O presidente dos EUA, Donald Trump, está considerando a possibilidade de deixar o acordo comercial da América do Norte (USMCA), o que injeta mais incerteza sobre o futuro do pacto que está prestes a ser renegociado com México e Canadá.
Trump tem indagado a importantes assessores por que os EUA não deveriam deixar o acordo, fechado por ele mesmo em seu primeiro mandato na Casa Branca — apesar de não ter chegado ao ponto de sinalizar claramente que abandonará o USMCA —, segundo fontes ouvidas pela agência Bloomberg.
Os três países devem revisar o USMCA antes de uma possível extensão do acordo em 1º de julho. O processo, que antes era considerado rotineiro, se transformou em uma negociação contenciosa por causa das ameaças comerciais de Trump aos vizinhos.
Nas negociações prévias, Trump exigiu concessões comerciais adicionais do Canadá e do México, pressionando os dois países a tratar de temas não relacionados ao comércio, como imigração, tráfico de drogas e defesa.
Uma eventual saída dos EUA do USMCA abalaria as bases de uma das maiores relações comerciais do mundo, já que o pacto cobre cerca de US$ 2 trilhões em bens e serviços. Até mesmo a ameaça de deixá-lo já poderia aumentar a incerteza entre investidores e líderes globais. No mês passado, Trump qualificou o acordo USMCA como “irrelevante”.
A possibilidade foi levantada em um momento que Trump já começou a aumentar a pressão sobre o México e especialmente sobre o Canadá. O presidente americano ameaçou elevar as tarifas sobre produtos canadenses para 100% caso o país feche um acordo comercial com a China e aumentar as alíquotas sobre as aeronaves do vizinho para 50% em uma disputa sobre a regulamentação de jatos da Gulfstream.
Na segunda-feira, Trump abriu uma nova disputa com o governo do primeiro-ministro canadense, Mark Carney, recusando-se a autorizar a inauguração da ponte internacional Gordie Howe, que liga Detroit a Windsor, em Ontário, uma obra avaliada US$ 4,7 bilhões.
Trump também ameaçou taxar produtos do México e de outros países que enviam petróleo a Cuba, o que fez com que o governo de Claudia Sheinbaum suspendesse os embarques para a ilha, que enfrenta uma grave escassez de combustível agravada também pela decisão da Casa Branca de impedir a chegada de barris venezuelanos após a captura do ditador Nicolás Maduro.
Não está claro se Trump ameaçará publicamente deixar o acordo ou se fará um aviso formal sobre a saída. Ambas as opções podem ser usadas como uma tática para obter um acordo mais favorável aos EUA em vez de efetivamente retirar o país do trato.
Sheinbaum minimizou nesta terça-feira a probabilidade de Trump deixar o acordo. “Não acreditamos nisso, e isso nunca foi dito nas nossas conversas, porque o acordo é muito importante para nós”, disse.
Já Carney afirmou na terça-feira que teve uma conversa “positiva” com Trump, que incluiu discussões sobre a revisão do USMCA.
A saída dos EUA do USMCA poderia provocar impacto econômico imediato ao elevar as tarifas sobre exportações mexicanas e canadenses. Atualmente, a maioria dos bens negociados sob o acordo está isenta das taxas globais de Trump, mas há exceções notáveis, como os automóveis.
Como resultado, México e Canadá têm tarifas médias efetivas relativamente baixas em comparação com produtos de outras potências. Ambos são os dois maiores parceiros comerciais dos EUA e os principais compradores de produtos americanos, segundo dados de 2024.
Se a saída do pacto provocar retaliações, e isso pode prejudicar a campanha de Trump de aumentar as exportações dos EUA e também elevar os preços os produtos dos vizinhos para os americanos — que já avaliam mal o governo em razão da alta do custo de vida no país.
Preocupados com o impacto da insatisfação dos americanos com a economia, três republicanos se uniram aos democratas na Câmara dos Deputados e vetaram, em uma derrota para Trump, uma resolução que tentava barrar a avaliação de projetos contrários às tarifas.
Os democratas do Congresso consideram que a manutenção do tratado USMCA é fundamental para que os EUA influencie seus vizinho a conter a ameaça que exportações chinesas representam principalmente à indústria automobilística dos EUA.
Nesta quarta-feira à noite, a Câmara dos Deputados dos EUA aprovou uma medida que desaprova as tarifas impostas ao Canadá. O texto segue agora para o Senado, onde tem boas chances de ser aprovado.
Fonte: Valor Econômico
