O “Relatório de Riscos Globais” do Fórum Econômico Mundial, que pauta a reunião de líderes em Davos, é leitura obrigatória para entender, refletir e agir em torno das principais ameaças que teremos adiante como mundo, no curto e longo prazo (dois e dez anos). Ao analisar o documento deste ano, só uma frase me vem à mente: a vida como ela é.
Está bem retratado nas 100 páginas do “Global Risks Report 2026” o que estamos vivenciando, entre estarrecidos, temerosos e ansiosos: conflitos geopolíticos e sociais, mudanças tecnológicas rápidas, interesses econômicos sobrepujando o bem comum, fragmentação do multilateralismo, avanço arriscado das inteligências artificiais, instabilidade climática.
Esta é a 21ª edição do relatório, que consultou 1.300 líderes e especialistas da academia, empresas, governos, organizações internacionais e sociedade civil, entre 12 de agosto e 22 de setembro de 2025, e foi lançada em 14 de janeiro. O documento identifica e analisa os riscos mais urgentes para fornecer a líderes elementos para enfrentarem os desafios emergentes. E haja desafios…
Pela primeira vez, “Confronto Geoeconômico” é o principal risco global no curto prazo, avançando oito posições em relação ao ano passado. Em segundo lugar vem “Desinformação e Fake News”, que entrou no ranking em 2024 e de lá não saiu. Completam o Top 5 “Polarização Social”, “Eventos Climáticos Extremos” e “Conflito Armado entre Estados”. Os fatores econômicos cresceram mais rapidamente na perspectiva de dois anos, com “Recessão Econômica” e “Inflação” subindo oito posições, indo para o 11º e 21º, respectivamente.
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Com as ameaças urgentes se impondo, a maioria dos riscos ambientais apresentou queda, com “Eventos Climáticos Extremos” passando do 2º para o 4º lugar e “Poluição”, do 6º para o 9º. “Mudança Crítica nos Sistemas Terrestres” e “Perda de Biodiversidade e Colapso de Ecossistemas” caíram sete e cinco posições, respectivamente.
Esse resultado não é conflitante com o que às vezes acontece na condução da agenda ESG. Algumas iniciativas podem ser pausadas ou diminuírem seu ritmo em função das pressões econômicas urgentes, regras internacionais, tarifas, jogo político, competitividade. Manejar todos os pratinhos do dia a dia corporativo não é tarefa simples. Mas, como sempre digo, o importante é ter claro o objetivo final. É isso o que nos mostra o ranking de longo prazo: nele, cinco dos dez principais riscos são de natureza ambiental, com “Eventos Climáticos Extremos” de novo na primeira posição. No aspecto social, “Desigualdade” está na 7ª posição, tanto no curto como no longo prazo, mas é o mais interconectado pelo segundo ano consecutivo, ou seja, potencializa outros riscos conforme sua intensidade.
Pode parecer paradoxal, mas na parte que identifica os riscos que podem causar uma crise global significativa em 2026, “Eventos Climáticos Extremos” é o terceiro, com 8% das respostas. Em primeiro vem “Confronto Geoeconômico” (18%) e depois “Conflito Armado entre Estados” (14%). Vejo como muito relevante a preocupação com as questões climáticas para este ano. Afinal, não faltam trágicos exemplos das suas devastadoras consequências econômicas, sociais e ambientais.
Um capítulo rico é a “Pesquisa de Opinião Executiva: Percepção Nacional de Risco”, onde mais de 11 mil entrevistados de 116 países escolhem numa relação de 34 riscos os cinco que representarão a maior ameaça para a sua Nação nos próximos dois anos. A apuração foi feita entre março e junho de 2025.
Os riscos indicados para o Brasil são:
- “Desaceleração Econômica”
- “Serviços públicos e Proteções Sociais Insuficientes”
- “Dívida Pública”
- “Crime e Atividades Econômicas Ilícitas”
- “Inflação”
Me preocupa não ver a dimensão ambiental nessa lista, mas isso não é exatamente uma surpresa. No ano passado, tínhamos elencado “Eventos Climáticos Extremos”, mas agora as pressões já descritas falaram mais alto. E o Brasil não está sozinho nessa escolha. Apenas 30 dos 116 países relacionaram algum risco ambiental.
No prefácio da publicação, Saadia Zahidi, Diretora-Geral do Fórum Econômico Mundial, destaca uma lição de todo esse vasto compilado de informações: “A cooperação é indispensável para a gestão de riscos globais. Em um mundo com maior competição, isso pode ser mais difícil de alcançar, mas somente reconstruindo a confiança e novas formas de mecanismos colaborativos os líderes poderão nos guiar rumo a uma maior resiliência e ajudar a moldar um futuro mais estável. O futuro não é um caminho único e fixo, mas uma gama de trajetórias possíveis, cada uma dependente das decisões que tomamos hoje como comunidade global”. Vamos ver o que nos dirá o encontro de líderes que ocorre em Davos até 23 de janeiro sob o tema “Um Espírito de Diálogo”…
Fonte: Valor Investe

