Não foi uma surpresa a decisão do presidente Donald Trump de assinar a saída dos Estados Unidos da Organização Mundial da Saúde (OMS), na enxurrada de medidas polêmicas nas primeiras horas do seu novo governo. Trump havia feito isso no mandato anterior, em julho de 2020, quando os Estados Unidos já viam aumentar os casos de covid-19, que levaram à morte um total estimado em 1 milhão de americanos. A medida teria efeito em 2021, mas a saída não foi concretizada. O democrata Joe Biden assumiu a Presidência e revogou a determinação.
Na campanha de 2024, Trump não só disse que retiraria seu país da OMS como nomeou o negacionista Robert F. Kennedy Jr. para comandar o Departamento de Saúde e Serviços Humanos do país (HHS), o equivalente ao Ministério da Saúde no Brasil. Kennedy Jr. é conhecido pelas posições antivacina e por sua insistência em suspender a aplicação de flúor na água canalizada nas cidades americanas.
Agora, voltou a reclamar da influência política da China e de que a contribuição anual do país asiático fica ao redor de US$ 100 milhões, um quinto da feita pelos EUA. Queixou-se também da má administração da OMS da pandemia de covid-19 e de outras crises globais de saúde.
Algumas críticas de Trump têm fundamento, como o fato de a OMS ter hesitado em responsabilizar a China pela expansão do surto. E não se descarta que o gosto de Trump pelas barganhas leve os EUA de volta à OMS, como ele mesmo cogitou caso o valor da contribuição americana seja reduzido.
Pelas regras da OMS, a saída da organização só implicaria a suspensão das contribuições um ano depois. Mas Trump estabeleceu que fosse imediata a interrupção da transferência de fundos, apoio ou recursos do governo americano à OMS. Além disso, determinou que funcionários ou contratados do governo dos EUA que estejam trabalhando em funções na OMS sejam chamados de volta e que “parceiros confiáveis e transparentes” sejam identificados para “assumir as atividades necessárias anteriormente realizadas” pela organização. Disse também que o governo vai rever e substituir a Estratégia Global de Segurança Sanitária dos EUA (de 2024) o mais rapidamente possível.
Os EUA eram até agora o maior doador da OMS, responsáveis por quase um quinto do orçamento da organização, que significaram US$ 1,28 bilhão no biênio 2022 e 2023, bem acima do segundo colocado, a Alemanha, com US$ 856 milhões. Em terceiro lugar está a Fundação Bill & Melinda Gates, com US$ 830 milhões, direcionados em sua maior parte para a erradicação da poliomielite.
Um dos principais programas globais de saúde do qual os americanos participam é o Plano de Emergência do Presidente dos Estados Unidos para a Luta contra HIV /Aids (PEPFAR). A iniciativa foi lançada em 2003 pelo governo americano para controlar a pandemia de HIV até 2030 e tem parceria de mais de 50 países. De acordo com informações oficiais dos EUA, o PEPFAR tem apoiado serviços abrangentes de prevenção, cuidados e tratamento a milhões de pessoas em todo o mundo através do tratamento antirretroviral. Não mais.
As contribuições dos EUA são também destinadas ao combate à tuberculose e à malária e ajudaram na erradicação da varíola, especialmente em países pobres de África e Ásia. No Brasil, a relação mais próxima, incluindo acordos de cooperação técnica, é com a Organização Pan-Americana de Saúde (Opas), cujo financiamento, acredita-se, foi preservado por Trump ou ainda não entrou na sua alça de mira.
Não só o poder financeiro dos EUA fará falta na OMS, mas também o apoio técnico e científico de seus pesquisadores. Os EUA têm 72 centros de colaboração com a OMS. Agências americanas importantes como o Centers for Disease Control and Prevention (CDC) e a Food and Drug Administration (FDA) fornecem orientação importante para a OMS como padrões de medicamentos e parâmetros para profissionais de saúde.
Além de deixar a OMS, Trump suspendeu a participação americana nas negociações do Acordo Pandêmico da organização, iniciadas após a crise sanitária da covid-19 para estabelecer um plano global de ação unificada em futuras pandemias. Qualquer decisão nesse sentido não terá “força vinculativa” sobre os EUA, disse Trump.
A OMS, com todas suas falhas, mostrou-se o único foro mundial ativo a estimular a cooperação global contra pandemias e reúne expertise para criar estratégias universais contra novas ameaças. O ano começou com alerta da OMS sobre 42 emergências em andamento – 17 crises de grau 3, as mais graves. Entre as mais desafiadoras estão as epidemias contínuas de cólera e da varíola M (mpox), além da febre hemorrágica Marburg. Os EUA assistem no momento ao perigoso movimento de transmissão da gripe aviária para seres humanos, com mortes. Como a covid-19 comprovou a um custo trágico – 15 milhões de vítimas, segundo a OMS -, pandemias são um problema global, e Trump, que já desdenhou da covid, ignora mais uma vez a realidade.
Fonte: Valor Econômico