Um dia após a Câmara dos Deputados aprovar por unanimidade o projeto que amplia a isenção do Imposto de Renda (IR), os mercados registraram piora na percepção de risco, à medida que os agentes voltam a mirar, ainda que pontualmente, o “trade” eleitoral. A leitura de que a medida pode reforçar a popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) se somou à retomada das discussões sobre tarifa zero para ônibus, o que chacoalhou os mercados de juros e trouxe reflexos também para a bolsa e o câmbio. Os ativos domésticos, porém, encerraram a sessão distantes das mínimas do dia.
Logo no início da sessão, voltaram a circular nas mesas de operação notícias relacionadas a estudos do governo para zerar tarifas de ônibus. O Valor já havia dado essa informação no mês passado, mas, em um dia sem grandes gatilhos no Brasil e no exterior, o mercado viu uma oportunidade para exigir prêmios de risco maiores. A volatilidade dos ativos brasileiros foi bastante expressiva, sobretudo nos juros reais, extraídos das NTN-Bs (títulos indexados à inflação).
No mercado de juros reais, a instabilidade foi bastante relevante. Os agentes trataram de embutir nas cotações a chance de uma redução significativa nos preços das passagens de ônibus, o que provocaria uma queda forte no IPCA no curto prazo. Assim, para “comprimir” a inflação implícita de curto prazo, houve um aumento relevante dos juros reais por meio da venda de NTN-Bs. No fim do dia, a taxa do papel para 2027 saltou de 8,820% para 8,918%, enquanto o juro real extraído da NTN-B de 2028 avançou de 8,236% para 8,305%, de acordo com a Anbima.
“A pressão nos papéis indexados à inflação acabou respingando nos juros futuros, que já estavam fragilizados por novas incertezas eleitorais e pelo fraco desempenho das moedas emergentes”, observa um trader de renda fixa da tesouraria de um grande banco local. Houve, de fato, um salto das taxas, que, embora não tenham fechado nas máximas da sessão, chegaram ao fim do dia em níveis bastante elevados. A taxa do DI para janeiro de 2029 subiu de 13,255% para 13,39%; e a do DI para janeiro de 2031 escalou de 13,44% para 13,595%.
“A curva tem incorporado prêmios há algum tempo, mas de forma gradual”, observa o gestor de renda fixa Ian Lima, da Inter Asset. Ele nota que, apesar de sinais de desaquecimento da atividade econômica e da inflação corrente, as expectativas de inflação seguem desancoradas e que parte disso se deve ao fato de 2026 ser um ano eleitoral, em que possíveis medidas de estímulo fiscal façam a demanda agregada sentir menos a política monetária restritiva.
“Temos uma rodada de precatórios que saiu agora; a isenção do IR foi aprovada com compensação, mas existe um estímulo à demanda agregada, o que gera uma possibilidade de a convergência da inflação à meta se dar em um prazo ainda mais dilatado… As incertezas poluem o cenário. O movimento de hoje [ontem] foi de capitulação e teve um tempero a mais com as notícias sobre isenção de passagem de ônibus”, enfatiza Lima.
O gestor nota, sobretudo, que houve uma diferença na dinâmica do mercado de juros ontem, já que a curva ganhou inclinação, diante de uma alta mais intensa das taxas longas em relação às mais curtas. “O componente fiscal entrou na conta e essas notícias entram no radar em um contexto no qual ainda não temos claro o cumprimento da meta fiscal de 2026 Isso deixou o mercado mais receoso em relação a como a questão fiscal será resolvida. No limite, as notícias vão todas na mesma direção: de mais estímulo à demanda agregada.”
Houve algum alívio nos mercados durante a etapa vespertina dos negócios, após notícias de que não há nem mesmo um esboço da iniciativa relacionada às tarifas de ônibus. No entanto, permaneceu no radar dos agentes financeiros a percepção de melhora da popularidade de Lula, o que impediu uma evolução definitiva dos ativos domésticos. O Ibovespa fechou em queda de 1,08%, aos 143.950 pontos e, no câmbio, o dólar comercial subiu 0,20%, para R$ 5,3394.
Na avaliação do estrategista de ações da XP, Raphael Figueredo, o desempenho do Ibovespa mostrou a continuidade de uma realização de lucros. “Temos uma manutenção da correção dessa tendência de alta do Ibovespa. O que eu percebo é que devemos ter esse quadro de correção até ali perto dos 137 mil, 138 mil pontos, olhando para um horizonte de curto prazo”, diz.
Após a forte valorização do Ibovespa, Figueredo avalia que é natural que os investidores que compraram ações, antes do avanço mais expressivo das últimas semanas, comecem a buscar proteção e reduzam um pouco a exposição em renda variável. “Por isso, eu acho que vamos passar por um processo de correção [na bolsa].”
Para além do movimento natural de correção, o estrategista da XP observa que o desempenho negativo do índice foi amplificado pela continuidade da piora nos preços de petróleo, o que afetou diretamente a Petrobras, e por um menor apetite por risco externo. As ações ordinárias da estatal caíram 1,24% e as preferenciais recuaram 0,96%.
No caso do câmbio, o gestor Filipo Venditti, da Parcitas Investimentos, revela não ter posições em real, apesar de apostar na extensão do movimento de dólar fraco globalmente. “No caso do real, olhando para o curto prazo, não vejo espaço para apreciar muito mais. Temos ruídos políticos no radar e uma sazonalidade ruim no fim do ano. Vai depender muito do [movimento] externo.”
Para ele, inclusive, o real poderia ter valorizado até mais neste ano, dado o movimento global e o diferencial de juros elevado entre Brasil e EUA. “Mas, ao longo do ano, sempre teve um ruído aqui e ali”, diz o gestor ao citar a Lei Magnitsky, o “tarifaço” de 50% sobre bens brasileiros exportados para os EUA e dúvidas sobre a compensação da isenção do IR, além de medidas para aumentar gastos “em um momento que não temos espaço para isso”.
“Se tirássemos esses riscos, teríamos um prêmio menor e o ‘carry’ [do diferencial de juros] poderia ajudar mais”, afirma Venditti.
Fonte: Valor Econômico