torno de US$ 70 bilhões, no fim do período essa posição rondava os US$ 55 bilhões. O desmonte de posições vendidas em real chegou a ser mais intenso ao longo do ano e alcançou US$ 35 bilhões no começo de abril. Os dados englobam os mercados de dólar futuro, dólar mini, swap cambial e cupom cambial (DDI).
É exatamente por causa do papel significativo que o não residente teve no movimento do câmbio no ano passado que o Valor conversou com 15 importantes gestoras de investimentos e bancos estrangeiros nas últimas semanas. Ainda que haja discordâncias, a visão predominante é a de que deve se manter relevante a estratégia de “carry trade”, de tomar recursos em um país com juros mais baixos e aplicar o capital em outra economia com taxas mais altas.
Com a Selic parada em 15% e expectativas crescentes de que uma flexibilização monetária aconteça somente no fim do primeiro trimestre, o real está bem posicionado no ranking de moedas, quando se observa o “carry” ajustado pela volatilidade, e perde somente para a lira turca e a rupia indiana, observa o Morgan Stanley.
“É evidente que esperamos que a volatilidade do real comece a aumentar neste ano, embora, para que o real caia significativamente no ranking, o pico de volatilidade teria de ser muito acentuado e provavelmente associado a fortes preocupações com a trajetória fiscal do Brasil daqui para frente”, diz a estrategista-chefe para América Latina do Morgan Stanley, Ioana Zamfir. Para ela, outro motivo que reforça a visão de que o real tende a se manter atrativo é o tom cauteloso do Banco Central em seu ciclo de corte de juros neste ano.
Com US$ 558 bilhões sob gestão, a Neuberger Berman lembra que o real exibiu uma depreciação acentuada no fim de 2024 e, por isso, teve um ponto de partida muito favorável no início do ano passado. Ainda que não acredite que o real vá repetir o desempenho de 2025 neste ano, Gorky Urquieta, gestor sênior e co-diretor de mercados emergentes da gestora americana, segue otimista com a divisa brasileira. “Há 12 meses, o real sofria uma desvalorização muito, muito significativa. Depois, o Banco Central elevou os juros até 15%. Esse ponto de partida foi muito atrativo”, observa.
O executivo avalia que o real permanece barato e tem como suporte os juros elevados. Além disso, a corrida eleitoral deste ano tampouco é um fator negativo para a perspectiva da moeda, em sua opinião.
“Do ponto de vista do mercado, o pior cenário possível seria a reeleição do presidente Lula, certo? Significa que não teríamos um presidente reformista de centro-direita, alguém como o governador [de São Paulo] Tarcisio [de Freitas] ou alguém nessa linha, que seria muito bom para o mercado”, diz. “Mas Lula é uma figura muito conhecida. Sabemos o que esperar de uma reeleição de Lula. Se esse for, digamos, o ‘pior cenário’, talvez até exista uma oportunidade, porque as coisas podem melhorar no Brasil. Não é um cenário de desastre.”
O gestor de mercados emergentes Thiago Carlos, da Pimco, também acredita em uma volatilidade mais contida no câmbio. Ele lembra que, em anos eleitorais no Brasil, os episódios de maior instabilidade nos mercados costumam se concentrar nos meses de março e abril, quando os candidatos e as coligações são definidos. Ele, porém, observa que o estresse tende a ser passageiro. “Isso se dissipa rapidamente. E, mais próximo de outubro, a volatilidade tende a refletir as percepções do mercado sobre diferentes resultados eleitorais, em vez de um movimento direcional [de depreciação contínua]”, diz.
Na visão da Pimco, o elevado diferencial de juros, a convergência da inflação à meta no Brasil e a inflação americana ainda perto de 3% são fatores que devem fazer com que os picos de volatilidade sejam de curta duração. “Esses fatores estruturais devem ajudar a conter a volatilidade mais rapidamente, preservando a atratividade do real”, avalia Carlos.
Para o economista-chefe do Rabobank Brasil, Mauricio Une, quando houver um nome vencedor da eleição presidencial, os agentes devem tentar absorver melhor o resultado. “O mercado sempre procura uma narrativa para seguir em frente. Neste ano não vai ser diferente, com a discussão voltando a ser sobre como deixar a evolução da dívida pública mais sustentável”, aponta.
A seara fiscal, em particular, tem sido o principal ponto de preocupação dos agentes de mercado, e a preocupação dos investidores com a sustentabilidade da dívida pública pode voltar a orientar de forma mais clara a dinâmica do câmbio ao longo deste ano. É nesse sentido que o chefe de estratégia soberana de mercados emergentes do Standard Chartered, Gordian Kemen, vê riscos de enfraquecimento no interesse dos investidores pelo “carry trade” com o real.
“Isso ficou claro nas últimas semanas, após o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) anunciar que seria pré-candidato nas próximas eleições presidenciais. O mercado sofreu uma correção de cerca de 3%, já que ele parece menos competitivo que Tarcísio”, nota o estrategista. “Um movimento de alta de 3% [do dólar] no mercado à vista pode facilmente anular cerca de três meses de ‘carry’”, observa. Apesar da piora no fim do ano passado, Kemen diz acreditar ser ainda um pouco cedo para o mercado reagir de forma muito intensa às notícias eleitorais e, por isso, o banco britânico busca oportunidades em torno de movimentos vistos como excessivos.
A mesma perspectiva tem a VanEck, que reúne US$ 162 bilhões sob gestão. “Estamos falando de uma posição muito popular hoje [carrego do real], tanto ‘onshore’ quanto ‘offshore’. Portanto, o ruído eleitoral tende a amplificar a volatilidade”, afirma Eric Fine, gestor de portfólio de mercados emergentes da casa. Para ele, a questão fiscal é delicada e deve ser acompanhada com atenção. “O Brasil é relativamente único em comparação a outros mercados emergentes devido ao seu nível especialmente elevado de endividamento público”, lembra.
O HSBC também demonstra cautela, uma vez que a situação da política fiscal hoje é muito pior do que no passado, conforme aponta o chefe de pesquisa macroeconômica para Brasil do banco, Daniel Lavarda. “Por isso, a nossa taxa de juros tem que ser mais alta”, afirma. “E vimos recentemente que, quando tem um estresse, o chamado ‘barata voa’, não importa muito o nível dos juros. Vimos isso recentemente [no fim de 2024]. Quando a porta é estreita, o pessoal fica se debatendo para sair.”
Fonte: Valor Econômico

