Projeto é parceria entre Unifesp, USP, Incor e pesquisadores do Instituto Butantan
Por Marcelo Osakabe, Valor — São Paulo
10/06/2022 06h00 Atualizado há uma hora
O sucesso das primeiras fases da campanha de vacinação contra a covid no Brasil não impede que o país volte a sofrer com a doença que arrastou o mundo para uma crise entre 2020 e 2021. Em meio ao atraso na aplicação da terceira dose — apenas 44,04% da população foi aos postos tomar o reforço — e indícios de que o número de casos e internações voltou a subir no país, especialistas da área voltam a pedir a retomada de medidas como o uso de máscaras em ambientes fechados e reforçar a campanha de vacinação.
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Outro flanco aberto na guerra contra a covid é encontrar novas formas de imunização da população. Entre as vacinas chamadas de segunda geração, está o de um spray nasal desenvolvido em parceria entre a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), a Universidade de São Paulo (USP) e o Instituto do Coração (Incor).
A aposta parece incomum, mas seu sentido é bastante prático: a ideia é agir no local onde costuma ocorrer a transmissão do vírus. Isso ocorre porque, muitas vezes, o indivíduo vacinado acaba não contraindo a doença, mas recebendo e repassando o vírus através de secreções presentes no nariz e na boca.
O estudo liderado pelo Incor mira imunizar a região utilizando pedaços da proteína Spike de variadas cepas da covid-19, aumentando o potencial de proteção contra a doença. Essa proteína é a responsável pela entrada do coronavírus dentro das células.
Segundo Jorge Kalil, diretor do laboratório de Imunologia do Incor, o projeto segue na fase de experimentos em animais, que mostram que a vacina induz resposta epidemiológica tanto em termos de anticorpos como de resposta celular.1 de 1 Jorge Kalil, diretor do laboratório de Imunologia do Incor — Foto: Luis Ushirobira/Valor
Jorge Kalil, diretor do laboratório de Imunologia do Incor — Foto: Luis Ushirobira/Valor
No entanto, problemas de atraso com a importação de reagentes do exterior e também de financiamento fazem com que o projeto encontre dificuldades em passar à fase seguinte, que é a de produção-piloto em boas práticas de fabricação. Sem superar essa etapa, não é possível iniciar a fase 1 de testes clínicos.
“Para a produção-piloto, nós precisamos, sim, de recursos complementares. Se nós fizermos a produção-piloto e formos aceitos na Anvisa, existe já um dinheiro reservado pelo Ministério de Ciência de Tecnologia e Inovação”, disse Kalil.
A ideia é que o spray nasal seja usado como um complemento à vacinação mais tradicional. Nesta semana, o Ministério da Saúde liberou a quarta dose, ou segunda dose de reforço, para pessoas a partir dos 50 anos.
O médico acredita que período de ensaios clínicos na população possa ser curto, mas já admite que a entrega da vacina possa ser adiada. Inicialmente, esperava-se que o produto pudesse estar à disposição da população no fim deste ano. Inicialmente, era esperado que os testes com voluntários pudessem ocorrer já no início deste ano.
“Acho difícil cumprir o prazo para fim de 2022, mas vamos continuar lutando. É uma ideia que vale a pena, era inédita quando lançamos e continuo achando que tanto nosso antígeno quanto formulação são vencedores”, disse Kalil.
Vale lembrar que spray nasal em desenvolvimento no Brasil é diferente do produto israelense cuja empresa fabricante foi visitada por Eduardo Bolsonaro (PL-SP) em fevereiro do ano passado. O medicamento em questão, de nome EXO-CD24, era destinado a casos graves da doença.
Fonte: Valor Econômico