A Rússia voltou ontem a minimizar as expectativas de uma solução rápida para a guerra na Ucrânia, ao considerar inaceitáveis as condições sugeridas por europeus e americanos para garantir a segurança do território ucraniano. O ministro de Relações Exteriores russo, Sergei Lavrov, disse que as tentativas de resolver questões de defesa na região sem a participação de Moscou são um “caminho para lugar nenhum”.
A declaração foi um alerta para o Ocidente, que busca fórmulas para garantir a proteção futura de Kiev. A demonstração de contrariedade de Moscou chega também após dias de negociações intensas entre o presidente dos EUA, Donald Trump, inicialmente com seu colega russo, Vladimir Putin, e, depois, com o ucraniano, Volodymyr Zelensky, e outros líderes europeus.
“Não podemos concordar com o fato de que agora se propõe resolver questões de segurança, de segurança coletiva, sem a Federação Russa. Isso não vai funcionar”, disse Lavrov. “Tenho certeza de que no Ocidente, e principalmente nos Estados Unidos, eles entendem perfeitamente que discutir seriamente questões de segurança sem a Federação Russa é uma utopia, é um caminho para lugar nenhum.”
“A Rússia aceitará se as garantias de segurança à Ucrânia forem fornecidas em igualdade de condições, com a participação de países como China, EUA, Reino Unido e França”, disse Lavrov, referindo-se aos cinco países que têm poder de veto no Conselho de Segurança das Nações Unidas. No entanto, a Ucrânia já tinha declarado que não aceitará que a Rússia tenha um papel nas decisões sobre questões que envolvam sua defesa ou detenha o direito de vetar ações de outros países na defesa de Kiev.
Moscou também reafirmou esta semana sua rejeição categórica a “qualquer cenário que envolva o envio de tropas da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan, a aliança militar ocidental) para a Ucrânia”.
Lavrov acusou os líderes europeus que se encontraram com Trump e Zelensky de causarem “uma escalada bastante agressiva da situação, tentativas um tanto desajeitadas e, em geral, antiéticas de mudar a posição do governo Trump e do presidente dos EUA pessoalmente”. “Não ouvimos nenhuma ideia construtiva dos europeus lá”, afirmou.
Trump disse na segunda-feira que os EUA ajudariam a garantir a segurança da Ucrânia em qualquer acordo para encerrar a guerra da Rússia no país. Posteriormente, ele disse que havia descartado o envio de tropas americanas para a Ucrânia, mas que os EUA poderiam fornecer apoio aéreo como parte de um acordo para encerrar as hostilidades.
Ao mesmo tempo, as tropas de linha de frente da Ucrânia veem com ceticismo as negociações que causariam a concessão de territórios ucranianos ocupados pela Rússia.
“Qual é o sentido de entregar [a região de] Donetsk [aos russos]?”, disse um soldado que está na linha de frente na Ucrânia ao jornal britânico “The Guardian”. “Depois de todos os sacrifícios que fizemos, dos camaradas que perdemos? Se fosse para fazer isso, poderíamos ter feito logo no início da guerra”, completou o militar.
Pelo plano sugerido por Trump, a Ucrânia perderia quase um quinto de seu território para a Rússia.
Líderes militares da Otan, que realizaram uma videoconferência na semana passada, tiveram uma “ótima e franca discussão” sobre os resultados das recentes negociações sobre a Ucrânia, disse o presidente do comitê militar da aliança.
“A prioridade continua sendo uma paz justa, confiável e duradoura”, escreveu o almirante Giuseppe Cavo Dragone em uma postagem na rede social X.
No domingo, Steve Witkoff, enviado especial de Trump, disse que durante sua cúpula no Alasca com o presidente dos EUA, Putin concordou que os EUA fornecessem à Ucrânia garantias “semelhantes às do Artigo 5”, uma referência à cláusula de defesa mútua da Otan – pela qual um ataque a qualquer país da aliança equivale a um ataque a todos os seus membros.
Em comentários que surpreenderam muitos observadores, Witkoff apresentou a ação da Rússia como uma concessão e um avanço “revolucionário”, dizendo que “foi a primeira vez que ouvimos… os russos concordarem com isso”.
Witkoff não mencionou, porém, nenhuma reivindicação da Rússia por direito de veto, que é uma posição de longa data. Os comentários de Lavrov de ontem sugerem que a Rússia não mudou em nada sua posição.
Líderes europeus disseram que a Ucrânia deve receber “fortes garantias de segurança que devem se concentrar, antes de tudo, no fortalecimento do exército ucraniano”, disse uma autoridade da União Europeia ontem. “Discussões em nível técnico estão em andamento – veremos onde chegaremos depois disso”, acrescentou a autoridade.
Fonte: Valor Econômico
