O tempo de duração do conflito no Irã é que deve determinar a magnitude do efeito do evento nos mercados financeiros, em especial se isso significar preços de petróleo mais elevados, diz Benjamin Souza, diretor da BlackRock e estrategista para América Latina, em entrevista ao Valor.
“O que estamos vendo é o petróleo chegar a se aproximar de uma alta de dois dígitos em um único dia. Isso já vinha acontecendo desde a questão com a Venezuela”, afirma. Agora há uma disrupção concreta com o fechamento do Estreito de Ormuz, e isso tem impactos sobre todo o transporte global da commodity, aponta. Ainda assim, o Irã não vinha produzindo plenamente — e uma mudança de regime, se resultar na derrubada de sanções, poderia até resultar mais adiante em uma queda nos preços do petróleo, diz.
Caso o conflito não se transforme em uma guerra que contamine os mercados globais, o ambiente tende a voltar a ser mais construtivo para a América Latina. “Se o conflito não evoluir para uma guerra em larga escala, os investidores continuarão olhando para os mesmos fatores que observavam antes de tudo isso acontecer, que era um ambiente benéfico para os emergentes”, diz.
Valor: É cedo para projetar impactos dessa guerra nos mercados?
Benjamin Souza: A maioria desses choques geopolíticos normalmente faz com que o mercado de juros nos Estados Unidos tenha um desempenho pior; faz com que as taxas subam. A primeira reação do mercado é olhar para o que está acontecendo, e o que estamos vendo é o petróleo chegar a se aproximar de uma alta de dois dígitos em um único dia. O ruído em torno do petróleo já vinha crescendo desde a questão com a Venezuela. Agora você tem uma disrupção real porque você está fechando o Estreito de Ormuz, e isso não impacta apenas a região produtora, mas também o transporte global de petróleo. Como cerca de 20% do petróleo mundial passa por esse estreito, qualquer interrupção ali afeta diretamente a oferta e os custos globais de energia.
Valor: Devemos então esperar preços mais altos de petróleo?
Souza: Tudo depende de quanto tempo essa situação vai durar. Se esse conflito for resolvido, negociado e acabar se dissipando, você provavelmente verá os preços do petróleo voltando a cair. Lembrando que, assim como a Venezuela, o Irã não vinha produzindo plenamente. Portanto, o impacto de uma mudança de regime nesses dois países, com apoio dos Estados Unidos, significa que as sanções que impediam esses países de produzir provavelmente seriam removidas. Por isso, se o conflito no Irã não evoluir para algo em larga escala, poderemos ver uma queda nos preços do petróleo.
Valor: E se o conflito tiver uma duração mais longa?
Souza: Nesse caso você veria um contágio na inflação, em especial nos Estados Unidos. Os preços vinham seguindo uma trajetória muito positiva por lá. Então a discussão que se tinha era se o Federal Reserve (Fed) poderia cortar os juros até 3% ou até mesmo abaixo disso. Agora surge a questão se esse conflito pode contaminar a perspectiva positiva para a inflação nos Estados Unidos. Ainda é muito cedo, o evento acabou de acontecer, então não sabemos exatamente qual será o impacto. Mas essa é, sem dúvida, a principal preocupação do mercado, se o evento será inflacionário.
Valor: Isso pode mudar a precificação de cortes de juros nos Estados Unidos neste ano?
Souza: A verdade é que em breve haverá um novo presidente do banco central americano assumindo o cargo, então também será necessário entender o que esse novo dirigente fará. Portanto, além da incerteza relacionada ao petróleo e ao possível efeito do conflito na contaminação nos preços, também precisamos entender o que o novo presidente do Fed significa para a política monetária.
Valor: Há espaço neste ano para três cortes de juros pelo Fed?
Souza: Hoje o principal problema dos Estados Unidos não é a inflação, mas o emprego. A economia não está destruindo empregos, mas também não está criando novos postos em ritmo suficiente. Em todo o ano de 2025, foram criados cerca de 180 mil empregos, um número muito baixo para o tamanho da economia americana. Ao mesmo tempo, a inflação está próxima da meta de 2%, com várias medidas entre 2,4% e 2,5%. Portanto, se há um problema de emprego e não há um problema inflacionário relevante, há espaço para cortar as taxas de juros. Além disso, é válido dizer que, nos Estados Unidos, a taxa de juros neutra normalmente fica próxima da inflação. Portanto, algo em torno de 2,5%. Hoje você está perto de 3,25%, o que significa que ainda existe espaço para três cortes de juros. Se a dinâmica atual continuar, com o mercado perdendo força, mas a inflação gradualmente recuando, a discussão para 2027 pode passar a ser: deveríamos ir ainda além?
Valor: O conflito no Irã pode conter novos fluxos de capital para os mercados emergentes?
Souza: Se esse conflito não evoluir para uma guerra em larga escala, os investidores continuarão olhando para os mesmos fatores que observavam antes de tudo isso acontecer, que era um ambiente benéfico para esses mercados. Estamos vendo fluxos muito fortes para nossos produtos de mercados emergentes e, pela primeira vez desde que estou nessa posição, há 15 anos, vejo que, dos cinco maiores captadores de recursos, quatro são de estratégia de emergentes.
Valor: E por que esse interesse por emergentes agora?
Souza: Chegamos a um momento em que não estamos mais questionando se a inteligência artificial vai acontecer ou não. Sabemos que ela está acontecendo. E, se ela está acontecendo, será necessário continuar investindo na infraestrutura que sustenta essa transformação. Então, você vai precisar de aço para o data center; vai precisar de alumínio para as instalações das CPUs e GPUs; vai precisar de cobre para a transmissão de energia. Ou seja, insumos que por coincidência estão concentrados em mercados emergentes, especialmente, na América Latina. Ao mesmo tempo, há a China, que agora está tentando alcançar os Estados Unidos. Portanto, ela também deverá aumentar os investimentos em suas empresas. Se os países latino-americanos estão exportando tanto para os Estados Unidos quanto para a China, o ambiente se torna extremamente positivo para essas economias. Há muito tempo não víamos um cenário em que os dois grandes motores de crescimento global estivessem simultaneamente impulsionando a América Latina.
Valor: No ano passado o senhor via o mercado acionário brasileiro muito barato. Ainda enxerga isso?
Souza: Nós utilizamos uma metodologia própria para analisar as posições dentro dos índices MSCI de cada país, avaliando todos os 43 ETFs de países que temos, com o objetivo de entender o que está impulsionando os retornos. O que observamos é que os fatores valor (value) e momentum passaram a liderar a performance, enquanto o fator crescimento, que dominou os últimos anos, perdeu relevância.
Dentro desse cenário, continuo vendo o Brasil como um dos principais mercados de valor no mundo. Apesar da recente valorização, o país ainda negocia com desconto relevante em comparação a outros mercados. Parte desse desconto foi gerada pelas incertezas fiscais e, principalmente, pelo nível elevado de juros, que chegou a cerca de 15% e afastou investidores durante o ciclo de aperto monetário. Agora, porém, acredito que estamos próximos de uma mudança importante. Com a inflação mais controlada, o Brasil tem amplo espaço para cortes de juros, o que tende a reduzir significativamente a taxa de desconto dos lucros futuros das empresas. Por isso, mesmo após o rali recente, sigo vendo o mercado brasileiro como atrativo sob a ótica de “value” [valor], especialmente considerando que muitos outros mercados globais subiram mais.
Valor: Há entre os investidores locais uma leitura binária sobre o resultado das eleições no mercado. Concorda?
Souza: Muitos dizem acreditar que a continuidade do governo Lula seria negativa do ponto de vista fiscal, enquanto qualquer alternativa poderia ser melhor. Ainda assim, o cenário com Lula não é de uma deterioração extrema. Também nenhum candidato no Brasil vai defender algo semelhante ao que fez Javier Milei na Argentina. Não vejo ninguém, em sã consciência política no Brasil, defendendo cortar drasticamente os gastos públicos. Portanto, não acredito em um cenário de uma mudança fiscal dramática. O que pode acontecer é o quadro fiscal continuar se deteriorando ou estabilizar. Mas ainda é cedo e não há candidatos oficiais. No fim das contas, independentemente de quem vencer, o país continuará se beneficiando da venda de aço e minério de ferro para os EUA e para a China. E o investidor global tende a se preocupar um pouco menos com a política doméstica e mais com os resultados das empresas.
Fonte: Valor Econômico
